Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Foi bom o pouco que Amy durou

No Rio, 15 mil fãs vibram com ''fase saudável'' da cantora inglesa, mas lamentam a curta duração de seu espetáculo

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2011 | 00h00

Como aconteceu em Florianópolis, o segundo show da turnê brasileira de Amy Winehouse, no Rio, que tinha tudo para ser acachapante, deixou no público uma sensação de frustração. Não completa, já que o desejo de assistir ao vivo uma das maiores sensações da música surgidas na última década, cuja sobrevivência parecia ameaçada por conta dos anos de excessos, estava concretizada. Mas no rosto de quem pagou caro pelo ingresso e ainda venceu entre uma e duas horas de engarrafamento até a distante Arena, a expressão, ao fim de breves 57 minutos de Amy, era de "é só isso mesmo?"

A engenheira Raquel Pimenta, de 32 anos, repetia a frase ao marido, inconformada com o acender das luzes às 23h30 - a apresentação havia começado às 22h33, 33 minutos depois do marcado. "Ela não vai voltar nem para dar um tchau? É assim que acaba o show da Amy, sem a Amy?", dizia, entristecida. Raquel se referia ao fato de a banda ter seguido depois de a cantora sair de cena com Me and Mr Jones. "Não há dúvida de que ela canta muito bem, mas a gente queria mais", lamentou a moça, que pagara R$ 700 e chegara cedo para se colocar junto à grade e observar cada fio da cabeleira da cantora favorita (Raquel ainda pagou o mesmo pelo segundo show, mas o ingresso não chegou, e agora ela pretende ir à Justiça).

Ainda assim, dada a voz especialíssima em questão, valeu a pena. Para Raquel e para as cerca de 15 mil pessoas que acolheram com entusiasmo uma Amy que parecia não se sentir preparada para a missão. A abertura foi retumbante, com três hits certeiros do CD Back to Black (2006): Just Friends, Back to Black e Tears Dry on Their Own. O set list seguiu como o de Florianópolis: o cover de Boulevard of Broken Dreams, seguido de Outside Looking in. Amy se retira e o vocalista Zalon Thompson assume o centro do palco. O vozeirão agrada, mas ninguém pagou para ver o sujeito, por mais empolgado que ele fosse.

A plateia cantava, gritava, pedia por Amy. Era nítida a satisfação por vê-la com uma aparência mais saudável, longe da imagem explorada pelos tablóides ingleses: em colapso, na flor da idade (lançou-se aos 20; hoje tem 27), por conta de drogas pesadas, cancelando shows, perdendo o rumo de sua vida e tão promissora carreira, que conta mais de 10 milhões de CDs.

Paradoxalmente, os fãs faziam "u-hu!" quando ela bebia o conteúdo de uma caneca alta, que parecia ter apenas um líquido para fazer gargarejo e acalmar a garganta. "Caipirinha! Caipirinha!", alguns berraram, querendo ver o circo pegar fogo. E mais ainda quando, depois de cantar Rehab, e em meio a You Know I"m no Good, Amy virou uma Skol Long Neck inteira, como se confirmasse os versos das duas músicas, de sua autoria, como quase todas que gravou em sete anos, desde o CD Frank.

É fácil supor que Amy estava cambaleante (em dado momento, jogou-se sobre Zalon) e nervosa (teve crise de riso e esqueceu boa parte da letra de Lovers Never Say Goodbye) porque estava entorpecida. Ninguém poderá dizer ao certo.

Mas por que não se dirigir mais ao público, que a esperou por tanto tempo e a afagou desde sua entrada no palco, vestida de tigresa, mas com cara de uma gatinha assustada? Por que cantar apenas 15 músicas, quando poderia ter explorado mais os repertórios dos dois ótimos CDs, e ainda feito mais covers? (o de It"s My Party, lançado no fim do ano passado, era esperado).

Recife. Era o que se perguntava a recifense Ana Lessa, de 40 anos, que preferiu ver o show da Arena porque acreditava que as condições no Rio seriam melhores (Amy canta no Recife amanhã e em São Paulo, sábado). "Ela pode ser mau exemplo para adolescentes, mas é demais", dizia, ao lado do filho, de 19 anos. O clima não chegava a ser de "quero meu dinheiro de volta" - estava mais para "foi bom o pouco que durou".

Apesar de ter sorrido (em especial no bis, numa arrebatadora Valerie) e de inicialmente saudado os "ladies and gentleman of Rio", Amy delegou a função de interagir com os presentes a Zalon. À exceção de um "muito obrigada" e de uma repreensão quando os aplausos à sua banda lhe pareceram insuficientes. "Façam barulho!", pediu, durante a longa apresentação dos músicos, que tinham a função extra de se manterem atentos a qualquer passo em falso da patroa.

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