Foco vital

Aclamado como fotógrafo de moda, o escocês Albert Watson, cego de um olho, mostra seu outro lado no livro UFO

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2011 | 00h00

Albert Watson tem visão monocular. Nasceu cego do olho esquerdo, mas isso não impediu que o escocês, de 69 anos, se tornasse um dos 20 fotógrafos mais influentes de todos os tempos ao lado de Richard Avedon e Irving Penn, segundo a revista americana PDN (Photo Distric News). Watson assinou 250 das melhores capas da revista Vogue, fotografou celebridades para a Rolling Stone e viajou pelos mais exóticos recantos do planeta. O resumo de seus 40 anos de carreira está no livro UFO, que a editora brasileira Alles Trade colocou no mercado sem muito barulho.

Watson, que já mostrou suas fotos no Brasil, pretende voltar ao País para uma nova (e maior) exposição, como anuncia nesta entrevista exclusiva ao Caderno 2, por telefone, de Nova York. A despeito do que sugere o título, o livro não traz imagens de objetos voadores não identificados, mas é povoado de seres extravagantes. As três letras que a capa ostenta significam Unified Fashion Objectives (Objetivos de Moda Unificados).

Em 1974, quando Watson começou a fotografar moda, uma bomba quase matou o líder conservador Edward Heath num restaurante. Londres estava literalmente pegando fogo com atos terroristas e o brilho glitter de David Bowie. Há, claro, algumas fotos do período em UFO, como a da top model americana Tara Shannon para a Vogue inglesa ou da sueca Lena Kansbod para a Vogue americana, mas o tom do livro não é nostálgico nem pretende eleger a moda como um fenômeno isolado, autônomo. "Moda, para mim, não significa apenas fotografar roupas, mas traduzir a cultura que as inspira."

Watson é um homem culto. Estudou no Royal College of Art de Londres e não foi por acaso que sua primeira foto a se tornar popular trouxesse mais referências à hipersexualidade de Hitchcock do que talvez desejasse o realizador de Psicose. Em 1973, o escocês fez o cineasta segurar um ganso morto pelo pescoço, devidamente depenado e com uma gravata borboleta que dava ao bicho um peculiar e algo surrealista look - além de uma simbólica conotação erótica.

Referências pictóricas são frequentes em suas fotos, como a que ilustra esta página. Nela, Watson recria um dos inúmeros autorretratos da pintora Frida Kahlo (1907-1954) com seu macaco, signo de luxúria para os mexicanos. Há no livro três retratos (da Vogue alemã,1998) de uma modelo muito parecida com ela. Essa busca de fidelidade ao modelo real está presente em outros trabalhos que recriam o ambiente e a luz de obras-primas do passado - como a série Cinderela (1985) feita para a Vogue italiana, uma elegia aos maneiristas.

James Truman, ex-diretor da Conde Nast, diz que o trabalho de Watson é de um "fetichismo insolente", querendo afirmar com isso a fisicalidade de suas modelos, a beleza de seus cenários ou a grandiosidade de suas paisagens. Interessado em seguir os passos de seus mestres, ele se dedica cada vez mais a elas. "Acho que ainda estou fazendo lição de casa com meus mestres Steichen, Strand e Stieglitz", diz, modesto.

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