´Fora de Jogo´ traz iranianas apaixonadas por futebol

Filme simpático é a favor de uma liberalização maior do regime dos aiatolás

Agencia Estado

07 de julho de 2002 | 10h06

Há muitas maneiras de apontar adiscriminação contra a mulher nos países islâmicos, e JafarPanahi escolheu uma das mais originais, apelando para a paixãouniversal pelo futebol. Fora de Jogo conta a pequena históriade um grupo de garotas que queria assistir a uma partida daseleção do Irã pelas eliminatórias da Copa do Mundo. E qual oproblema? Problema imenso, pois as torcedoras não podem entrarno estádio, tido como "lugar de homem". Não é que sejamdesaconselhadas, o que já seria absurdo. São impedidas por forçada lei. O filme põe em cena um grupo de meninas que resolve desafiar alegislação antiquada e entrar no estádio de qualquer jeito. Pelaforça? Não porque elas não a tem. Precisa ser no jeitinho. E sóencontram um caminho, disfarçar-se de homens. Eis aí o enredo mínimo desse filme simpático, levemente crítico,e a favor de uma liberalização maior do regime dos aiatolás.Claro, há uma série de desenvolvimentos nessa história que, detão pequena, daria apenas um curta-metragem se não fossemalgumas variações sobre o tema. Variações que, por mais bemsacadas que de fato sejam, não se mostram capazes de fornecerorganicidade a uma idéia de tiro curto. CriançasO clima é aquele que se conhece do cinema iraniano típico, desdeque ele passou a ser divulgado no Ocidente no início dos anos1990. Temos uma mistura de inocência e malícia, com personagensque falam o tempo todo e não parecem entender-se entre si. Háuma curiosa relação entre os homens, que são aqueles querealmente dominam e controlam o país, e os "outros", ou seja,crianças e mulheres. Você pode ver aí uma situação literal e outra figurada. De fato,as crianças são tuteladas, protegidas, e não apitam em nada. Omesmo se pode dizer em relação às mulheres. Por outro lado, sepode pensar que nem mesmo os homens comuns podem ter voz muitoativa nesse tipo de regime, a não ser que façam parte dahierarquia do Estado. A distribuição do poder é muitoassimétrica e os "outros" da sociedade tendem a ser vistos comoincapazes, irresponsáveis, inaptos para decidir sobre seupróprio destino. Não por acaso, as crianças foram personagens tão importantescomo freqüentes nos primeiros filmes iranianos que chegavam aténós. Mais do que uma preocupação com a infância, essa escolha depersonagens infantis reflete uma estratégia dos cineastas.Críticos distraídos costumam dizer que os filmes iranianos sófalam em criancinhas sem se dar conta desse expediente dosartistas em uma sociedade vigiada. Assim, as crianças estavam no centro de vários daqueles filmes e em especial, num do próprio Panahi, o excelente Balão Branco.Mais tarde, Panahi voltou seu olhar para as mulheres nocontundente O Círculo, vencedor do Festival de Cinema deVeneza, um dos três mais importantes do mundo. Sentido social Em seguida, veio um filme atípico em sua filmografia, OuroCarmim, um caso policial contado em flash-back e sem nenhum doselementos anteriores. Trata-se apenas da história de umentregador de pizzas obeso, que um dia cede à tentação do crimee paga caro por isso. Nessa história policial, contada com ritmoatípico para o diretor, temos um corte vertical - e cirúrgico -da sociedade urbana de Teerã. Quer dizer, qualquer que seja a temática adotada, ou a linguagemescolhida, Panahi não renuncia jamais em dar um sentido social àsua obra. Dadas as circunstâncias em que trabalha, parece umadisposição heróica, beneficiada, é verdade, pela proteçãoproporcionada por prêmios em festivais de ponta e portantoreconhecimento internacional. Com Fora de Jogo a disposição não é diferente. Como quem nãoquer nada, Panahi vai mostrando os problemas mais graves dasociedade iraniana. E, também, insuspeitos laços desolidariedade entre pessoas que, em tese, estariam em camposopostos. Tudo iria muito bem não fosse uma certa impressão decansaço sugerida pelo filme. Talvez a fórmula já tenha sedesgastado um pouco e Panahi devesse dar um passo, ou vários, àfrente. Fora do Jogo - Offside. (Irã/2006, 88 min.) - Comédia Dir. Jafar Panahi. 12 anos. Cine Bombril 2 - 14h, 16h, 20h, 22h(3.ª não haverá sessão). Reserva Cultural 2 - 14h25, 16h15,18h10, 20h, 21h50. Cotação: Bom

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