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Folgados

Folgados jogam papéis no chão, conversam em cinema, pedem favores exorbitantes

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2018 | 04h00

Estou em um voo de Fortaleza para São Paulo. Todos acomodados e, de repente, um senhor recém-chegado à aeronave tenta encontrar lugar para seus pertences. Os compartimentos estão transbordando. Ele age com determinação, pega a bagagem do meu assistente Filipe e começa a levá-la para a parte de trás do avião, já que o processo anterior de socar mochilas e malas com violência no bagageiro superior não obtivera sucesso. Filipe protesta e recoloca suas coisas no lugar original. O homem se surpreende como se apenas então descobrisse que havia outros seres humanos ali. Fico observando e tentando entender como alguém entra tarde, encontra tudo cheio e decide que é melhor deslocar a bagagem de outrem para os fundos do avião e não a sua. Como alguém ultrapassa a linha mínima de civilidade assim, sem constrangimento? Estamos diante do clássico folgado.

Há folgados conscientes e inconscientes. Existe uma folga “normal” do indivíduo que nem pensa mais no seu gesto, apenas não vê o outro. Sua tranquilidade em se considerar o único ser humano do planeta é quase natural. O segundo tipo é plenamente convencido de que ser folgado é boa estratégia e quem se aproveita mais fica mais feliz. O primeiro tipo passa à frente da fila sem olhar para ninguém, o segundo olha nos olhos e ignora a ordem de chegada. 

Quando estou generoso com a humanidade à qual pertenço com alguma relutância, suponho que exista um déficit de atenção do espaço alheio, um defeito de fábrica, uma miopia específica qualquer. O folgado do primeiro tipo poderia ser uma espécie de deficiente: ele realmente não vê nada. Nos dias não tomados pela compaixão, enfatizo o ódio sobre o segundo tipo: invasor, agressivo, inimigo da civilização e que deve sofrer os rigores do desprezo e da punição com tenazes ardentes.

Os folgados falam aos borbotões em celulares, conversam em cinemas, jogam papéis no chão, pedem favores exorbitantes, eructam, bufam, empurram, perfumam-se em excesso, transformam o som do carro em trio elétrico, estacionam na calçada ou na vaga de idoso desde os dezenove anos e, acima de tudo, entendem a população em geral como pessoas a seu serviço e nascidas para seu prazer. 

A percepção do todo, de que existem mais pessoas além de mim, é fundamental. Acima de tudo, a necessidade de vigorar o princípio diplomático: o reino da minha liberdade absoluta chega soberano apenas até a fronteira do país alheio. Entre as duas monarquias absolutas, entre mim e o outro, existe uma área republicana, neutra, regida pelo bom senso e pela regra de ouro da etiqueta: respeito. 

A percepção do outro como um ser com direitos é uma educação. Começa com o costume que os pais sempre fizeram: cobram da criança o obrigado ao receber o presente. A primeira etapa é treino mesmo: tornar automático o emprego das quatro frases-amuleto contra a folga futura: por favor, com licença, desculpe-me e muito obrigado. Após o processo educativo, tende a existir uma consciência mais sutil de vida em grupo. Começa em coisas pequenas: enumerando pessoas e se incluindo na lista apenas ao fim.

“Fomos à festa: Rafaela, Francisco, Otávio e eu.” Começar listas com o pronome pessoal reto “eu” é a ponta do iceberg. Cuidados na fala e atenção ao compartilhar espaços coletivos constituem passos importantes na vacina antifolga. Desde cedo estimular as crianças a respeitar mais velhos, dar preferência a gestantes, olhar garçons nos olhos e agradecer o prato servido, ter compaixão pela fragilidade alheia, sorrir e insistir na gentileza.

O mais denso passo educativo contra a folga é lento, não surge do nada e encontra resistência interna. O uso contínuo da estratégia da gentileza pode levar ao patamar superior de existência que é encontrar prazer em priorizar o outro. Funciona como academia de musculação: certa resistência inicial e, com o passar dos anos, surge a dopamina da anilha, você sente falta dos pesos. A educação pessoal contra a folga é uma quebra da parede hobbesiana da luta de todos contra todos e um diálogo pela harmonia. A etapa final é ficar feliz em fazer outra pessoa feliz. 

Como sempre, a luta começa pelo trivial e chega a pontos mais altos. Descobrir o prazer de abrir mão de um benefício ou até de um direito para que o outro esteja melhor é a solução definitiva contra o espírito autocentrado. A cegueira sobre o outro é curada pelo prazer de servir. O sintoma de que você está próximo disso é se tem mais alegria em presentear do que ser presenteado. Se você exulta em descobrir o gosto e o desejo de quem ama, se gasta o tempo da compra com alegria e usa seu suado dinheiro com leveza, se pensa muito no desejo alheio sem impor seu egocentrismo, se entrega a dádiva com genuíno altruísmo, você tem um traço bom no caminho da superação do eu solar ao redor do qual circulam os planetas alheios. 

De forma poética se diz que “sempre fica um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas”. A oração falsamente atribuída a São Francisco afirma que “é dando que se recebe”. Podemos invocar teologia sólida para justificar a primazia do outro, contudo gosto de pensar em antropologia básica. Sociedades humanas mais cooperativas e com estímulos à solidariedade são menos estressadas e mais felizes. Se você quiser um último estímulo ao princípio que defendi aqui, basta olhar para estados que perderam a referência do outro: a Venezuela e a Síria, por exemplo. Não estou falando de ver o outro como forma de alcançar o paraíso, mas uma boa medida para evitar o inferno. Bom domingo para todos nós. 

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