Flashes da Copa em Itaparica

Como seria de esperar-se, declarou-se grande revolta, entre muitos cidadãos, pela ausência de Obina dos gramados da África do Sul. Sua exclusão da lista de Dunga não foi surpresa, embora houvesse quem botasse fé até o último minuto e hoje não esconda a decepção, diante do que foi visto por alguns como mais um exemplo de discriminação contra a ilha. Discriminação ou não, a revolta se acirrou depois que os primeiros jogos foram assistidos e se chegou à conclusão de que Obina faria magnífica figura, entre os numerosos pernas de pau que andam se exibindo na Copa. Um grupo de representantes do Baiacu, onde ele nasceu, se preparava para realizar uma festa de desagravo - já designada, por alguns entusiastas, como a Lavagem da Chuteira - quando uma ideia melhor surgiu, no curso de um debate entre Jacob Branco e Zecamunista, onde se chegou à conclusão de que às vezes a pátria amada é meio ingrata e, por consequência, justificavam-se certas atitudes. Jacob propôs que, assim pelo jeitão e porque na Alemanha, na França e na Inglaterra já tem muita concorrência, Obina se naturalizasse dinamarquês, mas, depois que ponderaram que dinamarquês usa chapéu de chifre, a escolhida final foi a Holanda. Ninguém esquece que os holandeses invadiram a ilha nos anos 600 e o mínimo que eles nos devem é dar logo o passaporte de Obina, no que, aliás, estarão fazendo um favor a si mesmos, depois da enésima Copa em que todo mundo diz que a Holanda é a porreta das porretas, para depois ela não chegar a lugar nenhum. Obina van Baiacko em 2014, é a palavra de ordem.

JOÃO UBALDO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Em relação aos problemas de Dunga com a imprensa, as opiniões se dividem. Os dunguistas se solidarizam com o técnico e os mais exaltados professam admiração por ele ainda não ter sacado a peixeira na direção da reportagem. Sua convicção não chegou nem mesmo a ser arrefecida pelo argumento de que, com o salário que Dunga ganha, dá para aguentar fácil qualquer desaplauso, porque esta alegação esbarrou no fato de que a maioria duvidou que existisse tanto dinheiro neste mundo, que não haveria cueca de deputado que coubesse. De concreto, temos que Azeda se ofereceu, mediante cinco por cento do líquido, receber tudo o que é dirigido contra Dunga, de restrições a xingamentos.

- Por mais um porcentozinho, eu tomo até umas porradas - disse Azeda. - Aliás, pode ser qualquer coisa, menas a mãe.

- E por dez por cento, Azeda?

- Bom, aí ela vai compreender - disse ele. - Mãe é mãe.

De forma inesperada, a Copa contribuiu também para reparar uma injustiça histórica, de que foi vítima meu antigo companheiro de trio de defesa do glorioso Futebol Clube São Lourenço, Nego Toia, nosso goleiro. Deu-se que, num clássico contra o nosso rival Esporte Clube Ideal, um juiz de Salvador, que havia sido subornado com uma moqueca pelo cartola idealista Aurélio Alfaiate, marcou um pênalti inexistente, contra as nossas cores. Tudo certo, Nego Toia a postos, prepara-se para a cobrança meu compadre Edinho, igualmente negão, só que com uns dois metros de altura por dez arrobas de peso, bicudeiro famoso por certa feita haver trespassado o balão de couro com o dedão. Toia olhou, conferiu e abandonou a meta.

- Aqui pra vocês todos! - disse ele a seus companheiros e à torcida. - Tou cedendo a camisa a qualquer um, quem quiser que fique na frente dessa bufa de baleia!

Durante muito tempo, Toia suportou calado os que criticaram sua atitude. Parece que adivinhava que o futuro o vingaria. No jogo entre os Estados Unidos e a Eslovênia, como todo mundo viu, o goleirão da Eslovênia cobriu a cara e saiu de baixo, na hora em que o americano mandou um chute enviesado em cima dele, que terminou sendo gol.

- Ah-ha! - gritou Toia, levantando-se no bar de Espanha. - Olhaí! Viram vocês o que manda a regra e o juízo exige? Quer dizer que, porque é branco e fala inglês, ele pode! E eu não posso? Aqui pra vocês todos!

Também têm suscitado debates os animais africanos mostrados nos noticiários. Ainda há muitos caçadores na ilha, todos invejosos de lugares como a África, cheios de bichos que aqui não existem. Nossos incontáveis talentos ficam se perdendo, como é o caso de Xepa, que, como já contei aqui, um dia destes estava pescando desencalmado, quando sentiu um puxão na vara e esse puxão era um tatu, ele fisgou um tatu. Agora, vendo esses bichões no telão do bar de Espanha, fica tendo umas ideias. Com toda a certeza, usando um bom pernil de isca, ia dar para fisgar um leão, por que não?

- Fisgava com toda a certeza - me disse ele. - Agora, ia ter que ter braço pra embarcar o bicho.

Finalmente, a despedida da França foi recebida da mesma forma que pelo resto do Brasil, com a notável exceção de Zecamunista, que sacudiu a cabeça pesaroso, ao ver o final de jogo com a África do Sul. Crispando os lábios, murmurou qualquer coisa incompreensível, revirou os olhos e suspirou lastimosamente.

- Que foi que houve Zeca, você gosta assim da seleção da França?

- Você conhece o enjambement déroulé?

- Não.

- E o passe-partout réversible?

- Também não. São jogadas?

- São, mas não o que você está pensando, você não conhece a vida. Meu negócio não é a seleção francesa, são francesas selecionadas.

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