Evelson de Freitas/ Estadão
Evelson de Freitas/ Estadão

Forasteiros no território da arte tupi

Timidamente, galerias começam a chegar ao Brasil, que atrai mas amedronta marchands com impostos de importação

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2013 | 02h20

A artista alemã Ellen Slegers é uma mulher de coragem. Enfrentando a turbulenta fase pela qual passa o País - agora o menos atraente entre os emergentes para os estrangeiros -, ela abriu em São Paulo um espaço de arte alternativo para abrigar a obra de outros artistas estrangeiros que, a exemplo dela, provavelmente demorariam a chegar ao circuito comercial brasileiro por meio de galerias convencionais. Desde o último dia 13, em pleno tumulto das passeatas, a Estemp funciona com a exposição Neblina no Outro Lado da Rua, reunindo trabalhos de três alemães que estudaram com Ellen Slegers em Düsseldorf: Hannes Norberg, Juergen Staack e Thyra Schmidt.

Trata-se de um modelo de exposição inusitado para os padrões do mercado. Nenhum desses três artistas veio ao Brasil pensando em conquistar colecionadores entre os 227 mil milionários que existem no País. Vieram simplesmente divulgar seu trabalho a convite de Ellen. Pode parecer pouco, mas não quando se considera que o otimismo que cercava o mercado de arte há alguns meses foi insuficiente para convencer novas galerias estrangeiras a investir no País. Duas delas, entre as gigantes do mercado global, cuja entrada era tida como certa, estão em compasso de espera para ver o que acontece com a economia brasileira: a Gagosian (com 11 filiais no mundo) e a Pace (com sete).

A Pace Gallery, que comercializa a obra de artistas como o pintor inglês David Hockney e o fotógrafo japonês Hiroshi Sugimoto, entre outros, não desistiu da ideia de instalar sua filial brasileira, garante Elizabeth Esteve, diretora de um dos escritórios londrinos da galeria, que tem quatro filiais em Nova York, duas em Londres e uma em Pequim. "Tivemos ótimos resultados na última SP-Arte e vamos continuar a participar de feiras, como a do Rio, em setembro, mas, por enquanto, preferimos esperar para abrir uma galeria no Brasil", revela Elizabeth.

A White Cube, que funciona na Vila Mariana desde o final do ano passado, foi, aliás, instalada em São Paulo depois que a diretora artística Susan May testemunhou o sucesso da galeria na SP-Arte de 2011. A White Cube organizou uma exposição do escultor Anthony Gormley, de Tracey Emin e, em seguida, a coletiva O Gesto e o Signo com obras de Damien Hirst e Mark Bradford, entre outros.

Agora, menos de um ano após a inauguração, ela passa por uma reforma para ampliar o espaço expositivo e receber em julho a mostra do alemão Magnus Plessen. Karla Meneghel, diretora artística da White Cube e uma das fundadoras da Camargo Vilaça (hoje Fortes Vilaça), garante que a experiência brasileira da galeria tem resultado positiva, mesmo com as complicações tributárias de um País que, apesar de estar entre as sete maiores economias do mundo, tem um comportamento no comércio internacional incompatível com sua ânsia de desenvolvimento.

"As galerias estrangeiras temem as altas taxas de importação, o que pode explicar a razão de outras não se instalarem no Brasil", explica Karla, que admite ser hoje tão difícil divulgar um artista estrangeiro e introduzi-lo aos compradores brasileiros como era complicado apresentar os artistas da Geração 80 na época em que manteve sua galeria com o marchand Marcantonio Vilaça, que ajudou a alavancar nos anos 1990 a geração de Nuno Ramos.

"A White Cube montou em Londres uma mostra de Jac Leirner e vai abrir uma coletiva com outros brasileiros", diz, lembrando que o trânsito de peças de arte em Londres é mais fácil que no Brasil. "Aqui, a operação de trazer obras ainda é muita cara, o que assusta os estrangeiros".

Em contrapartida, cresce o número de compradores brasileiros nos leilões e feiras - nacionais e internacionais. Rio e São Paulo concentram 80% dos negócios de arte no Brasil e são, portanto, alvos naturais da ambição dos galeristas estrangeiros, que recuam diante da burocracia para a liberação de obras na alfândega e, como se disse, dos altos impostos.

Não que elas temam a concorrência das galerias brasileiras, até porque não costumam vender obras de artistas nativos por aqui. Em 2012, segundo pesquisa, o mercado brasileiro movimentou algo em torno de R$ 1,3 bilhão (leilões e galerias.) É pouco em comparação com o chinês (algo em torno R$ 21 bilhões), mas não um número desprezível. Só que a situação é inversa: na China, os leilões dominam. Aqui, as galerias respondem por quase 80% das vendas.

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