Física quântica faz público rir no teatro

Com o monólogo Einstein, o atorCarlos Palma - em parceria com a produtora Adriana Carui - deuinício a um projeto ambicioso - levar ciência ao palco. Pelosolo, Palma ganhou o Prêmio Mambembe e levou mais de 300 milespectadores aos teatros de 18 Estados brasileiros. Depoisencenou o infantil Da Vinci, Pintando o Sete e, a grandeousadia, a tradução ´em língua de gente´ dos intrincadosprincípios da física quântica na peça Copenhagen. Estaúltima era uma peça densa, com quase três horas de duração, eainda assim ficou mais de um ano em cartaz. Mas como ninguém éde ferro, agora Carlos Palma optou por uma comédia para darcontinuidade ao projeto Arte e Ciência do Palco. Dirigida por Marco Antônio Braz, Perdida... UmaComédia Quântica, do espanhol José Sanchis Sinisterra - autorde mais de 20 peças, entre elas Ay Carmela, transformada emfilme por Carlos Saura - estréia nesta quarta-feira, no Teatro doShopping Pátio Higienópolis (Av. Higienópolis, 618, tel.3823-2323), repetindo a dobradinha Palma e Oswaldo Mendes noelenco, completado pela atriz Flávia Pucci. A peça terá sessõesàs 21 horas todas as terças e quartas. Nas quintas, serão duassessões, às 18h30 e 21 horas. Como subtítulo da peça indica, nãoé uma comédia qualquer, mas sim uma bem urdida e divertidíssimatrama criada a partir dos novos parâmetros da física quânticapara as dimensões de tempo e espaço. A julgar pela montagem carioca da mesma peça, dirigidapelo próprio autor, Perdida... tem tudo para repetir ou atéampliar o sucesso de Copenhagen. A trama é engenhosa e muitoengraçada. Uma cientista formada na Universidade de Harward(Flávia) volta à cidadezinha provinciana onde nasceu pararealizar, no clube local, uma palestra sobre Os Paradoxos doEspaço e do Tempo, diante de uma platéia de senhoras atônitas.Elas podem nada entender de física quântica, porém têm umacerteza: a de estarem no clube da sua cidade, numa determinadahora da noite e dia do mês. No entanto, a conferencista, com seudiscurso, tenta tirar "suas coordenadas mais confiáveis e suascertezas inquebrantáveis", como diz o autor num bem-humoradotexto de introdução à peça, sabiamente aproveitado como prólogoao espetáculo por Braz. A conferência não passaria de um sonífero para a platéianão fossem duas interferências fundamentais. A primeira, apresença do vice-secretário do clube (Mendes), um serzinhomedíocre e autoritário, um burocrata apegado aos estatutos doclube e, pior, ressentido nas suas ambições de poder na´hierarquia´ do clube. O tempo todo tenta tirar proveito dasituação - a presença do público da cidade que jamais estariaali para ouvi-lo - para propagar sua plataforma política e aindao sucesso de suas "experiências científicas" como a aquisiçãode "grandes ovos" de suas poedeiras. A segunda interferência, bem mais complexa, diz respeitoao tema da palestra. Repentinamente, começa a acontecer ocruzamento das dimensões do espaço e do tempo, exatamente a´probalidade´ sobre a qual a conferencista discursa. Desnorteada ela vai vivenciar o que ´prega´. Vê-se perdida em um lugar ´quenão é o clube´, onde encontra um sujeito (Palma) que jura estarem Praga, numa época que não é a dela. Em entrevista, por telefone, Sinisterra contou comodecidiu escrever Perdida... que, apesar de ser um de seustextos mais encenados, pela primeira vez integra um projeto comoo Arte e Ciência no Palco. "Fui estudar física quântica paraescrever uma outra peça, com o objetivo de trabalhar de formanão convencional com os deslocamentos de tempo e espaço na peça.Meu pai era professor de física e química e costumo dizer querepresento o seu fracasso pedagógico. Sempre tive uma tremendaincapacidade intelectual para o aprendizado da física." Ainda assim, apaixonou-se pelos paradoxos do espaço e dotempo descobertos pela física quântica. "Diante da dificuldadede traduzir minha apreensão daqueles conceitos, comecei aescrever o que, imaginava, seria um simples esquete. De início,tinha apenas uma situação cômica: uma conferencista desnorteadadiante do aparente ´enlouquecimento´ do espaço e do tempo." Mas o esquete começou a crescer contra a vontade doautor, que acabou abandonando a peça anterior. "Fui seqüestradopelo texto. E, confesso, com muita vergonha, porque eu ria muitoescrevendo e um autor que se preze não pode rir das própriasbrincadeiras." Vergonha que só aumentou quando a peça começou afazer sucesso na encenação de outros diretores. "Temia terescrito uma comédia inconsistente." Mas a impressão mudou quando ele mesmo pegou o textopara dirigir. "A cada vez que enceno a peça descubro novascamadas, cuja existência o autor desconhecia." Uma delas dizrespeito à figura do segundo vice-secretário, que consideravameio caricato. Ao realizar a direção no Rio, com CristianeJatahy no papel da cientista, atriz, diretora e responsável pelatradução, usada por Palma, o elenco chamou sua atenção para assemelhanças entre o vice-secretário e determinados políticos,cuja imagem é orientada pelo marketing. "É um personagem cadavez mais presente na política do mundo inteiro. Sua estratégia émobilizar a estupidez da gente. Eles pesquisam os pontos débeisda consciência coletiva para manipulá-los." Há muitas outrascamadas nessa peça que discute também uma questão fundamental nomundo de hoje. A sobreposição de tempos. "Hoje há pessoascompartilhando idéias do século 21 enquanto uma grande parcelada população ainda está no século 19. Um artista não pode perderde vista esse paradoxo."

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