'Foco', romance de Arthur Miller de 1945, ganha nova edição

Livro se mantém atual num mundo que segue desfigurado

André de Leones,

10 de agosto de 2012 | 20h00

O norte-americano Arthur Miller (1915-2005), mais conhecido como o dramaturgo multipremiado e autor de pelo menos duas obras-primas, A Morte de Um Caixeiro-Viajante e As Bruxas de Salem, deixou também alguns romances, dentre os quais se destaca Foco. O livro veio a público em 1945, teve uma boa adaptação cinematográfica em 2001, por Neal Slevin, e agora é relançado no Brasil com tradução de José Rubens Siqueira. Siqueira, aliás, já havia traduzido A Morte de Um Caixeiro-Viajante e outras quatro peças, volume editado pela mesma Companhia das Letras em 2009.

O protagonista de Foco é Lawrence Newman, um sujeito pacato, quarentão, alienado de si e do que o cerca. Vive, com a mãe entrevada, num subúrbio de Nova York e é funcionário em uma enorme empresa, orgulhoso por ser o responsável pela seleção de pessoal e comandar um bom número de subordinadas a partir de um cubículo de vidro, através do qual vê tudo o que acontece ao redor e, logo perceberá, todos veem o que acontece com ele.

Desde o impressionante primeiro capítulo, em que Newman acorda alta noite e vê uma latina sendo atacada diante de sua casa, no meio da rua, e não faz nada, não chama a polícia, não tenta socorrê-la, sabemos estar diante de um homem que, afundado numa cadeira, fica "esperando a escuridão chegar" para só então, no escuro, "elaborar algum plano". E, como de hábito, as coisas desandam pelos motivos mais banais: Newman vê-se obrigado a usar óculos e, por uma ironia perversa, o acessório confere a ele a aparência de um judeu. Dadas as regras que regem o funcionamento da companhia onde trabalha, coisa, aliás, desgraçadamente comum por aqueles dias, não demora para que ele seja "convidado" a ocupar uma função menos visível. Indignado, opta por pedir demissão.

Enquanto isso, a animosidade em seu quarteirão aumenta gradativamente. Alguns vizinhos, membros de uma difusa organização antissemita, estão engajados em "limpar a vizinhança", forçando o judeu dono da loja da esquina a deixar o bairro com a família. Relegado a uma posição que nunca experimentara, Newman aos poucos questiona os preconceitos outrora tão entranhados em si. A metáfora dos óculos é tão óbvia quanto eficiente: ele agora enxerga o mundo ao redor, e o que começa a ver é um tecido social próximo do esgarçamento. Em função de sua nova aparência, não consegue uma recolocação profissional de imediato e, inadvertidamente, só será empregado por uma firma de judeus, onde "contratam qualquer um". Ali, reencontra uma mulher que entrevistara em seu antigo trabalho e rejeitara exatamente por ter a aparência de uma judia. O mal-entendido é desfeito e eles iniciam um relacionamento amoroso. Depois, casados, a aparência dela será mais um pretexto para a reação extremada da vizinhança.

A escuridão não tarda a chegar, e Miller é muito feliz ao conectar o andamento da narrativa às estações do ano. Boa parte do livro se passa no desesperador verão nova-iorquino, mas algo nos diz que é o inverno que devemos temer. Hesitando tomar uma posição, seja a de procurar seus vizinhos e se engajar com eles na luta contra os "invasores" (embora uma tentativa nesse sentido termine mal, a certa altura), seja a de rejeitar abertamente as ações propostas e tomadas por eles, das quais passa a ser vítima, Newman encontra-se cada vez mais próximo de Finkelstein, o judeu da esquina. As coisas caminharão surdamente para um desenlace violento, a confrontação que o protagonista evitara até ali. E, depois, o melhor de tudo, Miller nos oferece um epílogo cuja ironia sublinha à perfeição o que fora traçado desde o começo. Você é o que os outros veem em você, parece dizer, e as pessoas não costumam enxergar muito bem.

Foco pode ser descrito como a história de alguém que, primeiro, aprende a enxergar a si mesmo e, depois, o que está ao redor, isto é, os outros. Claro que há um teor moral em tudo isso, mas jamais moralista. Miller não é sentencioso, não atira um panfleto sob os nossos olhos ou ensaia uma parábola. A história que engendra e a forma como a desenvolve prescindem de quaisquer digressões dessa ou daquela natureza.

Na verdade, boa parte da energia que emana dessas páginas decorre de seu incontornável realismo e de sua atualidade. Hoje, por mais que o antissemitismo não seja um problema tão grande na sociedade norte-americana, a islamofobia talvez o seja, sobretudo em decorrência dos atentados de 11 de setembro de 2001. Há dez anos, com a adoção de medidas absurdas pela administração de George W. Bush, deparamos com situações nas quais pessoas tiveram seus direitos cerceados e, em alguns casos, foram encarceradas sem o devido processo legal pelo simples fato de serem ou parecerem muçulmanas. Em um mundo no qual os direitos dos outros são questionados ou negados porque eles são encarados assim, como outros, um romance como Foco adquire uma ressonância tão forte quanto no momento em que foi publicado pela primeira vez, há quase setenta anos. Ver e ser visto jamais foi tão importante, e o mundo nunca pareceu tão desfocado.

ANDRÉ DE LEONES É ESCRITOR, AUTOR DO ROMANCE DENTES NEGROS (ROCCO)

FOCO

Autor: Arthur Miller

Tradução: José Rubens Siqueira

Editora: Companhia das Letras

(264 págs., R$ 39,50)

 
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