Flauta pop e erudita

James Galway fala sobre o futuro dos clássicos e de possível turnê pelo Brasil

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE , LUCERNA, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h10

Trinta milhões de discos vendidos, concertos particulares para reis, quatro presidentes americanos e até papas. Sir James Galway reinventou a flauta e reconhece esse feito. Nascido em Belfast, nunca hesitou em cruzar a fronteira entre o pop e o erudito. Compartilhou o palco com Pink Floyd, foi o primeiro flautista de Herbert von Karajan em Berlim. Em 1978, sua gravação da música de Annie's Song, de John Denver, chegou à terceira colocação no ranking das canções mais populares no Reino Unido.

Conhecido como o "Homem da Flauta de Ouro", Galway recebeu o Estado para fazer um raio X sem qualquer diplomacia sobre o futuro da música erudita contemporânea e sobre sua própria carreira. Divertido e irônico, não pensa duas vezes antes de tecer ásperos comentários contra músicos que "sobem ao palco arrastando os pés e apenas pensando em ganhar dinheiro para comprar um segundo carro". No segundo semestre, uma eventual turnê poderá levar Galway pela primeira vez ao Brasil.

O senhor faz parte de um

seleto grupo de músicos eruditos que se transformam em estrelas...

Nunca imaginei nada disso. Penso muito em meus pais quando vejo o que consegui. Éramos uma família pobre. Meu pai estava na maioria das vezes desempregado. A Segunda Guerra Mundial trouxe muito dinheiro para Belfast, onde o porto era muito útil aos Aliados. Mas quando a guerra acabou, milhões ficaram desempregados e meu pai era um deles. Lembro-me de sua frustração constante.

E como chegou à flauta?

Meu pai tocava nos fins de semana com minha mãe, ao piano. Meu avô tocava flauta, seu pai tocava flauta, meu tio Joe tocava flauta. Está no DNA.

Como explica o fato de conseguir ter sucesso em diferentes culturas?

Por anos eu também não entendia isso. A maioria dos músicos toca por hábito. Pegam o instrumento, olham para a partitura e tocam. Se tem mais técnica, seu desempenho será melhor. Mas é só isso, não se envolvem com a música. Quando se faz isso, olha-se para a música de um outro ponto de vista e a música começa a ser parte de sua alma. Vou dar um exemplo: tenho uma filha que estava sempre deprimida. Quando eu telefonava para ela e perguntava como estava a vida, ela sempre dizia: ruim. Um dia, disse a ela que não aceitaria mais essa resposta e que ela era apenas fruto de um hábito. Queria ouvir: muito ruim, terrível, talvez um pouco melhor. Isso nos fez progredir e nos conhecer melhor. Isso tudo para dizer que atacar os hábitos é a melhor forma de cortar uma atuação que não quer dizer nada no palco. Tudo se resume em seguir regras preestabelecidas. Isso é ideal para o barroco.

Como assim?

Ninguém precisa ser um músico para tocar música barroca. Só precisa seguir as regras. Um matemático poderia fazer isso. Na verdade, talvez muito melhor que muitos músicos. São bem mais inteligentes. Você precisa ser inteligente para ser um matemático. Mas qualquer um pode ser flautista.

Essa necessidade de mudar a forma pela qual os jovens aprendem música tem levado o senhor a fazer algo na prática?

Decidi que darei aulas pela internet. O interessado pode comprar o curso e seguir as aulas pré-gravadas em seu computador em qualquer parte do mundo. As aulas serão em inglês e haverá tradução em coreano, japonês, português e várias línguas. Estamos em um mundo diferente. Por anos não tenho ensinado alunos particulares. Mas quando vejo como as pessoas são ensinadas e como professores atuam, me assusta. Quando se aprende de um professor que aprendeu de outro professor, a obra já se parece apenas um exercício. Ninguém te diz para transformar a primeira nota em uma exclamação. O instrumentista precisa transformar seu instrumento em sua voz.

O senhor mudou a forma de tocar diante da busca pelos sons mais puros já obtidos?

Não. Grande parte da minha vida passei tocando música clássica em público e ao vivo. É verdade que há gente que acha que eu passo o dia tocando Annie's Song. Mas não é bem assim. O que muda a sonoridade é treinar, praticar. Tem de praticar até que a peça forme parte de sua alma.

O senhor cruzou a fronteira

entre o erudito e a música pop várias vezes. Qual a diferença entre atuar com o Pink Floyd e sob o comando de Karajan?

Há muita diferença. Tocar com Herbert von Karajan era diferente. Você faz parte de um time e seu desempenho depende de como você sabe tocar num time. Atuar com o Pink Floyd foi outra experiência. Aprendi a música, mas não havia ensaio. Sobe-se no palco e pronto. Aí você olha e descobre que há gente na plateia até perder de vista. Tenho de confessar que me sinto mais confortável quando há 2 mil pessoas num teatro para me ver que quando estou num estádio com 200 mil pessoas.

Por que o senhor cruzou essa fronteira entre erudito e popular? Talvez tenha sido minha infância, ter visto esses dois lados sempre em minha casa. Mas também foi a influência de músicos como Caruso e o violinista Jascha Heifetz. Eles já faziam isso. Traziam coisas charmosas muito bem tocadas e pensei: é isso que quero fazer.

O senhor liderou movimento pedindo que governos invistam na educação de música nas

escolas. Por que considera

isso um dever do Estado?

É importante aprender música para que a criança tenha outra faceta em sua personalidade. É para que pelo menos possa dizer, num concerto de rock, que gosta disso ou daquilo. Não se grita entusiasmadamente para todas as músicas da mesma forma. Até os Beatles chegarem, não havia perfeição nessas bandas. Eles chegaram e mostraram outra forma de apresentar a música pop. Tocavam como se tivessem treinado por meses as mesmas melodias. Pode-se ler uma partitura e tentar decifrar o que uma era pensava. E isso pode ser importante para a vida de uma pessoa.

Qual deve ser o espaço que se dá para a música erudita hoje no cenário artístico?

A economia afeta todos os segmentos da sociedade. As pessoas só pagarão por aquilo em que estão de fato interessadas. As pessoas estão interessadas no Manchester United ou em um show do Pink Floyd. Há tantas orquestras pelo mundo e muita gente fazendo exatamente a mesma coisa. Não há muitas orquestras de arrebentar e, na maior parte dos casos, o pior é que você olha os músicos e eles estão sentados no palco sem nenhum entusiasmo.

E o que vai acontecer com a atividade sinfônica?

Orquestras vão desaparecer. Nos Estados Unidos, dezenas de orquestras estão com problemas financeiros tão grandes que estão à beira da falência. Terão de oferecer algo melhor. E isso não significa recorrer a modelos comerciais. Quando estava na Orquestra de Londres, fui contra a entrada de Andre Previn como maestro e abandonei a orquestra. Sua contratação era uma questão comercial, com a direção esperando ganhar contratos para gravar trilhas de filmes.

Mas o sua opção por músicas leves nos CDs não seguia a mesma linha de vender mais?

Isso nunca interferiu em minha atuação ou rigor. Tudo o que eu fiz cruzando fronteira foi levado muito a serio. Cada uma dessas canções eu toquei como se fosse a coisa mais importante que já fiz em minha vida.

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