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Florescendo

Estava disposto a escrever sobre qualquer outro assunto menos os mais de 100 mil mortos na tétrica aliança entre a pandemia e o descaso oficial do governo brasileiro

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 21h00

Preciso dizer que a cerejeira do nosso quintal está florindo, e que nossa cerejeira nunca esteve tão linda. Preciso encontrar uma maneira inspirada de descrevê-la e fazer justiça à sua beleza. E preciso ser rápido, porque o florescimento das cerejeiras é rápido. Elas não podem esperar a inspiração. Nem esperar que brote um poeta providencial do chão para cantá-las às pressas. No Japão, onde são símbolos nacionais, as cerejeiras representam o efêmero, o fugidio, o passageiro. Enfim, a vida. 

Existem três tipos de cerejeiras (nome científico “ceresos”, classificação “prunos”): cerejeiras que dão cerejas comestíveis, cerejeiras que dão cerejas não comestíveis e cerejeiras que não dão cerejas nem qualquer outro tipo de fruta e só existem para florescer e nos maravilhar. A cerejeira do nosso quintal é do terceiro tipo, sem outra obrigação fora a de ser bonita. Ela não produz nada além da própria beleza, ela simplesmente é. E brilha, rapidamente.

No Japão, onde são adoradas, as cerejeiras têm significados místicos e inspiram lendas e histórias sobre suas origens. Segundo uma dessas lendas, um ser celestial feminino chamado Konohana Sakoya, desceu à Terra perto do Monte Fuji e transformou-se na primeira cerejeira, com poderes que incluíam os de revigoramento sexual dos seus adoradores. Faz parte dos hábitos japoneses o que chamam de “hanami” (que quer dizer “contemplação”) e consiste apenas em ir para a rua admirar as cerejeiras na época da floração. E...

Não consigo. Eu estava disposto a escrever sobre qualquer outro assunto menos os mais de 100 mil mortos na tétrica aliança entre a pandemia e o descaso oficial do governo brasileiro com a pandemia, até sobre uma cerejeira florescendo no nosso quintal, mas não consegui. Tentei, mas não consegui. A cerejeira do nosso quintal estava sofrendo uma transformação diante dos meus olhos, enquanto eu escrevia. Transformava-se num monstro de culpa não expiada por mais de 100 mil mortos. Não, mais terrível ainda: um monstro sem culpa. Um monstro ocupado em ser só ele, porque nada, nem um único morto, era como ele. Nós não temos a desculpa da cerejeira, a desculpa monstruosa de não poder fazer nada. 

 

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