Fisionomia de Giotto causa polêmica na Itália

Giotto di Bondone, o grande pintor italiano que praticamente criou a arte ocidental em 1300, tem um rosto. É a reconstrução, em gesso, feita em cima do crânio encontrado com outros restos ósseos no subsolo da catedral de Florença ? Santa Maria del Fiore. Os restos, guardados pela Opera de Santa Maria del Fiore ? instituto que administra a catedral, foram descobertos 30 anos atrás, durante algumas escavações. Mas só agora, graças a técnicas mais modernas e análises especialísticas, foi possível estabelecer que são de Giotto. O responsável pela pesquisa é Francesco Mallegni, professor de paleoantropologia humana nas Universidades de Pisa e de Palermo. Segundo ele, uma série de coincidencias entre as informações de documentos históricos e os resultados das análises, levam a acreditar que trata-se mesmo dos restos do grande artista que revolucionou a pintura introduzindo a noção de profundidade. Segundo os historiadores Giotto era baixo ? menos de 1 metro e 58 centímetros. O rosto era assimétrico, um olho maior que o outro, o pescoço taurino, busto maior que braços e pernas. Para Giovanni Boccaccio era ?pequeno e tão feio que impressionava pelo contraste com a beleza de sua obra?. Giotto era um homem rico ? que, portanto, se alimentava de carne cozida, legumes e queijos ? e morreu quando se aproximava dos 70 anos de idade. Os ossos examinados são de uma pessoa com todas essas características.Outro detalhe importante é a descoberta de que no material examinado há traços de arsenico, chumbo, alumínio, manganês, zinco e cobre em quantidades acima do normal. Esses elementos químicos compunham as cores fundamentais do esquema cromático de Giotto.A máscara de Giotto foi apresentada oficialmente ao público na quinta-feira, em Florença, junto com os restos do artista, também exibidos pela primeira vez. São o crânio, duas tíbias, um fêmur, duas partes de mandíbula e fragmentos menores. Os pesquisadores afirmam que há uma semelhança extraordinária entre o rosto reconstruído e o auto-retrato atribuído ao mestre florentino no Juízo Final da Capela Scrovegni de Pádua. Na opinião deles esse fato revoluciona a história da arte, antecipando em um século a introdução dos auto-retratos.?Não acredito nem um pouco nisso?, declarou Alessandro Parronchi, professor de história da arte em Florença, cético quanto à validade dos estudos conduzidos pela equipe do professor Mallegni. Ele define o rosto de Giotto reconstruído como uma espécie de Frankenstein. ?A fisionomia de um grande homem como Giotto deve ter algo que faça intuir o que tem dentro e não apenas um volume como esse fantoche?, criticou Parronchi.Segundo ele, não há alguma tradição figurativa de Giotto, nada que possa se parecer com um retrato. E acredita que a fisionomia do artista está no afresco da capela da Arena em Pádua, ao lado do que ele considera ser o retrato mais correto do poeta Dante Alighieri. As pesquisas ainda não terminaram e a polêmica está no início. Apesar disso, a superintendência dos bens artísticos e históricos de Florença, junto com a Opera del Duomo, resolveram colocar a reconstrução do rosto de Giotto ao lado da máscara fúnebre de Brunelleschi, no museu vizinho à catedral.Os resultados dos estudos que ainda estão sendo feitos, inclusive a análise do DNA, deverão estar prontos no dia 8 de janeiro de 2001, data de aniversário da morte de Giotto (1336).

Agencia Estado,

23 de setembro de 2000 | 13h09

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