FORA DO TOM

Artigo sobre Casa das Rosas rivaliza os poetas Fred Barbosa e Bonvicino

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2012 | 03h06

O carnaval dos poetas Frederico Barbosa e Régis Bonvicino foi um tanto agitado. Longe dos sambódromos e salões, os dois protagonizam desde o fim da semana passada uma briga pública na internet, que chegou ao gabinete do secretário de Estado da Cultura Andrea Matarazzo e que vem mobilizando poetas e intelectuais na defesa dos dois.

As desavenças são antigas e notórias, mas esse novo embate teve origem com a publicação, em 3 de fevereiro, na Sibila, revista virtual dirigida por Bonvicino, do artigo Sibila Avalia a Casa das Rosas. O texto assinado por Luis Dolhnikoff questiona a qualidade da programação da instituição paulista a partir, sobretudo, da análise do que foi publicado no site. Nem o "Quem somos" foi deixado de fora da avaliação.

Há comentários como "a Casa das Rosas é uma instituição relativamente grande - mas talvez ainda não seja, infelizmente, uma grande instituição. Está, em todo caso, muito longe de ser um ímã ou um farol na atual paisagem poético-cultural paulistana. (...) A Casa das Rosas de fato nunca esteve no centro das atenções, no centro das conversas, no centro dos interesses, no centro das expectativas." Ao final, o texto questiona: "O que pode o Estado em relação à poesia contemporânea? Se só pode muito pouco ou quase nada, para que todo o orçamento da Casa das Rosas? (...) O que faz de fato a Casa das Rosas pela poesia brasileira contemporânea? Qual é, aliás, o orçamento da Casa das Rosas?".

Barbosa, diretor do casarão que hospeda eventos literários e a biblioteca de Haroldo de Campos, não se manifestou de pronto. "Não respondi porque sabia que os próprios poetas e frequentadores da Casa o iriam fazer."

Nesse meio tempo, publicou um poema no site Cronópios, apresentado como "Tece o poeta comentário sobre canalha perseguidora e querendo emendá-la o tem por empresa dificultosa ou de como um notório maluco se tornou juiz e anda apitando por aí ou ainda um protesto contra a decadência da arbitragem no futebol brasileiro". No fim do texto, escreveu que qualquer semelhança com pessoa viva ou morta seria coincidência.

Mas Bonvicino, que é também juiz, considerou que aquele era um recado dirigido a ele e a sua família. Em mensagem publicada na seção Impacto - Fala dos Leitores, da Sibila, escreveu: "Essa sujeito me chamou de corrupto, que faço negócios da China, inepto, brocha, disse que minha ex-mulher é lésbica, minha filha é 'bipolar', que eu sou tão ruim que nasci de uma mãe suicida, etc.". Essas associações, Bonvicino faz a partir da íntegra do poema de Barbosa e de coincidências, como o caso de sua filha, que se trata atualmente de um transtorno psicopatológico.

Barbosa garante que não pensou em Bonvicino ao escrever o texto. "Não é uma cantiga de maldizer; é uma cantiga de escárnio, um poema satírico, e não foi dirigido a ele e nem a ninguém. Eu nem sabia de nada da família dele." Bonvicino não acredita: "Se o Barbosa nega, desafio-o e desafio o Clóvis Carvalho, presidente da Poiesis, a ajuizarem ações por danos morais contra mim", disse ao Estado.

Uma "representação formal" pedindo "providências cabíveis e legais" foi enviada a Matarazzo. O secretário encaminhou o assunto para a Poiesis, para que Clóvis Carvalho "analise o documento e os fatos lá relatados e tome as providências que julgar necessárias". A Poiesis é a antiga Sociedade Amigos da Casa das Rosas, que em 2008 se tornou uma organização social, passando a ser responsável pela gestão d a Casa das Rosas, Museu da Língua Portuguesa, Casa Guilherme de Almeida e Oficinas Culturais. Carvalho, por sua vez, disse, através de sua assessoria, que a entidade não vai se envolver "já que se trata de uma briga de longa data dos dois".

O poema da discórdia, tal como foi concebido, já não está mais nos sites onde Barbosa o publicou - mas está na página da Sibila. "Ele anda dizendo que tem a ver com a família dele, então achei melhor tirar porque não quero ofender sua filha." Como Bonvicino vê a alteração? "Como uma confissão de que praticou um poema calúnia."

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