Florian Raiss exibe panorama de sua produção

Após seis anos sem expor, Florian Raiss inaugura nesta quinta-feira à noite uma exposição diversificada e coerente. Como se estivesse procurando resgatar o tempo perdido, o artista compôs um panorama amplo de sua produção, marcada por uma forte teatralidade e construída a partir de influências diversas, como os mantras indianos ou a cultura clássica romana ou a mitologia grega. "Seja desenhando, pintando, seja modelando, estou desenvolvendo uma linguagem pessoal baseada parcialmente na observação e em meu imaginário", escreve ele no convite da mostra.A grande maioria das obras foi produzida neste ano, mas revela caminhos explorados por Raiss há algum tempo. Considerando-se acima de tudo um desenhista, ele lança mão de técnicas e materiais diversos, sempre dando o papel central à figura humana e explorando recorrentemente figuras que parecem ter o seu semblante. "Talvez todo o meu trabalho seja realmente um projeto existencial, uma fórmula de autoconhecimento, meu elo de comunicação com as outras pessoas", explica.É o caso, por exemplo, dos quadrúpedes, forma que encontrou para chamar as estranhas e simpáticas figuras com ar ingênuo que caminham sobre quatro patas e investigam com curiosidade temas de forte teor simbólico, como a sexualidade, a flor e a cobra (que simboliza o poder). Segundo Raiss, seus quadrúpedes são muitas vezes vistos como um símbolo de nossa condição ao mesmo tempo animal e espiritual.Em Decifra-me ou Devoro-te, vemos um homenzinho valente (identificado com Édipo) que enfrenta a esfinge três vezes maior que ele. Com patas e mãos no chão, o monstro mitológico parece encarnar o enigma que ela propõe ao herói. É o homem pela manhã, com a ingenuidade da infância.Aliás, a obra de Raiss deve muito ao lirismo do universo infantil, mostrando uma ingenuidade cativante. No painel de 129 azulejos pintados, que segundo o artista é uma espécie de resumo quase completo de sua galeria de personagens, há um toque lúdico um traço meio infantil.Outra característica marcante de sua produção é o forte erotismo, que no entanto não tem nada de apelativo. "O eros permeia a nossa vida, o nosso cotidiano fisiológica e espiritualmente", diz o artista, que acredita que essa sua busca por uma expressão mais direta, primária do corpo dá à sua expressão artística um caráter mais conservador, que destoa da frieza conceitual que predomina na produção contemporânea.Para ele, fazer arte também tem algo de terapêutico, permite elaborar e conciliar emoções muitas vezes contraditórias. Ao visitar a exposição da Galeria Francine, tem-se num primeiro momento a impressão de que existem vários Florians e que o autor dos bustos hiper-realistas de um rapaz como outro qualquer não pode ser o mesmo que refez em barro uma enigmática estátua do deus grego Janos.A biografia de Raiss ajuda a entender essa diversidade. Brasileiro, filho de alemães, criado em uma escola inglesa e tendo feito sua formação artística na Itália (Florença) e no México, ele é um caldeirão de referências culturais, que podem ser identificadas em seus trabalhos. "Talvez essa tensão seja um pouco a mola propulsora de meu trabalho, que no fundo não passa de uma tentativa de conciliação entre esses universos distintos", explica.Florian Raiss - De segunda a sexta, das 10 às 18 horas; sábado, das 10 às 14 horas. Galeria Francine. Alameda Lorena, 1.998, tel. 280-7540. Até 30/9. Abertura, amanhã (14), às 20 horas.

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