FOCO E MENOS RUÍDO Em Desde Que o Samba É Samba, Paulo Lins está mais contido e esperançoso

DESDE QUE O

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h09

SAMBA É SAMBA

Autor: Paulo Lins

Editora: Planeta do Brasil

(336 págs., R$ 39,90)

VINICIUS JATOBÁ

Após 15 anos, chega às livrarias o segundo romance do carioca Paulo Lins, Desde Que o Samba É Samba. A expectativa criada em torno dele tem razões que vão além do fato de sua primeira obra de ficção, Cidade de Deus, haver inspirado o filme homônimo que alçou o nome de Lins ao topo do cenário editorial internacional. Mesmo sem a adaptação de Fernando Meirelles o romance já garantiria ao autor um lugar de destaque nas letras do País.

Babélico, caótico, enérgico, excessivo, Cidade... continua desafiando a maneira apolínea de se ler na literatura brasileira. Sua "sujeira", suas repetições foram vistas mais como descontrole estético do que fortaleza estilística, sublinhando a tendência de se destacar Lins como um fenômeno sociológico, cujo romance teria mais valor de testemunho. Cidade... foi lido, desde a primeira hora, fora do prisma literário.

Desde Que o Samba É Samba é uma segunda oportunidade de abordar o trabalho de Lins. Mais centrada que a do livro anterior, a narrativa de Samba... abriga um universo em certa medida inexplorado: a cultura negra pós-abolição do centro do Rio. De Cidade... para Samba... ocorreram perdas: a energia algo danada, incontrolável, deu agora lugar a um ritmo mais focado. Há um pendor folhetinesco em Samba... cuja energia central nasce da descrição de um conturbado triângulo amoroso. Mais coeso que Cidade..., Samba... perde em força e perturbação; é menos ruidoso.

No entanto, o que ele perde em ruído ganha em esperança: longe da atmosfera niilista de Cidade..., o novo livro de Lins retrata a origem oprimida de uma história vitoriosa: o nascimento do samba, a organização da umbanda, a fundação das primeiras escolas de carnaval. Mais até: narra as bases da ascensão de uma cultura negra hoje relativamente celebrada.

Centrada nas primeiras três décadas do século 20, e marcada pela opressão racista policial e cultural diante da vida cotidiana da população negra, a narrativa de Lins pode ser apreendida em dois níveis. O primeiro deles, picaresco e histórico, revela o sabor dos meretrícios, das zonas portuárias e dos bares do Rio antigo; o outro, faz uma homenagem aos fundadores do samba, que viram no surdo, no tamborim e no pandeiro as armas com que poderiam reivindicar a poesia de suas vidas.

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