Foi poeta, sonhou e amou na vida

Brilho de Uma Paixão, filme de Jane Campion, retrata o amor 100% romântico de John Keats por sua jovem musa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h00

Flerte. O que é mais atraente no filme Brilho de uma paixão é o encantador processo de mútua descoberta entre os jovens enamorados John Keats (Ken Whishaw) e Fanny Brawne (Abbie Cornish)        

 

Na Inglaterra, na Austrália e na Nova Zelândia, a história é razoavelmente conhecida - o romance entre o poeta John Keats e sua musa, Fanny Brawne, ultrapassa a história da literatura. Havia o risco - essa história 100% romântica teria condições de interessar ao público não necessariamente de língua inglesa? Em Cannes, no ano passado, a diretora Jane Campion admitia que valia a pena ter arriscado. A resposta dos espectadores - jornalistas de todo o mundo - havia superado sua expectativa mais otimista. É verdade que Brilho de Uma Paixão, Bright Star, que estreia hoje em São Paulo, é o melhor filme da autora desde os sucessos do começo de sua carreira, com obras como Um Anjo em Minha Mesa e O Piano, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Jane fez história como a primeira mulher a receber o cobiçado prêmio. Na verdade, até agora, a única. Mas ela não supervaloriza os prêmios e até hoje se surpreende quando lê, associada ao seu nome, a definição de cineasta "feminista". No sentido doutrinário, ela recusa o rótulo com veemência, mas, como mulher, a ideia de brigar por espaço num universo tão dominado pelos homens até que lhe agrada e ela termina por aceitar que seja uma feminista. No caso de Bright Star, Jane credita o sucesso aos atores. Como ela disse, numa entrevista realizada em Cannes, no ano passado, precisava de um ator inteligente e sensível, no qual o público acreditasse como um jovem capaz de escrever poesia. Ken Whishaw tinha o perfil romântico que ela considerava necessário para o personagem, mas pesaram favoravelmente as referências que ela ouviu dele, como tendo feito um ótimo Hamlet numa (re)montagem da peça de Shakespeare.

Abbie Cornish, que faz Fanny, já era conhecida de Jane, ou pelo menos seu trabalho. E Paul Schneider, que interpreta Charles Brown, foi paixão à primeira vista. Jane conta que integrava o júri de Veneza quando o viu em O Assassinato de Jesse James. Impressionada, ela pensou consigo mesma que adoraria oferecer-lhe um papel e trabalhar com ele, só não sabia que seria tão cedo. Os atores certos, mas havia também o cuidado com a imagem, a cor e a cenografia. Jane admite que gosta de fazer filmes de época. "O cuidado detalhista me apaixona", explica. Em Brilho de Uma Paixão, o desafio não era tanto contar a história de John Keats, mas contá-la do ponto de vista de Fanny Brawne.

 

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Assista ao trailer de Brilho de Uma Paixão

 

As cartas. "Existe uma ampla bibliografia sobre ele, mas quase nada sobre ela. Pesquisava sobre poesia quando topei com a história de ambos e ela imediatamente me interessou. Felizmente, o irmão de Keats, George, guardou a correspondência dele e as cartas endereçadas a Fanny, ou as que recebeu dela. Caso contrário, o filme seria inteiramente ficcional, um exercício de imaginação." A autora, nascida na Nova Zelândia e consagrada no cinema australiano, documentou-se bastante para fazer o filme. Mas ela admite que o que a atraiu foi, no limite, uma situação, ou característica, que já está em seus filmes anteriores.

"É, até certo ponto, fácil usar um escritor, ou um poeta, para falar de linguagem." E a linguagem tem estado em discussão no cinema de Jane Campion, menos a linguagem que as pessoas usam para se comunicar - e ela, como diretora, para chegar ao público -, mas principalmente a dificuldade que impede que isso ocorra. Vejam em seus melhores filmes. A escritora de Um Anjo em Minha Mesa é considerada esquizofrênica e paga um preço por isso. A protagonista de O Piano se isola tanto que perde a fala. O atraente de Brilho de Uma Paixão é o processo de mútua descoberta entre Keats e Fanny. Ele pode ser um grande poeta - um dos maiores da língua inglesa -, mas não obteve reconhecimento em seu tempo, permanecendo um segredo de poucos. Ela possui uma habilidade - desenha e confecciona as próprias roupas, criando uma linguagem do corpo como Keats utiliza as palavras.

Justamente as palavras. Trabalhando com atores de diferentes nacionalidades, Jane Campion admite que precisou de um aliado importante, o coach , treinador, que trabalhava com o elenco para ajustar os sotaques, de forma a não ferir o ouvido do espectador, em especial o que domina o inglês. Não houve muito tempo para pesquisa, mas Ben Whishaw leu o máximo de Keats que conseguiu. A diretora encorajou-o a se encontrar com especialistas para aprofundar o significado das poesias. O maior elogio veio de sua filha. "Ela não conhecia grande coisa de Keats nem seus amigos. Adoraram o filme. Quando cheguei a Cannes e vi que outra garotada também se interessava pela história, tranquilizei-me. Teria sido uma vergonha desperdiçar romance tão bonito."

 

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