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Fique com Deus...

Lemos a solidão como algo no mínimo irregular ou até mesmo pecaminoso e antipático

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 03h00

Falamos a todo momento e quase sem pensar para parentes, amigos ou desconhecidos (gente que não sabemos se acredita ou não nesse Deus a eles desejado) esse nosso “fique com Deus”. Salientamos uma crença indiscutível, pois o desejo que funciona como um revelador de sinceridade ocorre também nas aproximações físicas obrigatoriamente vigorosas daqueles esmagadores apertos de mão e no abraço que merece atenção porque implica, dependendo de quem você recebe nos braços, sopapos nos pulmões jamais explicitados que são, porém, parte da consideração dos barulhentos “abraços apertados”, aqueles que os “amigos do peito” têm direito de praticar, mas inexistem, por exemplo, nos hábitos americanos.

No entanto, seja o “fique” ou o “vá com Deus”, ambos são usados em despedidas. Quando, geralmente de modo pesaroso, real ou hipócrita, uma relação revela o seu lado finito e elástico a confirmar que, afinal de contas, temos independência individual relativa ou absoluta uns dos outros. Em ambos os casos, diz-se a mesma coisa: pois ou somos nós que saímos (e vamos com Deus...), ou é o companheiro que nos abandona e igualmente vai com a divindade suprema. O “vá com Deus” implica uma esperança de que, mesmo sozinho, o amigo siga em segurança e proteção, alcançando o seu objetivo mesmo em condições solitárias, pois se ele não está mais conosco fica modestamente com o Criador do Universo, o Senhor da vida.

Seriam essas expressões variações mais ou menos claras do clássico “adeus” ou seja: até o momento em que (com ajuda de Deus) vamos nos ver novamente? Seja no bar da esquina, no trabalho – ou no Céu onde Ele a todos espera? 

Eis uma pergunta que não cabe no espaço de uma crônica, mas minha imaginação nela vê a revelação de nossa dificuldade de viver uma solidão muito comum nos contos de fada, nos mitos e nas histórias de assombração, nas quais o sujeito da narrativa, por desígnios misteriosos, enfermidades inesperadas, desobediência, ou a maldade de algum bruxo invariavelmente solitário (e seu Deus), perde o rumo provocando um isolamento inesperado, perigoso e marginal.  

Algo que escapa das rotinas de suas sociedades. Uma rotina na qual podemos isolar a individualidade como um fato, mas não como um valor. Pois lemos a solidão como algo no mínimo irregular ou até mesmo pecaminoso e antipático – ficar só e sem Deus é sintoma de um isolamento negativo. Caso preferencial para autoritários e corruptos.

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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