Folias mistura canções e histórias

Grupo se inspira no bairro de Santa Cecília e na propria trajetória para criar musical

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2012 | 03h09

"É o recomeço da história", brada o ator assim que as luzes se acendem. Uma história em que início, meio e fim se misturam e se confundem. Com A Saga Musical de Cecília..., espetáculo que abre temporada amanhã, o grupo Folias põe uma lente de aumento sobre sua trajetória. Examina o percurso que cumpriu até aqui. Faz de suas recentes perdas e danos o motor para se reinventar.

Para compor o jogo, vem à baila a relação da companhia com o bairro onde sua sede está instalada: a imagem de Santa Cecília surge como pretexto para as figuras defendidas por quatro atrizes. Com percursos diferentes, essas mulheres expõem suas contradições, seus questionamentos e também as relações que estabelecem com uma São Paulo hostil.

Não existe, porém, uma fábula linear que dê conta de tudo isso. Ou uma progressão dramática da narrativa posta em cena. Assim, ora encaramos as tais Cecílias como personagens, ora elas aparecem completamente despidas da proteção da ficção.

Ator do grupo, Danilo Grangheia assumiu a direção e se apropriou dessas fissuras como potência criativa. "Queríamos romper com a ideia cartesiana de construção de personagens", comenta ele. "Construímos tudo em cima de fragmentos poéticos e músicas. Fugindo do drama."

Nessa saga, as canções ocupam lugar proeminente. Algumas das composições são inéditas, concebidas sob medida para o espetáculo. A maioria, contudo, foi recolhida a partir das 30 peças que o Folias tem em seu repertório. Além de deslocadas de seu contexto original, essas canções revisitadas também mereceram outro tratamento. "Com uma roupagem mais pop", define o diretor.

Algo que se traduz em uma sonoridade menos acústica e mais elétrica. Será assim que temas de domínio público - como Preciso Me Encontrar, de Cartola, ou O Que Tinha de Ser, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim -, podem surgir completamente transformados pela introdução de guitarras e bateria.

O Folias já se aventurou muitas outras vezes pelo gênero musical: em montagens como Surabaya, Johnny! (1999) e Cabaré da Santa (2008). Em certa medida, porém, o que se pronuncia nesta encenação é algo distinto. Tanto, que parece difícil definir o caráter do espetáculo: peça de teatro ou show? "E nos agrada estar neste meio do caminho, difícil de definir", observa Grangheia.

Estar nesse lugar indefinido é o recurso utilizado pelo grupo em suas prospecções por um novo rumo. A estrutura em fragmentos resiste a uma interpretação unívoca: do que se está a falar, afinal? Vemos esparramar-se pelo palco uma miríade de histórias embebida em música. "Queremos nos colocar em um novo espaço. E isso passa por uma desestabilização do nosso vocabulário estético, uma tentativa de ressignificar coisas que estavam um pouco viciadas", acredita o encenador.

Muitas mudanças alteraram a rotina de trabalho da companhia. Entre elas, a morte do dramaturgo Reinaldo Maia, em 2009. Assim como o afastamento do diretor Marco Antonio Rodrigues. Refeita do luto e da ausência, a trupe buscou entre seus próprios integrantes possíveis motores para a transformação pretendida. Os atores tomaram novas funções: Francisco Carlos assina a dramaturgia. Bruno Perillo é responsável pela direção musical.

A atual montagem é, nesse contexto, o resultado de um processo de autoexame. Nem tudo que vem à tona, porém, soa puramente endógeno ou ensimesmado. Ainda que soe contraditório, de tanto olhar para si mesmo, o Folias acabou por tatear um teatro político. A Saga Musical de Cecília... não está a serviço de um discurso tampouco vincula um ideário definido. Mas, à sua maneira, coloca no centro da cena a cidade caótica, nossos embates diários com a paisagem que nos desperta amor e ódio.

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