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Flikolping, há gente fazendo coisas pela cultura

Na festa literária de Cipó, na Bahia, um estudante pequenino me disse: ‘Quero comprar umas palavras suas’

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

10 de maio de 2019 | 02h00

A aluna do terceiro ano do grupo Serpente do Ensino Médio me disse: “Vamos assistir a sessão de cinema. É um filme com Rodolfo Valentino, Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, um clássico. O senhor como crítico tem a permanente, não paga nada”. Puxou a porta, penetrei na sala ao som da trilha sonora de Amarcord de Nino Rotta. Abriu-se a cortina e o filme começou, mas então eu não estava mais no agreste baiano, e sim em Araraquara, em 1952, entrando no cine Odeon para assistir a Valentino, dirigido por Lewis Allen, primeiro filme que critiquei na vida, tornando-me pioneiro da crítica de cinema de Araraquara. A permanente me possibilitava assistir a filmes de graça todas as noites. Segui meu destino de fantasia e imaginação.

Há anos viajo pelo Brasil, mas esta, a Flikolping de Caldas de Cipó, duas semanas atrás, foi mágica e me remeteu a vários momentos de minha vida. Desci em Salvador e Luis Carlos Caitano e o professor Miguelzinho me levaram para uma água de coco gelada em Itapuã. Dali pegamos a estrada e seguimos para Santa Bárbara, pausa para comer pamonhas na Imperial. Uma esquina simples e muito cheia, pamonha doce e café com leite. 

Ali, mergulhei nas tardes de Vera Cruz, começo dos anos 1950, quando caminhões das fazendas ao redor chegavam com o milho, despejando no terreiro de café do Tio Costinha. Começava a festa, uns descascando e selecionando a palha do milho, outros ralando, terceiros levando para os tachos sobre os fogões, outros a preparar a palha em forma de pequenos saquinhos, que seriam preenchidos pelo mingau de milho que se tornaria pamonhas doces, salgadas, com queijo, linguiça, tudo feito em casa. As espécies variavam. 

Ritual encantado envolvido pelo cheiro do milho ralado, das achas de lenha nos fogões. Adorávamos aquelas tardes, todos os primos apaixonados pela Maria Helena, filha do tio Costinha e da Aninha, as pessoas mais bem-humoradas e malucas de minha adolescência. Tive sorte de conviver, em épocas de sisudez e austeridade dos mais velhos, com parentes doidos, descolados, cheios de fantasia. Poucos sobraram daquele mundo. Todos estão comigo.

Naquela tarde na Bahia, à medida que devorávamos a estrada, via as placas, Lamarão, Biritinga, Serrinha, Nova Soure, Paulo Afonso. Atravessava paisagens de filmes de Glauber Rocha, vegetação de caatinga, arbustos retorcidos, aroeiras, angico e juazeiro. Assim eu me vi em 1961 em Paulo Afonso, onde Aurélio Teixeira filmava Três Cabras de Lampião, com roteiro de Miguel Torres, revelação do Cinema Novo, que me dava dicas para roteiros que jamais fiz. Mas eu estava lá por causa de uma atriz baiana chamada Marlene França, pela qual também estava apaixonado o fotógrafo do filme, Hélio Silva, um dos maiores do cinema da época, o que “pintava com a luz”. Considerado gênio, ele morreu em 2004 na miséria.

Indicado por Antonio Torres, o Colégio Kolping, de Caldas de Cipó, me levou para sua festa literária. Pequena cidade, 16 mil habitantes, mas um animadíssimo e bem organizado festival. Cipó é chamada de a pérola barroca do sertão baiano pela historiadora Veronica Alves. Uma cidade em que Lampião não conseguiu entrar, nem atravessou o Rio Itapicuru. 

A festa literária começou após o almoço e seguiu até meia-noite, com autores falando, danças, músicas, instalações, poesia, teatro. Parecia que a cidade estava toda ali. Me deu a impressão de que cada aluno levou a família inteira. O que é raro, em geral os pais mandam os filhos e pronto. Entrei numa sala, crianças ouviam Paulo Vinicius Leone, que circulava de sala em sala contando meu livro O Menino Que Vendia Palavras. Ao final, ele me apontava: olha ali quem escreveu. Crianças corriam, abraçavam minhas pernas, diziam: “Quero ter um avô assim, conta agora outra história”. Um estudante pequenino confessou: “Quero comprar umas palavras suas”. Depois, fui levado ao palco, conversei durante uma hora sobre o ofício de escrever, plateia misturada, crianças, jovens, adultos, em silêncio.

No final, uma professora, Lindalva Farias, ergueu-se para dizer que tinha vindo de Salvador só para me encontrar, porque na juventude, em 1978, tinha ficado impressionada com meu livro Cuba de Fidel, hoje esgotado, assim como a revolução cubana e seus ideais. Coisas que me tocam. Faltava ainda um módulo na homenagem a este escritor. Fui levado a salas onde vi nas paredes capas de meus livros, frases tiradas de entrevistas, contos, romances, LPs onde havia músicas que citei em meus textos, vídeos com trechos de entrevistas.

Coloquei um óculos informático e penetrei em um avião em que a comissária alertava que este romance, Desta Terra Nada Vai Sobrar, atravessaria zona de turbulência. Poucas vezes vi uma homenagem feita com tanta inspiração, criatividade e pesquisa. Nesses momentos vejo que vale a pena escrever, sempre atingiremos alguém, em algum ponto deste Brasil. Ou do mundo. Cipó estava feliz.

Comigo e com Torres ela já abrigou dois acadêmicos da Brasileira. Três, se contarmos que em 1952, Guimarães Rosa, então diplomata, acompanhou Getúlio Vargas na inauguração do luxuoso Grande Hotel, já que a cidade foi termal, agitada. Na época, Guimarães tinha 44 anos e somente seria eleito 19 anos depois, em 1963. Mesmo assim, conta. Por que não.

Na manhã de minha partida, tomei o café na Pousada do Paiva, onde dona Zefira preparou mingau de milho, me ofereceu mandioca cozida regada com manteiga e café. Era cedo, fui para a varanda, contemplando a Praça Juracy Magalhães, havia dois gigantescos tamarindeiros.

Fui até a fonte, onde a água a 36 graus jorra o tempo todo, e enchi um copinho. Quando estendi a mão para o jorro de água, o que vi foi Claudia Cardinale dizendo il bicchieri e percebi que eu estava numa cena de Oito e Meio em que Marcelo Mastroianni imagina que é Claudia que lhe oferece a água. Mas não, é apenas uma impaciente funcionária do hotel. O personagem passa o filme vivendo realidades idealizadas. Como eu. Para ele, Claudia, em 1962, então no esplendor de sua beleza, representava a pureza. Se cada cidade brasileira realizasse uma festa como esta do Colégio Kolping, a cultura estaria salva

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