Firme como um bluesman

Celso Blues Boy ressurge sem mudar uma vírgula daquilo que faz de melhor

HELTON RIBEIRO , ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h10

Todo mundo conhece a história, ou pelo menos parte dela: no início dos anos 80, o rock nacional estourou com Blitz, Kid Abelha, Barão Vermelho, Celso Blues Boy e alguns outros nomes. Celso Blues Boy? Muitos que nasceram nas duas últimas décadas talvez nunca tenham ouvido falar nele, mas o guitarrista foi um dos ídolos do nascente BRock.

Ele tocava nas rádios 'só sucessos' e volta e meia estava no programa do Chacrinha (equivalente em audiência ao Faustão de hoje). Aumenta Que Isso Aí É Rock'n'Roll era seu hino. Blues Motel e A Isso Chamam Blues foram hits quando poucos no Brasil sabiam o que era blues. Sempre Brilhará, Marginal, Tempos Difíceis - quem viveu a época lembra.

Ao contrário dos que concorriam com Celso nas paradas, ele acabou esquecido. Recolheu-se em uma chácara em Joinville (SC) e chegou a ficar nove anos sem lançar disco. Mas está de volta com Por Um Monte De Cerveja, primeiro registro de material inédito em doze anos. A banda formada para gravar o CD inclui gente de uma nova geração: os Detonautas Renato Rocha (guitarra) e Fábio Brasil (bateria).

Enquanto o RPM, por exemplo, volta com estardalhaço, o novo disco de Celso é independente e tem tiragem inicial de apenas mil cópias. O blues é assim, um tanto esquizofrênico, se equilibrando entre momentos de festa e melancolia. Na época em que Celso estourava aqui, por exemplo, Buddy Guy, um dos maiores nomes do gênero desde os anos 60, era recusado por todas as gravadoras americanas.

O primeiro bluesman do país não se abala: "Gravadora é um negócio que acabou. E a mídia se transformou, não pode mais ser mensurada pelo programa do Faustão. Hoje a internet tem um alcance muito grande, tenho fãs no Kosovo, na Arábia Saudita, no Japão. Nos anos 80 isso era praticamente impossível."

Um de seus fãs mais ilustres não é de tão longe: o carioca Tico Santa Cruz, vocalista dos Detonautas. Foi ele que convenceu Celso a compor canções para um novo CD. "Conheci o Tico quando ele pediu para dar canja num show meu no Rio, em 2009. Conversando depois, ele sugeriu colocar os Detonautas como banda de apoio para que eu gravasse um disco novo", conta o guitarrista.

Celso resolveu usar o baixista de sua própria banda, Roberto Lly (ex-Herva Doce, outro grupo de sucesso nos longínquos anos 80), formando um quarteto com Renato Rocha e Fábio Brasil (e mais os teclados eventuais de Sérgio Villarim). Mas a faixa Odeio rock'n'roll conta com todos os Detonautas.

Apesar dos músicos mais jovens, o CD não é modernoso. É o velho blues visceral, sem firulas, de Celso, algo que ele garante 'ter morrido' em 1974. "Nada que veio depois me agrada. Gosto de carro antigo, guitarras antigas, música antiga", explica, com um maroto adendo: Só mulheres é que ainda prefiro as novas, porque não há regra sem exceção."

De fato, o disco poderia ter sido gravado pouco antes de sua 'morte fictícia'. Transparecem nos sulcos - perdão, nas faixas - influências ou citações de Lou Reed (Por Um Monte De Cerveja), Rolling Stones (Odeio Rock'n'roll), Neil Young (Ele Sabia Que As Luzes Se Apagam) e Lynyrd Skynyrd (O Que Essa Humanidade Fez). A faixa título tem tudo a ver com o autor, que adora uma 'gelada'. Outro guitarrista carioca, Ivan Mariz, da banda Beale Street, conta sorrindo uma história de quando visitou Celso, há muitos anos: "Abri a geladeira dele e não tinha comida, água... Estava entupida de cerveja."

Nascido em 5 de janeiro de 1956, no Rio de Janeiro, Celso Ricardo Furtado de Carvalho vai ficando do jeito que gosta, ou seja, antigo. Ele começou a carreira nos anos 70, tocando nas bandas de Raul Seixas e Sá & Guarabyra. Ao lançar carreira solo, adotou o nome artístico em homenagem ao ídolo Blues Boy King (mais conhecido como B.B. King).

Como o mundo dá muitas voltas, acabou se tornando amigo do astro. Uma revista o escalou para entrevistar o rei do blues em uma de suas vindas ao Brasil, em 1985. A entrevista virou um bate papo, que evoluiu para canjas de um em shows do outro e a participação de King no CD Indiana Blues, de Celso, lançado em 1996.

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