Fôlego de jovem até o fim

Desde seu centenário, arquiteto não interrompeu seu ritmo, criando novas obras e tomando a frente de reformas, algumas bem polêmicas

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

06 de dezembro de 2012 | 08h51

Oscar Niemeyer não se aposentou quando completou 100 anos, comemorados em 15 de dezembro de 2007. Seu escritório, Arquitetura Urbanismo Oscar Niemeyer S/C Ltda., instalado na Avenida Atlântica em Copacabana, no Rio, foi contratado para uma série de novas criações com a assinatura do arquiteto desde então. Apesar da longa idade, Niemeyer ainda desenhava - e tinha sempre a palavra final nos projetos -, mas estava sempre assessorado por equipes, tendo como parceiro o engenheiro José Carlos Sussekind, amigo com quem trabalhou por quase quatro décadas.

Entre os destaques de sua trajetória mais recente está o Centro Niemeyer, complexo cultural com 16 mil m² em Avilés, na Espanha, formado por teatro, museu, prédio administrativo, restaurante e uma praça. Projetada pelo escritório do arquiteto brasileiro e tendo seu nome como homenagem, a instituição foi inaugurada em março de 2011. Encomendado pelo governo das Astúrias como parte de estratégia para que a região possa ser eleita "Capital Cultural Europeia" em 2016, o Centro Niemeyer espanhol - que não tem nenhuma relação com a Fundação Oscar Niemeyer - viveu tempos polêmicos, com seu fechamento, em dezembro de 2011, por problemas políticos, mas reabriu posteriormente.

Outro projeto vultoso de Niemeyer, no Brasil, foi a Cidade Administrativa de Minas Gerais Presidente Tancredo Neves, orçada em quase R$ 1 bilhão e inaugurada em 2010 em Belo Horizonte. O arquiteto, que projetou o Complexo da Pampulha (tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) na capital mineira na década de 1940, a convite de Juscelino Kubitschek, foi convidado em 2004 a criar o complexo administrativo do governo de Minas pelo então governador Aécio Neves. A obra, com a marca do desenho de Niemeyer, fica abrigada em área entre o trajeto de Belo Horizonte para o Aeroporto de Confins.

Áreas ecléticas. Os pedidos de obras para o escritório do "arquiteto do século" não pararam de aparecer e até seu fim Niemeyer continuou ativo, criando incessantemente em sua prancheta. Brincava que fazia "um projeto por semana" e colocou seus traços a favor de empreitadas das mais diversas. Em março de 2008, desenhou, em apenas três horas, o esboço do que seria um monumento em homenagem ao ex-jogador Pelé para a cidade de Santos. A ideia inicial se desenvolveu e se estendeu para o protótipo do Museu Pelé, instituição em homenagem ao "rei do futebol". O arquiteto projetou também o Aquário de Búzios; o Museu de Arte Contemporânea de Ponta Delgada, no Arquipélago dos Açores, em Portugal; a Vinícola Château Lacoste, na França; e o Ateliê Saint-Moritz, na Suíça, para citar alguns exemplos. Ajudou, ainda, a projetar novas instalações para o Caminho Niemeyer em Niterói, entre elas, uma cúpula, um espelho d’água e uma rampa curvilínea para dar acesso à sede da Fundação Oscar Niemeyer. E inaugurou, em 2010, uma passarela para pedestres de 60 metros de extensão entre a favela da Rocinha, no Rio, e o bairro de São Conrado.

Entretanto, uma das obras mais celebradas que levariam sua assinatura em São Paulo, a concepção da reformulação do prédio do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) na região do Parque do Ibirapuera, para abrigar a nova sede do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), foi descartada no fim de 2008 pelo governo do Estado de São Paulo - e, desde então, tantos foram os impasses que até hoje as obras do gigantesco espaço museológico não foram concluídas.

Como Oscar Niemeyer foi o autor do projeto original do edifício na década de 1950, então Pavilhão da Agricultura do Conjunto Arquitetônico do Ibirapuera, a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo encomendou ao próprio arquiteto que fizesse os croquis e desenhos de reformulação do prédio para receber o acervo do MAC-USP. Niemeyer chegou a criar um anteprojeto para a obra, que incluía até a instalação de uma estrutura vermelha na fachada do complexo.

O Detran foi desalojado para outro local da cidade, a reforma foi iniciada em 2008, mas o governo de São Paulo decidiu desconsiderar o projeto de Niemeyer, alegando questões financeiras e falta de aprovação das propostas do arquiteto pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp). Niemeyer, na época da decisão, ficou "contrariado". O governo paulista decidiu fazer a reformulação do prédio por meio de seu próprio órgão de engenharia.

Brasília. A capital federal brasileira, símbolo máximo da carreira de Niemeyer - a cidade projetada por ele e por Lucio Costa - também esteve na lista de projetos mais recentes do arquiteto, entre eles, um polêmico em 2009.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou em 2007, no centenário de nascimento do arquiteto, os monumentos que ele criou para a capital federal. Na ocasião, o escritório de Niemeyer foi contratado para projetar a reforma do Palácio do Planalto, que, como o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na época, estava "uma favela" por causa de infiltrações e outros problemas. Por um problema de licitação, a reforma com a assinatura de Niemeyer foi anulada.

Outra polêmica, ainda maior, em torno de Niemeyer e Brasília, deu-se com o projeto da Praça da Soberania (ou Praça do Povo) para a Esplanada dos Ministérios, local tombado e, assim, proibido de abrigar novas edificações. O arquiteto desenhou a obra, que previa praça, obelisco triangular de 100 metros de altura e estacionamento subterrâneo para 3 mil veículos.

Por causa do decreto de tombamento dos monumentos brasilienses de 2007, o Ministério Público Federal solicitou na época (2009) que o então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), e o Iphan explicassem o projeto, muito criticado, principalmente, por outros arquitetos. O debate se deu em torno do "monopólio" de Niemeyer em relação a tudo o que se refere a Brasília e a certa "descaracterização" da cidade por causa da grandiosidade do desenho da praça.

Niemeyer, primeiro, defendeu seu projeto, mas depois anunciou que havia desistido "provisoriamente" da Praça da Soberania em artigo publicado no jornal Correio Braziliense. Disse que, "desestimulado", arquivaria o projeto. E realmente o arquivou.

América Latina. No exterior, além de criar o grande centro cultural em Avilés, na Espanha, Niemeyer foi convidado a projetar uma instituição de cultura para porto chileno de Valparaíso. No ano de seu centenário, em 2007, o arquiteto criou o desenho do museu e teatro para o Chile. Niemeyer teve, ainda, a oportunidade de projetar sua primeira obra para a Argentina, um complexo com auditório coberto, salas de exposições, escola e esplanada para espetáculos para a cidade de Rosário.

Fora da América Latina, criou o desenho do prédio que abrigará, em Argel, na Argélia, uma biblioteca árabe/sul-americana e a Universidade de Ciências e Informática de Havana, em Cuba.

Voltando ao Brasil, foi inaugurado em 2009 em frente de uma das mais emblemáticas obras do arquiteto, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, o Módulo de Ação Comunitária desenhado por Niemeyer. No alto do Morro do Palácio, favela na zona sul da cidade vizinha ao Rio de Janeiro, o Maquinho, como ficou conhecido, é construção com curvas e com fachada de vidro, realizada pela prefeitura local e dedicada a oficinas, laboratórios e salas de leitura para os moradores da região.

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