Flertes de Sinisterra com teatro do Brasil

Dramaturgo espanhol é tema de mostra em SP, cidade que já ama

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

Quase brasileira. "Minhas obras já se impregnaram um pouco desse magnífico país", diz Sinisterra.     

 

"Sou completamente indisciplinado", diz José Sanchis Sinisterra quando tenta explicar sua rotina de trabalho. "Posso conseguir escrever no metrô, mas não ser capaz de fazê-lo em um confortável escritório com vista para o bosque. O estalo também pode partir de uma notícia de jornal ou de um seminário de filosofia."

Fato é que a ausência de método parece funcionar e o autor profícuo, dono de quase meia centena de textos teatrais, continua a manter a média de lançar quase uma nova peça por ano.

Parte da vasta produção poderá ser vista a partir de hoje no Instituto Capobianco, em mostra que prevê espetáculos, leituras dramáticas e oficina para atores conduzida pelo próprio Sinisterra. De sua casa, em Barcelona, o dramaturgo conversou com o Estado e falou sobre sua crescente aproximação com o Brasil, as impressões sobre São Paulo e o futuro do teatro.

Existe um movimento de convergência de seu teatro com o Brasil?

Existe uma crescente presença de minhas obras no teatro brasileiro. Vou muito ao Brasil, onde tenho muitos amigos, e creio que as minhas obras já se impregnaram um pouco desse magnífico país.

Qual a sua percepção sobre produção teatral de São Paulo?

É uma das grandes capitais do teatro na América do Sul, ao lado de Buenos Aires e da Cidade do México. E digo não só no que se refere a qualidade e quantidade, mas também ao dinamismo inovador e à sensibilidade social. Porque esses são dois aspectos que muitas vezes seguem separados. Em muitas ocasiões, a pesquisa e a investigação seguem por um caminho esteticista, elitista, minoritário. Mas, em São Paulo, vimos também projetos de ressonância social muito interessantes.

E a cidade, que impressão lhe causou?

Para ser sincero, senti-me um tanto aturdido com o trânsito, as distâncias, esse caos das grandes urbes. Mas devo reconhecer que, nas últimas semanas em que estive montando Flechas do Anjo do Esquecimento - fiquei no total um mês e meio na cidade - tive a impressão de encontrar recantos calmos, atrativos, humanos. Acho que estou começando gostar de São Paulo. Mas ainda é um amor infiel.

Como será seu novo espaço teatral em Madri?

Quero impregná-lo do muito que aprendi em minhas andanças pela América Latina. Um dos projetos é celebrar o centenário de Nelson Rodrigues, em 2012. Desde que fui apresentado à obra dele, no anos 1990, tenho estado encantado.

Como analisa a situação do teatro hoje? Crê que ele está ameaçado?

O teatro não está mais ameaçado, por exemplo, do que o cinema ou a cultura em geral. O grande inimigo é o mercado, que banaliza e prostitui tudo em função do benefício econômico imediato.

E como uma arte tão artesanal pode sobreviver nesse contexto?

É disso justamente que as pessoas necessitam cada vez mais, desse encontro de dimensões humanas, sem a mediação de telas. É curioso mas, na Espanha, as estatísticas mostram, justamente, um aumento do numero de espectadores do teatro.

DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO

 

Hoje

21h Abertura da mostra, conversa com Fernando Peixoto e Georgette Fadel, seguida de leitura do texto Nhaque ou Sobre Piolhos e Atores.

Amanhã e quinta

21h Peça Ay, Carmela, com Velha Companhia

Sábado

21h Peça Bartleby, com Núcleo Caixa Preta

 

Quarta (16/6)

21h Palestra com José Sanchis Sinisterra e Christiane Jatahy, seguida de leitura do texto Diálogos com Molly Bloom, com Denise Fraga. Direção de Luiz Villaça

 

Quinta (17/6)

14h Oficina de dramaturgia com Sinisterra e oficina para atores com Christiane Jatahy

21h Leitura do texto Vagas Notícias do Klamm (inédito no Brasil), com Patrícia Gordo. Direção de Christiane Jatahy.

 

Sexta (18/6)

21h Leitura do texto Perdida nos Apalaches, com Cia. Arte Ciência

 

Sábado (19/6)

14h Oficina de dramaturgia com José Sanchis Sinisterra e dramaturgia para atores com Daniela de Vecchi

21h Palestra com a fotógrafa Lenise Pinheiro, seguida de leitura de Recortes Pessoais de um Teatro, de Marcio Freitas.

 

Segunda (21/6)

21h Leitura do texto Valeria e os Pássaros (inédito no Brasil), com Alejandra Sampaio. Direção de Kiko Marques.

 

Terça e quarta

( 22 e 23/6)

21h Apresentação da peça Flechas do Anjo do Esquecimento, com Cia. das Magnólias. Direção de José Sanchis Sinisterra

 

Sábado (26/6)

21h Apresentação do monólogo Vacío (inédito no Brasil), com o ator Mario Vedoya. Direção de José Sanchis Sinisterra.

 

Domingo (27/6)

19h Apresentação de Vacío e encerramento

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