Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Fogo e água

A Califórnia está pegando fogo, outra vez, o que não deixa de ser uma ironia. Toda a história política do Estado teve a ver, de um jeito ou de outro, com a luta pela água. A Califórnia é um produto do banditismo empreendedor de americanos que a tomaram dos mexicanos à força e colonizaram com aventureiros atrás de terra e ouro, mas é acima de tudo um produto da irrigação.

Luis Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2017 | 02h00

Acesso à água foi a principal condição para o desenvolvimento do Estado, e foi disputado em grandes embates jurídicos ou a tiros, nas ruas.

Em 1994 estávamos lá, cobrindo a Copa do Mundo. Nossa base de operações era San José, no extremo sul de uma península cuja ponta norte é São Francisco. A região é de cidades residenciais, muita gente vive lá e trabalha em São Francisco, mas se desenvolveu com as novas indústrias eletrônicas, principalmente de informática, e o contraste dos seus gramados bem cuidados e suas ruas arborizadas com as montanhas calcinadas em volta dá uma ideia do que significou a conquista dessa terra pela distribuição racional da água. 

À primeira vista, San José parecia ser tudo que o Henry Miller quis dizer quando chamou os Estados Unidos de “o pesadelo de ar condicionado”, antes de fugir para a Europa. Mas os encantos ensolarados do lugar se impõem sobre a aparente falta de alma e, afinal, o próprio Henry Miller acabou seus dias na costa do Pacífico, entregue às amenidades californianas. É onde nós todos deveríamos ir para morrer – não fosse o perigo constante de incêndio.

*

Ocupados em nos instalarmos em San Jose para a Copa, não nos demos conta do que estava acontecendo na nossa vizinhança, a perseguição e a eventual captura de O. J. Simpson – certamente a pessoa mais famosa a ser acusada de um assassinato no mundo desde que levantaram a hipótese de que Jack, o Estripador poderia ser um membro da família real inglesa. Simpson era um herói para os negros, mas não era necessariamente um herói do ressentimento racial. Casara com uma loira e transitava no mundo das celebridades brancas de Hollywood com naturalidade. Mas quando o utilitário Ford com Simpson dentro rodou pelas freeways de Los Angeles perseguido pela polícia, os negros no caminho vibravam à sua passagem e o incentivavam como se ele ainda estivesse num campo de futebol. Tudo, inclusive a tentativa de fuga, indicava que Simpson era culpado, mas o mais importante era que ali estava um afro-americano fazendo a polícia dos brancos correr atrás dele. Depois da prisão as pesquisas divergiam. A maioria dos brancos achava que Simpson era culpado, a maioria dos negros achava que não. Simpson foi absolvido. Nós ganhamos a Copa.

Mais conteúdo sobre:
Henry Miller

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.