Flip homenageia Oswald de Andrade, o eclético

A herança estética de Oswald de Andrade (um dos artífices da Semana de Arte Moderna de 1922) continua viva e se desdobra de diversas maneiras. Esse foi o ponto de partida para o escritor paulista, cujo nascimento completa 121 anos hoje, ser escolhido como o próximo homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que ocorre entre os dias 6 e 10 de julho.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

"É uma ótima oportunidade para mostrar que Oswald não foi apenas importante pela participação na Semana de 22", comenta Manuel da Costa Pinto, o novo curador da Flip. "São essenciais suas contribuições para o teatro (o trabalho do Oficina é exemplar) e também para a antropologia, como sua tese sobre messianismo e utopia (A Crise da Filosofia Messiânica)."

Além do homenageado, o curador anunciou também os dois primeiros confirmados para a edição deste ano: o americano David Remnick, autor de A Ponte (Companhia das Letras), biografia do presidente americano Barack Obama; e o argentino Andrés Neuman, cuja obra O Viajante do Século será editada pela Alfaguara.

"A Flip criou uma tradição em trazer escritores com perfil de jornalista ou biógrafo, daí a importância da presença de Remnick - ele poderá comentar sobre um dos grandes acontecimentos políticos recentes que foi a eleição do Obama", observa o curador. "Já Andrés Neuman é uma das apostas da nova prosa argentina, lembrado até pela conceituada revista literária Granta."

Morto em 1954, quando estava com 64 anos, Oswald de Andrade deixou trabalhos fundamentais como o Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) e o Manifesto Antropófago (1928), além de ter introduzido a prosa experimental no Brasil, com Memórias Sentimentais de João Miramar (1924). "Foi também um dos precursores do Tropicalismo e de poetas marginais dos anos 1970."

Costa Pinto acredita que uma avaliação da obra de Oswald poderá trazer surpresas. "Ainda há muito a explorar sobre este pensador de uma miscigenação sem nostalgia da identidade (bem à frente, portanto, do atual discurso multicultural), o crítico da civilização técnica e, sobretudo, o criador de uma poética que restaura o arcaico para se libertar do passado", comenta.

Como sempre acontece entre os homenageados pela Flip, o nome de Oswald foi definido depois de consultas à família. "Marília, filha de Oswald, foi decisiva no acordo, favorecendo que a escolha recaísse sobre ele", explica Costa Pinto. Será o primeiro escritor paulista homenageado pelo evento, que já festejou pernambucanos (Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre), cariocas (Machado de Assis e Vinicius de Moraes), um baiano (Jorge Amado) e um mineiro (Guimarães Rosa). "Na verdade, a origem geográfica é a que menos interessa", observa Costa Pinto.

O humor é outra marca registrada de Oswald que deverá ser lembrada. São vários os exemplos de seu sarcasmo, como o lembrado pelo diretor Zé Celso Martinez Corrêa: "No dia 22 de outubro de 1954, Oswald, doente, vivia de pequenas rendas. Seu filho Nonê conta que, a pedido do pai, saiu para cobrar aluguéis atrasados de um teatro de propriedade da família, o Teatro Íntimo Nicette Bruno, então ocupado pela estrela Elvira Pagã. Quando seu filho voltou, do leito perguntou: "E aí , Elvira Pagô?" Foi seu último Poema Piada."

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