Fora da nova ordem mundial

Um dos nomes mais radicais da cena contemporânea, o norte-americano Richard [br]Maxwell recusa os novos recursos multimídias e inaugura um 'drama não-dramático'

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

O norte-americano Richard Maxwell não diz exatamente aquilo que se espera ouvir de um "homem" de teatro: confessa que não consegue dialogar com Shakespeare, compara sua obra ao punk rock e conta que se importa, sim, com o que os críticos comentam sobre seu trabalho.

Saudado como um dos mais instigantes nomes da dramaturgia contemporânea, o diretor da companhia New York City Players esteve no Brasil na semana passada para participar do Festival Internacional de São José do Rio Preto. Com ingressos esgotados para as seis sessões, seu espetáculo Ode ao Homem que se Ajoelha foi uma das grandes apostas da programação, que terminou anteontem, e surpreendeu o público ao apresentar cenas de um realismo absolutamente antirrealista e subverter gêneros canônicos de seu país, como o faroeste e o musical. Na entrevista a seguir, Maxwell conversou, a pedido do Estado, com o diretor Roberto Alvim, curador do FIT e responsável pela montagem de três textos do autor, em São Paulo.

Roberto Alvim: Se compararmos as peças do começo de sua carreira com as últimas, percebemos procedimentos muito diferentes. Como você vê o desenvolvimento da sua dramaturgia?

Richard Maxwell - Acho que a transformação definitiva se dá com o 11 de Setembro, é isso que muda os meus procedimentos. De repente, eu tenho tanta coisa a dizer e não fico mais satisfeito com o silêncio.

Alvim: Neste último espetáculo, Ode ao Homem que se Ajoelha, você sinaliza uma série de alterações de tempo e espaço apenas com a maneira como usa a linguagem. É como se você se apropriasse de uma lógica mais próxima da poesia do que da prosa, que é uma lógica linear. Você vê esse movimento?

Maxwell: Na verdade, eu penso em música enquanto escrevo. Alguma coisa que fala ao coração. Tento ser específico com aquilo que estou sentindo, mas não acho que tenho necessidade de explicar isso. Porque, na maioria das vezes, quando você explica muito uma coisa, o mistério desaparece.

Alvim: Você vem de um país onde existe um método hegemônico de direção de atores, do Actors Studio, e você trabalha em uma direção contrária a esse método.

Maxwell: Acho que o método de direção de atores que predomina hoje nos EUA não tem muito a ver com essa ideia de transe ou da incorporação de um personagem. Isso se transformou em algo muito mais pragmático, muito mais próximo da lógica da indústria. A indústria quer que você finja, eles acham que representar é necessário para se contar uma história, e eu, não. Eu digo aos atores: você não tem de representar. Só tem que viver a situação de interpretar uma peça para uma plateia.

Alvim: Seu país tem uma larga tradição em musicais. E você trabalha sempre ou quase sempre com músicas. Como usa as canções nos seus espetáculos?

Maxwell: Quero saber como o teatro pode tirar vantagem daquilo que só o teatro pode oferecer. O que não tem relação com esse pastiche do teatro multimídia contemporâneo. Eu não tenho nada a ver com isso. Quero recuperar o impulso primeiro de se contar uma história da maneira mais básica. Quando falo com os atores, não estou falando de psicologia, mas de ritmo, a linguagem já é musical.

Alvim: O seu trabalho dialoga com quais autores?

Maxwell: Eu não posso responder a Shakespeare, não está em mim. Está muito distante de quem eu sou: um cara do Meio-Oeste americano. Esses autores que surgiram nos anos 1960, como Harold Pinter e Joe Orton, me dizem mais.

Alvim: Seu material temático é amplo. Pode ser uma estação de segurança, uma casa no subúrbio, faroestes, Idade Média. Como escolhe temas tão distintos?

Maxwell: O importante num trabalho é manter uma atitude de aprendiz. Eu não sei nada, sabe? Sei que estou o tempo todo perdendo informações. E isso me dá um sentimento de desespero. Quando o conhecimento se torna fixo e você se comporta como se estivesse ensinado alguma coisa ao público, isso deixa de ser interessante.

Alvim: Neste começo de século vivemos crises no espectro político e social. Como você se coloca como artista nesse contexto, qual a sua contribuição para o teatro neste momento?

Maxwell: Espero ter algum impacto formal no que está acontecendo. Porque você pode ter um teatro político, um teatro, por exemplo, que fale do sofrimento em Guantánamo, e isso é válido. Mas uma coisa que não vejo ser questionada é o jeito como o entretenimento é automático. Ninguém está falando sobre a forma, sobre o jeito como uma história pode ser contada. Você me perguntou sobre influências. O punk rock - a atitude de ter alguém que mal sabe tocar um instrumento em cima de um palco, fazendo música com o coração dela_ isso me parece importante, isso me move. O que aconteceu no punk é formal. E é isso que eu acho que as pessoas podem tirar do que eu estou fazendo.

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