Foles dinâmicos no meio do jazz. O suingue de Maceo Parker em dois palcos

Bebê Kramer e Toninho Ferragutti juntam seus acordeons em festival

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2012 | 03h08

Há quase dois anos rodando o Brasil com um dinâmico duo de acordeons, o paulista Toninho Ferragutti e o gaúcho Bebê Kramer levam seu concerto popular em versão ampliada para o BMW Jazz Festival. Eles representam o Brasil como a segunda atração da noite de estreia do festival hoje, na Via Funchal.

Entre outras afinidades musicais, a dupla tem a sofisticação clássica e o senso de humor na forma de tocar e de apresentar seu repertório. No show de amanhã, terão como convidados outros dois refinados acordeonistas: o cearense Adelson Viana e o paulista Gabriel Levy. "Viana vem da escola nordestina e Levy tem se interessado muito pela música cigana, do Leste Europeu. Bebê traz a cultura do Sul e eu, a do interior de São Paulo", observa Ferragutti, que tem vasta experiência em tocar com várias formações e com artistas de diversos estilos.

Desta vez também terão um grupo de apoio com Alexandre Ribeiro (clarinete), Zé Alexandre Carvalho (baixo acústico), Henrique Araújo (cavaquinho) e dois percussionistas, Amoy Ribas e Roberto Angerosa, este especialista em flamenco. "Minha intenção é realçar que no forró elegante de Adelson também tem um pouco da cultura árabe, que fez o caminho pela Península Ibérica. E a sanfona é um instrumento bastante representativo da cultura popular não só do Brasil, mas desses outros países", diz Ferragutti.

Para Kramer, o diálogo musical com Ferragutti se dá de forma espontânea. "Isso resulta de a gente ficar tocando horas juntos, cada um sabe o lado certo pra onde vai. Muitas coisas a gente nem combina. Em cada show da turnê a gente ficava duas horas antes tocando juntos, então é por isso que é tudo bem entrosando, um completando o outro", diz o músico gaúcho.

Com o trabalho em parceria registrado no ótimo CD Como Manda o Figurino (Borandá), eles têm contribuído para dar outra dimensão ao instrumento, levando-o para as salas de concerto, sem contudo tirar o brilho da alegria, que o associa ao contexto de festa, seja de vanerão ou de forró.

Entre essas duas representantes das pontas do País, no CD eles tocam valsa, choro, toada, ao mesmo tempo uma música elaborada e divertida. No palco, entre um número e outro, costumam narrar episódios engraçados, alguns vivenciados na própria turnê da dupla. Atitudes como a deles - além de músicos e compositores como Arismar do Espírito Santo, Alessandro Penezzi e Alexandre Ribeiro, mais ligados ao choro - têm colaborado para provar a certa parcela do público que a música instrumental não é um bicho de sete cabeças, nem entediante. Um dos bons exemplos é o tema O Sorriso da Manu, que Ferragutti fez para a filha de 12 anos.

"Essa vontade de se expressar de maneira engraçada é de trazer para o palco o que a gente é nos bastidores", diz Ferragutti. "Como não temos os truques dos atores, podemos oscilar muito. Então, a música nos dá a segurança. A gente procura deixar o show mais leve e tocar um tipo de público que às vezes não está acostumado a ouvir música instrumental. Embora a música seja sofisticada, a gente toca de maneira a não passar dificuldade."

A dupla segue adiante com mais 54 shows até o fim do ano. Ainda este mês, Ferragutti e Kramer tocam nas embaixadas brasileiras de Berlim e Madri, em julho se apresentam na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e entre agosto e outubro rodam o Norte e o Nordeste brasileiro. "A gente ainda tem muita história pra contar", diz Ferragutti.

"Viajando pelo País dentro do projeto Sonora Brasil, que fazemos pelo Sesc, uma das nossas funções é mostrar um acordeom diferente. Conheço poucos trabalhos que vão por essa linha no Brasil. Isso se deve à falta de material de estudo, há bem pouca gente escrevendo música para acordeom", diz Kramer.

Apesar disso, tanto ele como seu parceiro vêm o instrumento em franca expansão pelo País. "Cada vez mais os acordeonistas estão tendo maior formação musical. Com isso, estão percebendo cada vez mais a riqueza, as possibilidades do instrumento, que vai muito bem com instrumentos de sopro, de corda e de palheta. Ele tem grande poder de dinâmica e sustentação de som, então vai muito bem com a voz também", diz Ferragutti.

O bem-sucedido encontro de Toninho Ferragutti e Bebê Kramer terá lugar entre os shows do Ambrose Akinmusire Quintet e a reunião de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White, hoje, na Via Funchal. O BMW Jazz Festival segue amanhã com apresentações do Clayton Brothers Quintet, Trombone Shorty, forte nome da nova geração do jazz, com Orleans Avenue, além de Maceo Parker com Fred Wesley e Pee Wee Ellis, naipe de metais da lendária JB's, banda de James Brown. Darcy James Argue's Secret Society, Ninety Miles e Charles Lloyd Quartet encerram o evento no domingo, quando haverá também uma apresentação grátis, no Parque do Ibirapuera, de Parker e The Clayton Brothers, às 17 horas. / L.L.G.

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