''Fora de rota'', rap cria alternativas

Praticamente de fora da Virada Cultural (só um palco, no Viaduto Santa Ifigênia, contempla alguma coisa), o hip-hop se articula para fazer uma Virada Alternativa. Algumas casas de São Paulo, como o Espaço Soma (Rua Fidalga 98, Vila Madalena; 20 horas, R$ 15) anunciam atrações do gênero.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2010 | 00h00

"Não é novidade pra ninguém que o hip-hop ficou praticamente de fora da Virada Cultural 2010. Como você, nós da +Soma também gostaríamos que fosse diferente. Mas, em vez de reclamar do limão azedo, resolvemos rimar sobre a limonada", diz a assessoria do local. O Soma escalou as atrações A Filial, Akira Presidente, Rincón Sapiência, Stefanie, Kamau e Akin.

"Acho que o que aconteceu em 2006, a confusão no show dos Racionais, iniciou essa coisa. Outros fatores depois contribuíram para ir colocando o hip-hop de canto, como por exemplo em 2007, quando o rap foi colocado num palco afastado das outras atrações e tinha revista do público", lembra o rapper Kamau, que estará na Virada Alternativa e na oficial.

Segundo Kamau, os shows este ano estão mais concentrados nos CEUs da Prefeitura. "Poderia haver um palco central, no miolo dos acontecimentos, porque a ideia da Virada é que vários públicos sejam atendidos. Eu não sei se há alguma motivação política na exclusão do rap, mas aquilo que aconteceu em 2006 foi um erro de produção, de preparo. De maneira alguma foi culpa dos Racionais."

Na Virada Cultural, o único rapper de destaque escalado é Thaíde, um dos pioneiros do gênero em São Paulo ao lado do DJ Hum. Além dele, na chamada Pista Santa Efigênia, estarão presentes Magoo, o DJ Jully Jully, Gaby Beyonce a Melhor, DJ Gregão, Angel Keys, Gran Master Ney, R-Jay e Cabal.

O produtor, compositor, arranjador e letrista Edu, do coletivo Filial, acha que é preciso parar de olhar o hip-hop com uma atenção "genérica". O Filial tem 10 anos de existência, está no quarto disco e já lançou álbum nos EUA. Tem formação de banda, instrumental, mas Edu às vezes atua sozinho com um DJ, funcionando como um MC.

O coletivo Filial é definido por Edu como um "projeto sobrevivente que vai rolando aí no Brasil", e é difícil de ser rotulado. Eu acho o seguinte: é lamentável nego classificar um gênero musical como se fosse uma coisa à parte da cena da cultura do nosso país, especialmente em São Paulo, metrópole do País", afirma o rapper, que é carioca e vive em São Paulo há dois anos. "O rap, o hip-hop, é uma realidade dos dias de hoje, uma linguagem que representa uma fatia muito grande de nossa sociedade, desde os menos favorecidos até a classe média. É ignorância muito grande tratar como se fosse coisa à parte, abafar dessa maneira. Eu tenho certeza que isso aconteceu por algum tumulto, o evento dos Racionais. Mas briga, tumulto em show acontece. Pode acontecer no show da Ivete Sangalo, e vão culpar a música baiana por causa disso?"

O mais sensato, segundo o artista, seria os organizadores darem uma olhada para o modo como está sendo feito o evento, e chegar a uma conclusão sobre qual é o palco adequado para esse tipo de linguagem. "É preciso que eles tenham uma abordagem menos genérica. As pessoas lidam com a música e a arte de forma muito genérica. Numa festa em que se oferece de tudo, não pode deixar de ter uma atenção especial para cada linguagem", avalia.

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