Flashes da figura paterna

Graciliano Ramos ressurge sob o crivo do filho Ricardo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2011 | 03h07

Nenhum homem cabe inteiramente em uma biografia, diz o senso comum. Consciente dessa premissa, Ricardo Ramos decidiu intitular como Graciliano: Retrato Fragmentado a biografia que escreveu sobre o pai, notório autor de Vidas Secas. Para ele, o privilégio de ter compartilhado a intimidade com o escritor não bastava, pois Graciliano, apesar da rotina espartana, hábitos simples, conduta exemplar, ainda era um enigma. O livro, portanto, apenas desvendaria alguns mistérios.

A primeira edição, no entanto, foi apressadamente lançada em 1992, pouco depois da morte de Ricardo e ainda no rastro da comemoração do centenário de nascimento de Graciliano. O valioso material deixado pelo autor merecia um trabalho editorial cuidadoso. A esperança de melhoria ficou para a 2.ª edição que chega só agora, pela editora Globo, graças ao empenho dos netos de Graciliano, Rogério Ramos e Ricardo Filho. Assim, o volume ganhou nova capa, mais fotos e um alentado prefácio de Silviano Santiago, Colagem Viva, que destaca justamente a quantidade de retratos de Graciliano Ramos feita por leitores e críticos ao longo dos anos e que, aliada à intimidade revelada por Ricardo, apenas contribuía para fortalecer a labiríntica figura do escritor alagoano.

Disposto a frear os exageros, Ricardo garimpou a vastíssima bibliografia sobre a obra de seu pai para iniciar a série de fragmentos, começando justamente por um conjunto de negativas. Como destaca Santiago, citando Ricardo, Graciliano não era a "personagem inteiriça, compacta, quase olímpica, sem a menor sombra de conflito ou dúvida". Tampouco "a criatura rude, sertanejo primitivo e pitoresco, o autodidata que certo dia simplesmente resolveu escrever". Não era "partidário, cego seguidor da regra política". Nem mesmo o "intelectual cooptado", obrigado a se adaptar às regras ditatoriais do Estado Novo. Acreditar em qualquer uma dessas premissas seria, segundo Ricardo, "aceitar o homem precisamente como negação da obra". Daí seu cuidado de não ter escrito a biografia definitiva.

Ao tratar de um homem com quem manteve uma convivência tão próxima, Ricardo inevitavelmente também se expõe ao falar do pai. Lamenta, por exemplo, não ter estado ao lado de Graciliano no leito de morte. Por outro lado, revela como foi o aprendizado estilístico com Graciliano, cuja escrita, fruto de infatigável esforço artístico, abominava cacoetes modernistas como apreender aspectos da fala oral. Ricardo também se preocupou com a produção pouco conhecida da maioria dos leitores, como crônicas e textos publicitários, que destacam o caráter do pai em conversas avulsas. E luta, por fim, para desbaratar a fama, criada nos anos 1950, de que Graciliano era um autor elaborado e elitista. São fragmentos, mas decisivos para desembaçar o perfil de um homem ainda a se descobrir.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.