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Fleuma coroada

A rainha da Inglaterra parece ter sido bem talhada pelo professor de 'My Fair Lady'

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2018 | 02h00

Hipócrates e Galeno supunham a existência de quatro “humores” no corpo humano. Haveria sangue, bílis amarela, bílis negra e fleuma. O desequilíbrio do quarteto causaria as doenças. Cabia ao médico, com punções e sangrias, restabelecer a harmonia. A teoria dos humores valeu por séculos e também explicava as diferenças de comportamentos entre as pessoas. O predomínio de um dos elementos implicaria a personalidade do portador, como um colérico ou um melancólico.

O tipo fleumático é o meu preferido. Por possuir boas doses do referido humor frio, tende à calma. A palavra foi incorporada ao vocabulário mesmo que Hipócrates só sobreviva como forma anacrônica nos juramentos de esculápios. O ser humano fleumático é quase um tipo filosófico. Abala-se pouco, evita excessos e arroubos, não grita nem chora em público, mantém a linearidade e o tom plano sempre. Essa descrição acabou sendo associada, por tradição, aos ingleses. 

Toda identidade nacional dialoga com a representação do que imaginamos ser e de quem gostaríamos de nos diferenciar. Assim surge a bonomia associada aos brasileiros ou a fleuma aos britânicos. Diga-se sempre: a construção do império controlado por Londres foi pouco fleumática. As violências extremas na repressão a indianos ou a africanos, os racismos absurdos, o bombardeio de cidades pela marinha britânica sempre desmentiram a autoproclamada imagem de equilíbrio. Ainda assim permanece a construção: ingleses seriam menos passionais do que os latinos. 

Estando em Londres há poucas semanas posso dizer que admiro o tom geral das relações nas ilhas. Eficácia sem exaltação e simpatia sem proximidade excessiva. Um sorriso médio e uma gestualidade que indicam: eu sou eu, tenho uma função e um limite; o senhor é o senhor, tem outra função e outro limite e nosso contato durará pouco. Há normas e elas guiam nosso mundo e garantem certa impessoalidade que evita constrangimentos e excessos. Nada de tocar ou abraçar estranhos, nada de demonstrações exaltadas. O humor anglo-saxão (distinto da nossa chalaça) parece ser a única ponte para sair alguns centímetros da fleuma circunstante. 

Quase tudo aquilo que provoca o amor e até alguma crítica sobre a soberana do Reino Unido tem a fleuma na raiz. A rainha Vitória completou bodas de diamante no trono, em 1897. Faleceu 4 anos depois. Sua trineta parece que vai provocar uma necessidade de batizar aniversários e bodas com novos nomes. Quase todas as listas param em bodas de carvalho. Sua Majestade é um monumento longevo ao caráter idealizado dos insulares. Sorridente sem mostrar demais os dentes, comedida, com sua indefectível bolsa. Jamais parece ter sido flagrada eructando ou cutucando o régio nariz. 

Interessante: ancestrais diretos de Elizabeth II, os soberanos de origem continental, eram tão famosos pelos ataques coléricos que surgiu a expressão “fúria angevina”. Os governantes medievais da Inglaterra e de boa parte da França atiravam-se ao chão, uivavam, rasgavam roupas e gritavam com tal ímpeto que todos se afastavam com medo do monarca em ebulição descontrolada. Difícil supor que isso esteja no código genético da atual soberana da casa de Windsor. 

Elizabeth II teve um pai, Jorge VI, bastante controlado e algo tímido pela gagueira. Também teve um avô hierático e sisudo, Jorge V. Sua trisavó Vitória tinha fama (nem sempre exata) de pudica e moralista. Porém, a mais longeva soberana do trono inglês também dialoga com os genes de seu tio impulsivo (Eduardo VIII), seu bisavô playboy (Eduardo VII), seu ancestral insano (Jorge III) e com uma árvore genealógica povoada de guerreiros como Guilherme, o Conquistador, e Henrique V. Na parentalha real, temos James I, famoso pelo pouco apego à higiene pessoal e muito apego aos homens. Existem centralizadores autoritários como Carlos I, que acabou decapitado. Henrique VIII deu seu quinhão genético e ficou famoso pelas seis esposas e pela brutalidade política. Haveria um esgar ao menos no rosto da atual Majestade que remetesse a Ricardo III, o corcunda imortalizado por Shakespeare? Isso sem passar pela corpulenta parentela alemã que, de ducados inexpressivos a Oeste do Reno, vivia entre batatas e intrigas. 

A rainha da Inglaterra, como quase todos os soberanos, não teve formação exemplar. Usa o inglês de forma clara e com muitas palavras de origem latina, um distintivo social. Isso ocorre em qualquer idioma, mas o vocabulário latino em inglês denuncia sua renda, sua origem escolar e sua posição na cadeia alimentar. Elizabeth fala de forma pausada, olha pouco para o interlocutor, denunciando alguma timidez e a consciência de um papel que lhe tocou quase por acidente. Ela parece ter sido bem talhada pelo professor de My Fair Lady (filme de George Cukor, 1964). 

Talvez a calma não seja o tijolo perfeito para construir a personalidade fascinante. É possível que levar Sua Majestade para uma região deserta não garanta companhia extraordinária. Seria a companhia de Sua Majestade uma variante que o veneno de Nelson Rodrigues atribuiu aos paulistas: uma forma extremada de solidão? Não sabemos, de verdade, quem é Elizabeth II. Talvez ninguém saiba, nem ela mesma, como uma atriz que fez o mesmo papel a vida inteira e confunde sua personagem consigo. Sabemos pouco e, no máximo, espiamos por séries como The Crown. É evidente que a tranquilidade metódica ajuda na longevidade. Ela diria: “Indeed”? Será que eu amo a fleuma britânica ou odeio a passionalidade da campanha política tupiniquim que se avizinha? Bom domingo para todos nós. 

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