Folias ao Vertigem: ponte que vale cruzar

Os espetáculos Kastelo e Êxodos têm mais conexões do que se poderia supor

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

É possível detectar uma interessante rede de conexões entre dois espetáculos em cartaz na cidade: Êxodos, do grupo Folias, e Kastelo, do Teatro da Vertigem, dois coletivos teatrais de longa e premiada trajetória. Embora não intencional, o surgimento de uma ponte poética ligando o Minhocão à Avenida Paulista, que merece ser atravessada, não é mera coincidência. A leitura dos programas revela um ponto de partida comum: desterritorialização. A complexidade do tema pedia um recorte e em ambos a abordagem veio pelo viés do trabalho, o que propicia tecer aproximações, afastamentos e complementaridades.

O espetáculo do Folias coloca em cena árabes, negros, ciganos, chicanos, toda uma gente que tenta atravessar fronteiras, muros, oceanos, para se integrar ao mundo do trabalho. No espetáculo do Vertigem, o público vai encontrar os integrados, secretárias, telefonistas, executivos, funcionários de uma grande corporação.

Em Êxodos, a busca é pela negação de vínculos seculares e territoriais que teimam em se grudar no corpo. O que antes dava sentido à vida, tornou-se empecilho. Habilidosamente, a encenação permite vislumbrar a riqueza que se extingue, por exemplo, uma cultura ancestral sedimentada em séculos de nomadismo que a cigana tenta reduzir à identidade "francesa". Inutilmente. A travessia não é mais possível. Do outro lado há excesso, não falta. Mas também não há volta. Só o não pertencimento no limbo da fronteira.

Daí, para alguns espectadores, a incômoda sensação de que não há andamento - comum a Êxodos e Kastelo. Há, sim, mas não avanço. Só um eterno presente infernal. Proposital nessas encenações. Na criação do Folias não importa a aventura ou frustração da travessia. E o que importa não é visível na cena: aquilo que atua sobre o desejo e leva a essa fronteira. O que há do outro lado? Os imponentes castelos de vidro do capitalismo?

Num deles estão os personagens de Kastelo e "encontrá-los" depois de ter passado por Êxodos faz pensar nos desdobramentos da falta que abre espaço para todas as penetrações. Um letal atravessamento de corpos é o problema tratado nesse outro espetáculo. Metas em lugar de desejos; planilhas por planos. O elenco atua sobre andaimes, mas as figuras em cena agem como se estivessem num escritório qualquer, indicando que a instabilidade é condição "natural" ao mundo corporativo. Mas é preciso colar a pele às paredes para não cair. Lá embaixo, na sarjeta, muitos querem subir. Sugestivamente, apenas o motoboy consegue exprimir um impulso vital, ainda que de medo. Terceirizado, ele é peça de reposição barata, talvez por isso, menos atravessada.

Se em Êxodos todas as crianças morreram, em Kastelo elas nem nascem. A executiva afasta relações afetivas da mesma forma que exonera funcionários incômodos. Seus óvulos jamais fecundados se tornaram fósseis. Tal tratamento da infância é mais um dos pontos de contato, a impossibilidade de projetar horizontes. Em ambos, os procedimentos formais convergem para uma construção poética quase documental, sem apelo emocional. E não por acaso.

O discurso entusiasmado que aponta os possíveis caminhos até um futuro promissor pertence agora aos departamentos de marketing, está nas reuniões empresariais, na propaganda, nos livros de autoajuda, na retórica dos políticos. A troca mercantil move o discurso da felicidade: você pode, se votar em mim, comprar o que vendo, atingir suas metas. Daí a opção artística pela potência do não entusiasmo, o tempo congelado, a análise fria. Não se trata de ser do contra. Mera rebeldia. O fluxo de identidade, em si, não é negativo. Pode ser até libertador. Mas nesses tempos de deslocamentos velozes, flutuações e instabilidades estamos conseguindo escolher o que nos interessa atravessar? Uma descrição técnica e fria de um processo de afogamento, aparentemente aleatória, chega aos ouvidos do espectador em Kastelo. No início o corpo resiste, mas quando a água invade as veias, vem a morte.

Onde e quando ver

KASTELO

Direção: Eliana Monteiro

Texto final:Evaldo Mocarzel

Elenco: Bruna Freitag, Denise Janoski, Luciana Schiwiden,

Luisa Nóbrega, Marçal Costa, Roberto Audio, Pardal

Sesc Paulista (80 lug.). Aveni-da Paulista, 119, telefone 3179-3700. 80 min. 14 anos.

De 5.ª e 6.ª, às 21 horas.

Sáb. e dom., às 19 e

21 horas. Ingressos R$ 20

ÊXODOS

Direção: Marco Antonio Rodrigues

Dramaturgia: Atores e Jorge Louraço

Elenco: Bruna Bressani, Danilo Grangheia, Flávia Tavares, Ieltxu Martinez Ortueta, Joana Mattei, Patricia Barros, Val Pires

Galpão do Folias (56 lug.). Rua Ana Cintra, 213, tel. 3361-2223 150 min. 14 anos. 5.ª a sáb.,

às 21 h. Dom., às 20 h. R$ 30

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