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Foi a mulher!

Adão inaugurou a prática da transferência da culpa ao dizer que foi Eva que deu a ele o fruto da árvore

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2019 | 02h00

Somos ágeis em inventar desculpas e julgar com dois padrões. Os americanos chamam de “double standard”. Trata-se da clássica dubiedade que nós, filhos de Eva, carregamos, na nossa moral ambígua. Quase sempre começa com a régua para medir os atos dos meus filhos e o que penso dos rebentos alheios. Depois é pelo meu time, sempre afetado pela arbitragem, que favorece o adversário, exatamente como diz qualquer torcedor do time contrário.

Participei de dezenas de bancas na minha vida. Todos os derrotados tinham uma certeza: os julgadores favoreceram o vencedor. Denúncias contra o grupo político que eu apoio? Sempre, invariavelmente, tramoias desonestas e caluniosas de uma imprensa vendida. Contra meus inimigos? É pouco! Há muito mais por denunciar. A imprensa sempre, sem exceção, persegue meu candidato e favorece o outro. 

Tenho, pelo menos, duas hipóteses diante de mim em todos os casos do parágrafo anterior. A primeira é supor que meu filho não personifique um gênio, meu time tenha desempenho medíocre mesmo, o candidato vencedor do concurso seja melhor do que eu, meu político de afinidade, realmente, é um ladrão ou um incompetente, talvez ambos.

Essas são as hipóteses incômodas, porque significam saber que errei, que gerei algo ruim, que julgo mal ou que torço por picaretas. Pensar assim é trazer o mal para dentro de si e reconhecer-se errado. Dolorosa estruturalmente, a hipótese que me implica é substituída pela mais fácil, um ópio irresistível ao alcance da minha mão: o problema está no outro. 

A desculpa anterior é a suprema forma de conforto. Colocar a culpa em terceiros, saber que não sou o autor de um delito ou erro, que não coaduno com práticas maléficas, sou o bem, o bom e o belo: nada causa maior relaxamento de consciência. Ah, como é fundamental estar do lado certo... Que alegria temos em contemplar o deslize alheio! 

Sartre chamou de má-fé o ato de transferência de responsabilidade. Tecnicamente é um pouco mais em Filosofia: trata-se de negar a própria liberdade e passar a supor que eu seja um objeto, ou uma coisa, algo sem a capacidade de escolher. Adão inaugurou a prática da transferência da culpa.

Questionado por Deus, lembrou que foi o Criador que a deu por companheira, logo, tentou trazer o Chefe para o ato ilícito (Gn 3, 12): “Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi”. O diálogo tem certo brilhantismo: “Você me deu a companheira, eu não pedi, foi iniciativa Sua e ela me colocou a perder”. Incluo o Todo-Poderoso na confusão e ainda descarrego na esposa. A primeira mulher seguiu na mesma toada: “Foi a serpente”. Não funcionou, os três envolvidos no processo foram punidos para sempre. 

Curiosamente, das quatro personagens do diálogo, a serpente foi a única que não se pronunciou, nem buscou culpar a outro. O terceiro capítulo do Gênesis termina com Deus reconhecendo que agora o homem conhecia o bem e o mal. O novo conhecimento traz o que chamamos de Teodiceia: a origem daquilo que foge ao correto. O debate da origem dos desvios despertaria centenas de teólogos e filósofos. A maioria dos filhos de Eva já sabe a resposta: a culpa é do outro, sempre alheia, eternamente fora de mim. 

Os primeiros pais, no último dia do Éden, definiram uma questão estrutural. Que bálsamo! Que resposta! Que achado! “Eu dirijo bem, mas há cada louco nas ruas.” “Eu voto com consciência, porém como outros eleitores não percebem o óbvio?” “Por que os outros falam tão alto?”

Que delícia ser quem eu sou. Que dor deve carregar aquela pessoa sendo quem ela é. Trata-se do nosso miniéden, o pequeno jardim paradisíaco da minha consciência superior ao mundo estranho externo. Aqui, a consciência com má-fé estabelece seu microparaíso a partir do seu sofá. É a posição que irritava Franz Kafka em relação ao seu pai (texto Carta ao Pai). Hermann Kafka sentava-se na sua poltrona e atacava tudo e todos, da cidade de Praga ao Imperador, e ninguém estava certo ou agia bem, apenas ele, o pai, que tanto ressentimento gerou no jovem Franz. 

Eu posso estar certo? O erro pode ser alheio? Sim é a clara resposta às questões. Agora: eu posso estar sempre correto e o erro do mundo seria sempre externo a minha cândida pessoa? Não, respondem as vozes da razão e do bom senso. 

Incluir-se nas análises é, sempre, um desafio enorme. Possivelmente, a “ilha do bem” na qual imaginamos nosso exílio no mundo de gente complicada seja a suprema zona de conforto criada por todos. Sair dos espaços tradicionais, que nossas trilhas de sinapses constituíram desde a primeira mentira contada à mãe ou à professora, talvez seja um desafio enorme, quase épico. Tenho feito o exercício libertador e áspero de evitar o erro de Hermann Kafka.

Um dia, o genial filho dele fez uma carta manuscrita de quase cem páginas irritado com a isenção de responsabilidade do progenitor. Talvez, apenas talvez, nossos filhos não tenham o mesmo talento do autor da Metamorfose e, sem pode traduzir sua dor em belo texto literário, restrinjam-se a pequenas falas entretecidas de decepção amarga em algum obscuro grupo de WhatsApp.

Pior do que ofender  um gênio é ofender fofoqueiros ressentidos. Boa semana para todos nós. 

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