Fios de arte em alta tensão

Obra do americano Fred Sandback é exibida pela primeira vez no Brasil

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2010 | 00h00

É uma obra mínima, mas carregada de potência: a partir do simples ato de esticar linhas em espaços com apenas fios de lã ou cordas elásticas, o artista norte-americano Fred Sandback (1943-2003) propõe trabalhos a serem vivenciados pelo público, constrói lugares de fina tensão, opera na bi e na tridimensionalidade. "Uma linha tem direção - um ponto de origem e um ponto de término. Uma linha é ainda uma discreta entidade que existe ao todo em um mesmo tempo", definiu em 1970 Sandback conclamando as diretrizes de sua obra ao longo de uma trajetória de quase 40 anos.

"Ele construiu um paradigma do que se pode fazer com o mínimo de recursos, uma opção como uma ética", diz Lilian Tone, curadora brasileira do Departamento de Pintura e Escultura do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e, agora, da primeira mostra do escultor no Brasil: Fred Sandback: O Espaço nas Entrelinhas, uma grande exposição que se desmembra em três locais - hoje, será inaugurada para convidados o maior segmento dela, no Instituto Moreira Salles do Rio; e depois, dia 17, as outras duas ramificações no espaço paulistano da instituição e no Centro Universitário Maria Antonia, também em São Paulo.

 

 

 

      

Mínimo. Registro de obra de 1983: mostras perpassam a carreira do escultor desde 1968

A mostra se fez a partir de parceria entre o Instituto Moreira Salles (IMS) e o Fred Sandback Archive, espólio do artista, perpassando sua carreira entre 1968, quando ainda cursava a Yale School of Art, até sua morte, e reunindo não só uma amostra variada de suas esculturas espaciais como desenhos, gravuras e um relevo negro em madeira. Apresenta, de uma forma direta que, como já definiu o escultor e ressalta a curadora, "existe mais de uma maneira para desenhar uma linha" - infinitas, talvez, feitas por ele, a partir de 1974, majoritariamente, com fios de lã.

Austeridade. Sandback é um aclamado criador contemporâneo que, segundo Lilian Tone, se distinguiu na geração americana do pós-Guerra, mesmo que com a influência de criadores do chamado minimalismo, entre eles, Donald Judd e Robert Morris. "A clareza inefável exalada pelas esculturas de Sandback - com sua presença aérea e serena, sua reação fluida ao contexto espacial - permeia todos os aspectos de sua produção, assim como o convite aberto para o espectador navegar pela inter-relação da obra com o lugar", ela escreve em texto de apresentação. Lilian exalta, ainda, que a obra de Sandback nos revela hoje "um conceito de escultura expandida" particular: "Não é vazia nem plena" e a cada lugar em que é recriada, configura uma situação espacial única e ganha ainda cor, com o uso de fios coloridos."

É curioso relacionar na obra de Fred Sandback, com sua construção de volumes no espaço - desde a década de 1970, quando eclodiam no cenário artístico as chamadas instalações - e criações de brasileiros. "No Brasil há grupo de artistas que pensam a escultura via processo, construção", analisa Lilian Tone, que está no MoMA desde 1991. Ela destaca "aproximações conceituais" entre Sandback e Lygia Clark - até com Mira Schendel - no sentido da criação de uma obra que insere o espaço cotidiano, mas é possível ainda se pensar numa relação do escultor com Waltercio Caldas, que expandiu o conceito de objeto - e inclusive já criou obra com fios de lã soltos, fazendo "algo mais sensual". "Entretanto, Sandback nunca deixou o fio no ar, existe sempre uma geometria, uma austeridade", diz Lilian.

Por ser a primeira exposição de Sandback aqui, este é o momento de introduzir sua obra para os brasileiros. "Infelizmente, não teríamos espaço para fazer um diálogo com criadores nacionais", afirma a curadora. O IMS prepara alentado catálogo que vai incluir imagens feitas in loco e ainda os escritos do artista.

QUEM FOI

FRED SANDBACK

ESCULTOR

O artista nasceu em 1943 em Bronxville, Nova York, e morreu em 2003. Primeiro, estudou filosofia na Yale University, depois, escultura na Yale School of Art and Architecture (onde conheceu os minimalistas Donald Judd e Robert Morris). Entre 1981 e 1996, a Dia Art Foundation manteve o Museu Fred Sandback em Winchendon, Massachusetts, e em 2003 a instituição colocou permanentemente várias de suas obras na unidade de Beacon (NY).

FRED SANDBACK: O ESPAÇO NAS ENTRELINHAS

RIO DE JANEIRO

Instituto Moreira Salles. Rua Marquês de São Vicente, 476, (021) 3284-7400. 12h/ 20h (sáb. e dom., 11h/ 20h; fecha 2ª). Grátis. Até 24/10. Abre hoje, 19h30.

SÃO PAULO

Instituto Moreira Salles. Rua Piauí, 844, Higienópolis, 3825-2560. 12h/ 19h (sáb. e dom., 13h/ 18h.; fecha 2ª). Grátis. Até 24/10. Abertura dia 17/8, 19h30.

Centro Universitário Maria Antônia. Rua Maria Antonia, 242, Higienópolis, (11) 3255-2009. 10h/ 21h (sáb. e dom., 10h/ 18h; fecha 2ª). Grátis. Até 24/10. Abertura dia 17/8, terça.

PALAVRAS DELE

Ambiente

"Meu trabalho não é ambiental. É presente no espaço pedestre, mas não é tão forte ou elaborado a ponto de obscurecer seu contexto. A obra não toma conta do espaço, mas coexiste com ele. A arte ambiental cria um novo ambiente e encobre o anterior e isso está tão distante do que almejo assim como uma pintura realista." (1975)

Escultura

"Acredito que em minha obra, o tempo, para o espectador, tem papel diametralmente oposto ao de uma escultura mais ou menos clássica. No David de Michelangelo, por exemplo, você tem de andar em volta do trabalho para coletar os fragmentos individuais de informação necessários para a compreensão da obra como um todo. Isto implica que o processo de percepção dura até você chegar a uma sensação da unidade. Em contraste, nas minhas obras, a unidade é dada desde o começo, e o processo subsequente de percepção pode durar eras." (1975)

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