FIT faz aposta corajosa na provocação

Na 7.ª edição internacional, mostra em São José do Rio Preto, que termina sábado, promove ainda estímulo à reflexão

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2007 | 05h18

Em sua 7ª edição internacional, o Festival de Teatro de São José do Rio Preto, realizado pela prefeitura da cidade e pelo Sesc-SP, mostra fôlego e perfil para sedimentar-se como relevante evento cultural no calendário cultural do País. A aposta corajosa em espetáculos provocadores - desses que partem de perguntas dos próprios criadores sobre o mundo que os cerca e causam tantas outras no público - e o estímulo à reflexão sobre o que foi visto, por meio de palestras, debates e a publicação de um jornal diário, com críticas aos espetáculos nacionais escritas por especialistas convidados são qualidades dessa mostra.Felizmente, uma parte da programação do festival, que teve início dia 9 e termina no sábado, não ficará restrita à cidade. Quem mora em São Paulo poderá ver, de hoje a domingo, três espetáculos do FIT: O Incrível Ladrão de Calcinhas, da Cia. Trip Teatro de Animação, de Santa Catarina, no Sesc Santo André; a montagem espanhola Medea, La Extranjera, no Teatro Sérgio Cardoso, e o francês Plan B, no Sesc Pinheiros.Quem não mora na região do ABC e decidir ir até o Sesc Santo André para ver O Incrível Ladrão de Calcinhas dificilmente se deslocará tanto quando Yuri Piardi, de 17 anos, que saiu de Iturama (MG), a 220 km de Rio Preto, para ver o festival. Com ele, estavam seus companheiros da Cia. Nômade de Teatro, seu professor de artes cênicas e outros estudantes mineiros. Não eram os únicos. Moradores de Mirassol, entre outras cidades próximas, vêm sendo atraídos pelo evento, como constatou o Estado. Valeu o esforço de Yuri.O espetáculo da Cia. Trip foi uma das boas surpresas da programação nacional. O prazer que provoca o espetáculo dessa trupe da pequena cidade de Rio do Sul (SC) brota da forma como se recria na linguagem de animação de bonecos a estética dos chamados filmes noir e das histórias em quadrinhos. Claro que esse ''''deslocamento'''' só resulta em arte viva, de intensa comunicação, pelo equilíbrio entre rigor técnico e inventividade com que essa transposição é feita pela trupe.William Sieverdt assina a concepção, direção e manipulação dos bonecos, mas a ficha técnica revela que a criação contou com uma vasta equipe. Da trilha sonora aos cenários tudo é muito bem cuidado nesse espetáculo que revitaliza imagens-clichê como o assassinato no beco, o detetive (chamado Bill Flecha) solicitado a salvar a bela loira de fartos seios ou o homem de capa e chapéu que fuma vagarosamente entrevisto pelas persianas frouxas do quarto de um hotel de quinta. A manipulação precisa, as gags verbais e visuais, o cuidado com o detalhe, a ousadia na exploração de tempos e pausas, o bem-humorado e inesperado desfecho fazem a qualidade dessa pequena obra de arte que merece ser apreciada.O chamado ''''novo circo'''' é a linguagem da Cia. 111 & Phil Soltanoff. Plan B começa com uma espécie de dança sobre um plano inclinado que a um só tempo maravilha, pela técnica, e faz pensar, pela forma como as imagens criadas pelos corpos dos atores remete à luta insana de executivos para chegar ao topo e se manter nele. A disputa pelo poder e pela sobrevivência no mundo corporativo é mote claro do espetáculo, o que valoriza o desfecho lúdico.Sob aparente simplicidade, Plan B é criação extremamente elaborada, tanto na técnica corporal impecável quanto na cenografia. Movimentos e cenário quebram o tempo todo nossas expectativas.Extremamente louvável a iniciativa de levar ao Teatro Sérgio Cardoso, a preços populares, alguns espetáculos internacionais por meio de parcerias com festivais. Pena que a escolha tenha recaído sobre Medea, criação pouco feliz de um respeitado grupo espanhol. A linguagem grandiloqüente e excessiva acaba resultando em ilustração dessa conhecida tragédia e, pelo menos na apresentação em Rio Preto, a trupe não conseguiu alcançar a densidade desejada.

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