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Flores secas

A primavera americana chega com agouros de fim de outono. Nesta segunda-feira, um senador texano filhote do Tea Party vai anunciar sua candidatura à Presidência e tornar oficial o começo da mais longa e excruciante campanha eleitoral do mundo desenvolvido. A eleição é em novembro de 2016 e está fadada a bater novos recordes de gastos. A corrida presidencial de 2012 custou US$ 2.6 bilhões.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 Março 2015 | 02h07

O Republicano Ted Cruz resolveu sair na frente para se definir contra a manada de concorrentes que vem por aí. Mas não tem chance de ir morar na Casa Branca, o que não deve provocar alívio para quem conhece bem a biografia deste ultraconservador, cuja posição em questões como mudança climática faz Aldo Rebelo parecer um cientista. O bizantino sistema de primárias eleitorais nos Estados Unidos, que começa em janeiro, empurra candidatos para a direita, na ânsia de agradar um punhado de fazendeiros em Iowa ou homens de meia idade empobrecidos pelo declínio industrial de New Hampshire. O resultado são seis meses de demagogia extremista.

Para quem estava na multidão da Times Square na noite da primeira eleição de Barack Obama, em 2008, um momento que se definia menos por esperança marquetada do que por rejeição à era Bush, o panorama do campo republicano traz desconsolo. O sistema de primárias sempre atrai uma quota de extremistas ou palhaços que, por fim, não resistem à exposição nacional. Este ano, podemos ter a volta do histriônico execrável Donald Trump. Mas se a mídia desperdiça tempo com Trump, os extremistas circunspectos são motivo real de preocupação, como o governador do Wisconsin, Scott Walker, cuja viabilidade pode representar um claro retrocesso nas conquistas de Obama em política doméstica.

Um rápido exame da proposta de orçamento do Partido Republicano, que controla as duas câmaras legislativas, dá ideia de como desistiram de disfarçar sua crueldade. Ronald Reagan, hoje comicamente citado como inspiração por desinformados descontentes em Pindorama, seria tratado como esquerdista pela nova safra de seu partido. Mesmo com a garantia de que será vetado por Obama, o orçamento da oposição foi apresentado como exemplo de sua visão (ou cegueira). No país que mais rápido se recuperou da grande recessão global, a proposta prevê desmantelar o bem sucedido Obamacare, que colocou mais 16 milhões americanos sob o guarda-chuva do seguro saúde. Prevê cortar programas de bolsas de estudos, desmantelar moderadas medidas para prevenir que Wall Street arraste o país num novo crash e acabar com leis ambientais. Sabemos que o deus mercado protege o planeta, certo?

O desconsolo aumenta quando consideramos as alternativas moderadas nos dois partidos para 2016: um Bush e uma Clinton. Parece trama filha do cruzamento de Downton Abbey com um reality show: Dois políticos com atitudes dinásticas e bagagem numerosa como a da Condessa Violet Crawley de Maggy Smith.

Jeb Bush, ex-governador da Florida, mais inteligente do que o irmão mais velho George W., concentra, no momento, a atenção de milionários e bilionários doadores. Sua posição relativamente conciliadora em imigração é vista como ponto vulnerável diante de um cenário tão conservador.

Hillary Clinton, com seu ar de inevitabilidade, segue castrando psicologicamente o Partido Democrata. Não apareceu alguém para o que, por enquanto, parece ser o sacrifício certo nas primárias quando ela se declarar candidata.

A expectativa de uma candidata Hillary incontestada, pronta para ceder a pressões conservadoras em Washington, inspirou a tropa de choque de Obama a vazar a história do servidor pessoal de e-mails que ela usava como Secretária de Estado. Baixaria? Sim. Mas o denominador comum da política anda no nível dos termômetros do inverno que acabamos de enfrentar.

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