Flip termina com balanço positivo e excesso de público

A Festa Literária Internacional deParati (Flip) tem 5 mil novos espectadores a cada ano. Em suaquinta edição, que terminou domingo, 15.583 pessoas compraramingressos para acompanhar as 21 mesas de debates na tenda dosautores e outro tanto (15.874) na tenda da Praça da Matriz.Tanto sucesso tem seu preço. Programado para ser um festival dasletras compatível com o tamanho da cidade, a Flip extrapolou oslimites. Paraty não tem infra-estrutura para atender tanta gente.Se, em 2006, foram 12 mil visitantes atraídos pela festa, esteano esse número quase dobrou, chegando a 20 mil, segundo dadosfornecidos pela organização do evento. Faltou energia elétricano sábado e a espera nos restaurantes chegou a quase duas horas.Só a organização da Flip envolve uma equipe de 300 profissionaiscontratados e 200 voluntários, entre produtores, educadores etradutores à disposição de 76 autores de 11 países (50escritores e mediadores nas mesas e outros 26 na Flipinha, aversão da festa para o público infantil - mais de 10 milcrianças de 37 escolas da cidade, da zona costeira e rural).Parar de crescer Segundo o presidente da Associação Casa Azul, MauroMunhoz, responsável pela organização da festa literária, a faltade luz durante a Flip foi um "índice da importância" do evento,que não deverá sofrer muitas alterações de formato para acomodarmais espectadores. Este ano, a tenda dos autores, que comporta800 pessoas, chegou a receber mil nas mesas mais concorridas,como a do Nobel sul-africano J.M. Coetzee. Quem comprouingressos com antecedência saiu prejudicado, porque não hácadeiras numeradas. Munhoz garantiu que não foram vendidosingressos a mais. Atribuiu o excesso de público a uma eventualfalta dos controladores das catracas, que podem ter recebidoingressos de mesas menos concorridas. Seja o que for, o fato é que a Flip, paradoxalmente,precisa parar de crescer para sobreviver. Este ano ela ficoumais discreta que a edição anterior, marcada por incandescentesdebates políticos. Deixou-se de lado a ideologia e discutiu-semais a forma literária, embora algumas mesas (como a do debateentre Robert Fisk e Lawrence Wright) tenham sido marcadas portemas como terrorismo islâmico e o neocolonialismo (discutidopor Luís Felipe Alencastro ao analisar O Coração das Trevas,de Joseph Conrad). A curadoria do jornalista Cassiano Elek Machadorevelou-se bastante equilibrada, reunindo ganhadores do Nobel(Coetzee e Nadine Gordimer) e escritores de primeira viagem (oestreante Ishmael Beah e a brasileira Ana Maria Gonçalves, queganhou o prêmio Casa de Las Américas de 2006 com Um Defeito deCor). Machado não adiantou quem está na lista dos convidados de2008, mas citou dois nomes que a Flip persegue desde a primeiraedição: o italiano Umberto Eco (O Nome da Rosa) e onorte-americano Philip Roth (Complexo de Portnoy).Encontro marcante Entre as 21 mesas realizadas, a que despertou maiorinteresse do público foi a da sul-africana Nadine Gordimer e doisraelense Amós Oz. As que soltaram maiores faíscas foram as doinglês Will Self e do americano Jim Dodge, um iconoclasta e umsobrevivente da geração hippie, e aquela que reuniu LawrenceWright e Robert Fisk, em que este só faltou chamar seuinterlocutor de idiota. Na primeira, Will Self não chegou aoultraje porque o mediador Arthur Dapieve deu uma rasteira em seupantagruélico ego. Espera-se que a próxima edição da festa reflita o êxitoda experiência de abertura da Flip para formas literárias como ateatral, a musical (o encontro de Lobão com o poeta Chacal) e avisual (foi lançada pela Nova Fronteira uma graphic novel de OBeijo no Asfalto por Arnaldo Branco e Gabriel Góes),consagrando novos autores cuja participação na vida literáriaainda é tímida.

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