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Fobia imobiliária

Talvez não mereça, mas até agora fui poupado da batalha por um canto onde morar

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 03h00

Deus, ou alguém por Ele, me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar, pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de que o bom não é achar, é procurar, prazer que exige dele ver imperfeição onde não tem.

Faria par, este amigo recente, com uma senhora da minha família, que, precisando de empregada, vetou consecutivamente duas alternativas que as filhas lhe arranjaram, uma por lhe faltarem alguns dentes, a outra porque, prognata, tinha “dentes demais”. O camarada, que vou conhecendo aos poucos, me faz pensar também naquele personagem de Rubem Fonseca que, na praia, se compraz em aplicar notas, todas elas baixas, a quem tenha a infelicidade de invadir seu campo de visão – o que leva a moça ao lado a perguntar se não existirá no mundo quem mereça nota 10. Sim, concede o implacável fiscal do ser humano: alguém que seja anão, padre, preto, corcunda e homossexual, mas tudo isso na mesma pessoa. Assim também o meu interlocutor, que fica aflito até descobrir, como item eliminatório, um azulejo em discreto desalinho com os demais.

Respeitemos o time dos que procuram na esperança de não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando a casa. São, uns e outros, meus antípodas. A simples ideia de empreender uma reforma me levaria a buscar um novo pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse pânico. Reforma? Sou mais a revolução. Até hoje não derrubei nada, nem sequer a ditadura, que dizer de uma parede... E três mudanças, dizia meu pai, equivalem a um incêndio. Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. E, a esta altura da vida, talvez já não haja divã que dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais – jamais – se lançou, como o citado camarada, numa peregrinação em busca de poleiro.

Minto: ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do casal que me acolheu de mala & cuia, achei que era hora de providenciar cafofo próprio. Encantado com o que me parecia ser uma inédita capacidade de superar limitações, dias depois eu fechava negócio com o dono de um apartamento num predinho até simpático que ainda lá está, na esquina de Augusta e Rua Costa. Quem disse que eu não dava conta? – me gabei. Mas não precisei de uma semana para me dar conta de que ali simplesmente não havia água, nem disposição dos outros moradores para dar sentido à existência das torneiras. E no entanto tudo estava claro desde o início, pois na primeira incursão eu pudera ver o espetáculo medieval de cordas içando baldes na soturna área interna do edifício. A rapidez com que consegui anulação do contrato me trouxe a certeza de que não fui ali o otário pioneiro.

A partir de então, tive sempre a sorte, a imerecida sorte de estar por perto alguém disposto a achar por mim morada nova. De saída do Saara, nome que dera ao predinho da Rua Costa, caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega de Jornal da Tarde, na Marquês de Paranaguá. Verdade que o edifício ainda não estava concluído, nem haveria de estar no médio prazo, por irregularidades na construção. Talvez fôssemos ali, o Sérgio e eu, os únicos moradores, pois não me lembro de vizinhos. Se mais gente veio, foi para o mesmo apartamento, de apenas um quarto e sala microscópica, mas onde, em dado momento, se espremeram quatro rapazes, todos do ramo jornalístico. E nem a nossa juventude explicaria a indiferença coletiva ante o fato de não haver ali uma geladeira, por miúda que fosse, para tantos bebedores de cerveja. Fogão havia, mas ocioso, pois nenhum de nós fritava um ovo.

Teria ficado indefinidamente em tal moquiço, se um dos comparsas, exasperado, não me houvesse proposto alugar coisa menos deprimente – no mesmo prédio, aliás, onde aquele casal de amigos me acolhera ao chegar de Minas. Quando esse roommate tomou rumo, segui morando no apartamento, que seria mais adiante o meu primeiro de casado. Depois vieram os anos de Paris, nos quais minha mulher e eu ocupamos consecutivamente duas moradias que nos chegaram de bandeja – uma delas, propriedade de uma jovem senhora que decidira vir recuperar (sem sucesso, mas isso é outra história) um marido português extraviado em terra brasileira. Na volta a São Paulo, mais dois apartamentos, ambos excelentes, que também não foi preciso garimpar. O mesmo se diga de um terceiro, o atual, no qual estou faz quase 28 anos e do qual não pretendo arredar pé – a não ser que o referido pé já não dê conta dos 24 degraus que me trazem a este primeiro andar. Se isso acontecer, uma vez mais vou precisar de quem batalhe por mim um novo canto. Você, vou avisando, não estará livre então de que eu venha a solicitar a sua desinteressada ajuda..

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA’

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