'Fiz minha fortuna graças ao prêt-à-porter'

Com muita vitalidade aos 88 anos, Pierre Cardin fala sobre a revolução da moda da qual fez parte ao romper, nos anos 1960, com a alta-costura

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2011 | 00h00

Para que serve a moda? Talvez não haja pessoa mais adequada para responder à esta questão que Pierre "Pietro" Cardin. O estilista ítalo-francês que, aos 88 anos, revolucionou a moda nos anos 60 e hoje possuiu bilhões em patrimônio, um império fashion que compreende não só a grife que leva seu nome, mas hotéis, fundações, móveis, imóveis e uma futura escola de moda em Veneza, é a personificação da moda hoje. Primeiro nome a criar uma coleção prêt-à-porter (para a loja de departamentos francesa Printemps, em 1959) e romper o ciclo exclusivista da alta-costura, vestiu dos Beatles a Jackeline Kennedy, passando por Sara Kubitschek, e até mesmo Fernando Collor (que queria ser modelo e chegou a desfilar para o estilista).

É este mesmo Pierre Cardin que está no Brasil para inaugurar quinta-feira no Shopping Iguatemi uma exposição comemorativa a seus 60 anos de carreira, realizar um desfile com 160 looks que criou ao longo da história e ministrar uma palestra. Foi um "Pietro Pierre" cheio de vitalidade que conversou com o Estado na manhã de ontem em um hotel de São Paulo.

Você já esteve no Brasil tantas vezes. O que mudou nestas décadas?

Há 42 anos, eu estive aqui e cortei a fita da feira de moda de são Paulo. Era um país diferente. Para dizer a verdade, o Brasil era pobre. E São Paulo não tinha a importância que tem hoje. Mas aqui tudo mudou mais rapidamente.

Inclusive na moda. O brasileiro quer consumir mais moda. Como o primeiro a criar uma coleção prêt-à-porter, vê a moda muito mais democrática?

Sim. Quando dei o salto, era perigoso. As pessoas diziam: "Moda não é para pobres. Eles não têm dinheiro para investir nisso".

E você rompeu essa "bolha". Quando sentiu vontade de "criar para pobres"?

Aquilo foi um escândalo. Eu tinha só 30 anos. Não era socialista, mas tinha uma tendência socialista como todo jovem. A vontade veio porque eu estava um pouco entediado. Já tinha vestido todos os ricos. As princesas, primeiras-damas... E a grande força era ir ao contrário. Era criar para os pobres. Então disse: Alla massa! Aos grandes magazines. Visitei 32 cidades dos Estados Unidos, fui à Austrália, ao Japão... Para falar a verdade, fiz minha fortuna graças ao prêt-à-porter. E perdi dinheiro com a alta-costura.

Lucrou com a venda dos direitos de reprodução de suas peças? Hoje, em tempos de fast-fashion, de internet, em que um desfile pode ser visto ao vivo pela internet, é quase impossível haver este controle.

Isso. Era é algo como o direito autoral. Hoje, com o acesso rápido à informação, ao mesmo tempo que é incrível como o mundo evoluiu e tudo vai rápido, não avançamos mais no sentido da criatividade. Copiar, em vez de criar, é fácil demais.

A moda estaria, então, banalizada?

Sim. Tanto na criação quanto no uso. A moda há algumas décadas era mais formal. As mulheres não trabalhavam fora e a "produção" era outra. Hoje se busca o rápido e o prático. Mas moda não é só roupa. É maquiagem, cabelos, acessórios, o carro que se usa, a casa em que se vive. Tudo agora é moda.

Então, a moda é necessária.

Depende, novamente, de achar a diferença entre o útil e o necessário. A moda é útil também. Porque é economia. Diria que é a segunda indústria mais importante do mundo, atrás da alimentícia e à frente da automobilística. E movimenta uma cadeia imensa de mão de obra que deve ser respeitada.

Como encontrar um equilíbrio?

As pessoas têm de encontrar a vontade de viver e de criar. Moda também é filosofia. As pessoas sempre têm pensamentos muitos idealistas. Mas a realidade não é assim. Vide os russos. Vide a Rússia hoje. Vide a trilogia da "liberdade, igualdade, fraternidade"... É preciso reencontrar uma grande filosofia.

E a sua grande filosofia hoje é?

É trabalhar com prazer, ter prazer na vida. E ajudar as pessoas. E trabalhar na comunicação. Dar emprego para as pessoas. Honrar o trabalho.

E a moda.

Sim, porque é preciso movimentar esta economia. Aqueles que têm dinheiro têm de gastar este dinheiro. Têm de fazer o dinheiro trabalhar. É um problema quando os ricos não gastam, pois o dinheiro fica acumulado em um banco e a economia não se movimenta. Dinheiro parado não produz. É preciso movimentar o mundo.

Os brasileiros gastam. Tanto que o País atrai cada vez mais grifes.

Sim. É verdade. Mas os franceses não gastam. Os italianos um pouco mais... Quando eu comecei a costurar, havia mais de 1200 grifes que se dedicavam à alta-costura. Hoje não há mais de 400. Uma queda absurda.

Por que a alta-costura perdeu espaço?

Porque as mulheres trabalham e os maridos enchem o saco (risos). As prioridades mudaram. Elas querem praticidade. A sociedade mudou, o mundo mudou. Mesmo entre as ricas.

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