FOGO, CATARSE, MELANCOLIA

Arcade Fire, com novo álbum, faz show grandioso no Madison Square Garden, com efeitos orquestrais e eletrônicos

Lauro Lisboa Garcia/NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

Parece que o mundo resolveu decretar que é hora de o Arcade Fire virar uma superbanda, mas o septeto canadense (sediado em Montreal) já se revelou grande, por diversos bons motivos e em vários sentidos, desde o álbum de estreia, Funeral (2004). O crescimento natural de músicos de arrojado talento veio com Neon Bible (2007), que só fez aumentar sua popularidade. Seguindo a lógica, a banda não provoca surpresa nesse sentido, só confirma a tendência, com o ótimo terceiro álbum, The Suburbs, que chegou às lojas e sites americanos na terça-feira e que a Universal lanca no Brasil no fim do mês.

Anteontem, o grupo fez o segundo de dois shows no Madison Square Garden, em Nova York, com transmissão ao vivo via You Tube, dirigida por Terry Gilliam. Como os brasileiros já puderam constatar em 2005 no TIM Festival, as canções introspectivas da banda ganham vulto ao vivo, crescem em tom épico, catártico. E claro que faz diferença ver um show deles num lugar de porte médio (como foi o de 2005 numa tenda do Reading Festival na Inglaterra) e num ambiente de arena, como este agora. Apesar de ter centenas de lugares vagos na arquibancada, eles atraíram um público considerável.

A música do Arcade Fire é por natureza grandiosa, com efeitos orquestrais e eletrônicos, mas não chega a ser festiva. Dá pra levantar o punho e pular, principalmente na segunda metade do roteiro, mas nada disso supera o teor melancólico das melodias profundas e letras contundentes. Antes deles tocou a banda Spoon, que também já passou pelo Brasil, mas não fez falta, como continua não fazendo. E mais uma banda esforçada de som derivativa.

Arcade é outra coisa. Se realmente virou (ou está para virar) mega, foi sem fazer concessões ao consumismo que aborda em cancões do novo álbum. Com arranjos vigorosos e performances impressionantes, a banda abriu o roteiro com a convidativa Ready to Start, fazendo as estruturas do ginásio tremerem já na segunda canção, Neighborhood #2 (Laika), de Funeral. Em campanha de ajuda aos haitianos, o grupo não poderia deixar de tocar Haiti (também do primeiro álbum), pré-terremoto.

Mesclando as canções mais significativas e impactantes dos três discos - como Empty Room, Crown of Love, Intervention, The Suburbs, Neighborhood #1 (Tunnels), Rebellion (Lies), Wake Up -, com elementos que às vezes lembram Neil Young e às vezes remetem a New Order, a banda já conseguiria grandes efeitos pelas cancões em si, muitas cantadas em coro ritualístico. Além disso, descer até o meio do público, como fez o vocalista e guitarrista Win Butler por três vezes, é sempre atitude de previsível comoção.

A banda não mudou muito na formação instrumental - incluindo acordeon e violinos - nem no estilo, fundindo rock, folk e discretos efeitos eletrônicos, mas soa mais rock"n"roll. Há quem tenha comparado The Suburbs com OK Computer, do Radiohead, por coincidência (ou não), o terceiro álbum de cada banda. Pelo menos na melancolia, há uma certa semelhança. Há lindas cancões, versando sobre o consumismo, o tédio e a nostalgia da infância, temas reflexivos sobre o universo do subúrbio americano (que é o inverso dos garotos pobres dos subúrbios brasileiros).

Na contramão de uma série de convenções do mercado musical (já desde o início), o Arcade Fire realizou em grande estilo mais um álbum conceitual, no momento em que a geração MP3 já consagrou a descartabilidade da canção avulsa. The Suburbs também saiu em vinil por aqui e com oito variações de capas em CD. Se a intenção era causar impacto visual ao expor o conjunto dos discos nas vitrines, vem daí uma desilusão. Aqui, como no resto do mundo, as lojas de CDs viraram raridades: muitas fecharam, outras ficaram só na versão virtual. Isso também é profundamente melancólico para quem ainda gosta de manusear discos.

Áudio. nome

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