'Fiz o beijo pela grana, mas fui roubado'

Foi o desabafo de Babenco ao exibir nova cópia de sua Mulher Aranha

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Aberturas de festivais em geral são chatas. Discursos, homenagens, frases feitas, tom solene, noite de terno e gravata no sentido literal e no simbólico. Em sua terceira edição, Paulínia conseguiu evitar o tédio. Como? Simples: convidando uma dupla fora de série para abrir a noite no Theatro Municipal - Fernanda Torres e Lázaro Ramos. Os dois exibiram graça, simpatia, bom humor, inteligência, presença de palco. Mesclando algum improviso ao texto já pronto, tiraram o ranço de solenidade. Que, claro, teve a palavra de políticos, agradecimentos a patrocinadores. Faz parte do show. Ou do jogo. Mas, graças a Fernanda & Lázaro, essa parte foi rápida.

E rapidinha chegou ao momento de fazer a homenagem principal da noite, a entrega do troféu ao cineasta Hector Babenco. Essa parte também não foi chata. Mesmo porque Babenco não é pessoa convencional. Fala coisas que nem sempre agradam às pessoas, mas procura evitar o politicamente correto, essa praga contemporânea da retórica que não leva a lugar nenhum. Babenco faz uma mescla de humor duvidoso ("Vou derreter a Menina de Ouro", que é o troféu do festival) com sinceridade brutal, quando fala do seu filme O Beijo da Mulher Aranha: "Fiz em língua inglesa não porque a ache superior ao português, mas porque precisava pagar minhas contas."

A profissão de fé na franqueza o obrigou também a confessar que a estratégia não deu certo. "Pensei que ia ganhar muito dinheiro, mas a gente, do terceiro mundo, não sabe lidar com os gringos. Fui roubado", disse. Babenco falou outras coisas interessantes em sua breve passagem pelo palco. O que seria agradecimento formal por um troféu recebido acabou funcionando como brevíssima petição de princípios e exposição de método.

Artesanal. Babenco disse que quando se lembra da produção de O Beijo da Mulher Aranha parece que está falando de uma era paleolítica, pré-histórica. Tudo era artesanal. "Parece um filme feito no tempo de Copérnico", brinca. Ele dá um exemplo. Nas imagens iniciais precisava iniciar uma história, com uma narrativa em off, e apenas depois mostrar quem contava essa história. Isso significava deslizar a câmera enquanto a voz se ouvia, por um ambiente indefinido até que o espectador soubesse que aquela voz falava do interior de uma prisão. "O nosso fotógrafo, Rodolfo Sanchez, gastou dois dias pensando em como faria aquele plano; isso pode parecer sem importância, mas, naquela época, a abertura do filme significava a vida para mim", disse Babenco.

Na verdade, toda essa conversa precedia a atração principal da noite que era a exibição desse que é um dos melhores filmes de Babenco, e talvez aquele que lhe deu a maior projeção internacional. O Beijo da Mulher Aranha, baseado em Manuel Puig, deu o Oscar ao protagonista, William Hurt, além de ter sido indicado em outras três categorias - melhor filme, diretor e roteiro adaptado em 1985. Rendeu ainda a Hurt outros dois prêmios importantes: melhor ator em Cannes e no Bafta (o prêmio inglês).

Babenco contou também que teve muito trabalho para obter os direitos do seu conterrâneo, Manuel Puig, e que este morreu sem lhe dizer o que havia achado do filme. Puig morreu há 20 anos, em 22 de julho.

O filme tem exatos 25 anos. O que se pode dizer é que envelheceu bem. Chega enxuto à maturidade e, em seu feitio clássico, ampara-se numa dramaturgia clássica e bastante sólida. A história, como se sabe, é a de dois companheiros de cela, o homossexual Molina (William Hurt) e o militante de esquerda Valentin (Raul Julia). Para matar o tédio e aliviar o sofrimento da prisão, Molina conta a Valentin a interminável história de um filme ambientado na época do nazismo, uma trama de glamour duvidoso, na qual aparecem Sonia Braga, Denise Dummont e Herson Capri como oficial do Reich.

Visualmente muito elaborado, O Beijo da Mulher Aranha navega entre os registros realista e onírico. Uma forma mista, que não tem poucos críticos, mas que costuma seduzir o espectador sensível. Fala da amizade entre contrários, discute sexualidade e política, e não deixa de ter algumas boas cenas de ação. As sequências fora de estúdio, com William Hurt nas ruas do centro de São Paulo, conservam uma beleza crua, documental.

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