Jonia Guimarães/Divulgação
Jonia Guimarães/Divulgação

Flexibilidade da borracha molda 'Objeto Gritante'

Espetáculo é a mais recente criação de Mauricio de Oliveira para a sua Companhia Siameses

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2011 | 00h00

A gaveta onde a dança deposita seus "trabalhos de transição" contém objetos diferentes. Encontramos lá aqueles nos quais o modo de dizer se desgastou e ainda não surgiu outro, e também, mas em quantidade bem menor, os do tipo de Objeto Gritante. A mais recente criação de Mauricio de Oliveira para a sua Companhia Siameses, em cartaz até domingo no Teatro da Dança, pertence a um pequeno conjunto, o das obras que têm clareza de onde vêm e para onde desejam ir, mesmo enquanto ainda não conseguem completar essa passagem.

Objeto Gritante está superpopulado por variados e ótimos materiais. Por enquanto, parecem com aquelas impactantes fotos dos congestionamentos de pedestres, bicicletas, automóveis e animais de algumas cidades muito populosas. Aparentemente, não seria possível viver em um lugar assim, mas uma auto-organização específica faz com que seja absolutamente normal. É essa auto-organização entre os materiais antigos e novos que começa a acontecer.

A transição para esse tipo de "normalidade" faz de Objeto Gritante um momento importantíssimo na carreira de Mauricio de Oliveira. Artista inquieto (seria um pleonasmo, uma vez que a inquietude constitui a ignição do artista, mas, infelizmente, não é isso que se encontra por aí), vai saindo do vocabulário que tão cuidadosamente desenvolveu e rascunhando um outro, distante das arestas e vetores que tão bem domina. Não à toa, o espetáculo tem duas partes: uma introdução, composta com o material conhecido, que poderia continuar a produzir dezenas de outras obras competentes. E uma outra parte, dedicada a introduzir as atuais inquietações.

A direção agora não é mais a da exploração dos encaixes/ desencaixes, das "angulosidades" do corpo, das quebras e das segmentações das linhas retas. Mauricio de Oliveira foi buscar a textura da borracha mole para trabalhar o que forma/ deforma. Ele "aplica" ao corpo as máscaras de Duda Paiva e, assim, produz outros relevos, outros contornos; amontoa as máscaras como um corpo largado por aí; e até as usa como máscara mesmo. Cada cena funciona como um tracejamento de possíveis futuros percursos.

O cenário pode ser tomado como uma indicação do que se passa. São grupos de fios reunidos em um ponto único, que são esticados de modo a fatiar comportadamente o espaço do pedaço do palco que acolhe a dança que Mauricio de Oliveira já inventou. A outra, a nova, acontece ao lado, fora desse cenário.

A impecável Marina Salgado, bailarina que faria o duo com Mauricio, acidentou-se e foi substituída, dez dias antes da estreia, por Ditto Leite. Além de dar conta do difícil papel que lhe coube, desempenhou-o com tamanha propriedade, a ponto de nos fazer ver que aqueles gestos foram criados para um corpo feminino. A qualidade da dança desses dois intérpretes anima quem tem frequentado a cena da produção recente. E o trabalho artístico que nos mostram anima ainda mais pela fartura de promessas boas que nos faz.

Retomando algo de Fragile, que criou em 2008 para o 12º Festival Cultura Inglesa, Mauricio de Oliveira agora avança no uso de texto, dos personagens e da fala. Há muito que fazer ainda, e curiosamente, essa se constitui na melhor parte de Objeto Gritante. A consistência do que já apareceu, muito provavelmente se irradiará pelos arredondamentos que os novos gestos parecem indicar. O corpo meio que soluça em elipses - como se dele saíssem ondas pequenas que, como aquelas que se desmancham na praia, voltam depois para participar da próxima.

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