Stankus/Divulgação
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'Fogo-Fátuo' estreia em São Paulo

Autor, Samir Yazbek também é intérprete na montagem e vocaliza dilemas pessoais

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

20 de abril de 2012 | 03h08

O artista está em crise. Duvida de sua capacidade, de seu talento. Não consegue mais criar. Em Fogo-Fátuo, espetáculo que estreia amanhã no Sesc Santana, Samir Yazbek tematiza suas próprias questões como dramaturgo. Vai beber no mito de Fausto para sublinhar suas angústias.

A história do cientista que entrega sua alma ao diabo em troca do conhecimento irrestrito já foi visitada por um sem-número de escritores. Além de Goethe, que criou a mais conhecida das versões, nomes como Thomas Mann, Fernando Pessoa e Paul Valéry também já se aventuraram a focalizar o conflito entre o homem virtuoso e a personificação do mal.

Aqui, os protagonistas merecem outros contornos. Substitui-se o estudioso da ciência pela figura de um escritor angustiado. Revela-se um Mefisto alquebrado, saudoso do lugar que antes ocupava no mundo.

Autor reconhecido por peças como O Fingidor, Samir Yazbek também aparece na montagem como intérprete. Na pele desse novo Fausto, vocaliza os dilemas pessoais que imprimiu ao texto. "É uma tentativa de entender o lugar do artista, sua busca por uma temática, uma estética", comenta o dramaturgo. Não é a primeira vez que o mote desponta em suas obras. Em O Fingidor iluminava os embates de Fernando Pessoa. Em A Entrevista mostrava uma escritora atormentada. Fogo-Fátuo radicaliza a investigação. "Não tinha um desejo pessoal de me arriscar como ator. Mas para dar conta dessas questões, agora, era preciso viver esse embate. Se eu não estivesse em cena, a peça não existiria."

Como seu antagonista, Yazbek enfrenta Helio Cicero, ator com quem mantém uma antiga parceria e ao lado de quem criou a Companhia Arnesto nos Convidou. Nesse contexto, a relação dos dois criadores também vem à tona. Uma opção que reforça a complementaridade que existe entre as personalidades aparentemente opostas de Fausto e Mefisto. Por duas vezes, Goethe dedicou-se a investigar ao mito. Na segunda obra, publicada postumamente, essa confusão entre as imagens do herói e seu algoz fica mais evidente.

Para tornar ainda mais evidente a noção de duplo que pauta o espetáculo, a cenografia lança mão de um espelho. Materializa em cena a maneira como essas figuras se misturam e se confundem. Na encenação, assinada por Antônio Januzelli, também existe um jogo de inversão dos estereótipos que geralmente envolvem a fábula. Mefisto aparece em cores claras, luminoso. Já o Escritor está todo vestido de negro. "Neste caso, é ele quem vive nas trevas", observa Yazbek.

O encontro entre os dois acontece em um teatro. O artista já tentou de tudo para pôr fim ao bloqueio criativo que o acomete: Buscou terapias, remédios, autoajuda. Sem sucesso, resolve recorrer a Mefisto como última possibilidade.

Descobre, porém, que é o diabo quem precisa de seus serviços. Também ele atravessa um impasse. Não deseja apenas a alma de mais uma vítima. Pede que o autor erija uma obra capaz de reinscrevê-lo no mundo.

Desponta aí uma das reflexões centrais levantadas pela montagem. "A maldade está de tal forma disseminada, que Mefisto não encontra mais o seu lugar", diz Helio Cicero.

A noção de "banalidade do mal", conceito cunhado por Hannah Arendt, serve como esteio à discussão. A filósofa alemã escreveu sobre o assunto após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, acusado de genocídio contra judeus. No livro Eichmann em Jerusalém, Arendt revela como o acusado não era o monstro que todos imaginavam. Não agiu guiado por nenhum instinto maligno. Tratava-se apenas um funcionário. Obedeceu às ordens sem pensar no significado de suas ações.

A peça focaliza, portanto, um contexto em que a crueldade se tornou trivial, disseminada. A existência de Mefisto baseava-se no pressuposto de que haveria almas íntegras a desviar. Estabelecia-se um jogo de conquista, dissuasão. Quando a barbárie é cotidiana, até o mito do mal perde o sentido.

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