Final feliz

'Não importa quanto eu me torno cínica, nunca é o bastante para me manter atualizada' (Lily Tomlin)

Lúcia Guimarães,

09 de janeiro de 2012 | 05h49

 

Há algo de especial nos concertos de música clássica no fim de ano. Não falo do inevitável Messias de Handel, mas da atmosfera celebratória da música ao vivo no inverno, quando o pensamento raspa o tacho do otimismo para encarar o ano que vai começar.

 

Foi com essa sensação de aconchego que me instalei numa poltrona confortável, numa sala de concertos ao Norte de Nova York. Um renomado quarteto de cordas ia apresentar duas peças sublimes que consolidaram o repertório do gênero, no século 19. E, néctar dos deuses, a tarde ficaria completa com uma peça recém-estreada de um dos maiores compositores contemporâneos.

Peço perdão e não estou aqui para torturar a curiosidade do leitor, mas, se fosse dar nome aos personagens, ia me colocar na mira de impulsos litigiosos e semear a discórdia. Em resposta a um velho ditado, sou das que preferem ser feliz do que ter razão. Então, relato o incidente para poder ruminar sobre o que Barack Obama gosta de chamar de experiência didática.

 

O primeiro movimento da peça do Grande Compositor Vivo começou com frases dissonantes que sempre me atraíram na música de sua lavra. Troquei um sorriso de satisfação com uma musicista americana, sentada ao meu lado.

 

Começou o segundo movimento e, em poucos segundos, troquei um olhar alarmado com a dita musicista. Mais alguns compassos e a nossa expressão era de incredulidade. Rabisquei no programa o nome de uma belíssima canção - uma canção composta por dois cariocas vivinhos da silva. Ela concordou com a cabeça porque, como me lembrou depois, eu havia lhe enviado recentemente um arquivo MP3 da mesma canção como sugestão para seu repertório.

 

Ish... (abreviação daquele palavrão universal em inglês). O programa incluía uma pequena recepção com os músicos. Fui cumprimentá-los, agradeci pela tarde memorável e contei como era fã ardorosa do Grande Compositor Vivo, ausente do evento. Perguntei a um dos instrumentistas o que mais sabia sobre o segundo movimento. Pouco, foi a resposta.

"Ele entregou o segundo movimento meses depois do primeiro e menos de 24 horas antes de première. Ele dizia que não estava encontrando sua voz." Hum.

 

Voltei para casa agitada com a possibilidade de se tratar de um dos maiores pesadelos da vida do compositor: ser traído pela memória e escrever na partitura a melodia dos outros. Só pode ser um caso desses, pensei, e acordei na manhã seguinte decidida a alertar o Grande Compositor Vivo. Ele não retornou minha chamada. Afinal, quando as grandes orquestras do mundo estão no seu encalço, seu tempo é precioso. Mas desabafei minha preocupação com outra musicista que o conhece e não posso reproduzir aqui a enxurrada de palavrões que ouvi. Ela mandou o recado curto e grosso: "Ligue já para a Lúcia porque é do seu interesse".

 

Não deu outra: atendi o telefone e depois de elogiar a peça, comecei a dizer, diplomática, "Acho que há um problema com a melodia do segundo movimento..." e ele me interrompeu, "Sim, aquela canção de Fulano. Eu adoro essa música. Mas se você sentiu isso e acha que pode parecer impróprio, vou mandar retirar imediatamente do repertório e escrever outro movimento". Assim nos despedimos, eu elogiando sinceramente sua obra, ele agradecendo a minha preocupação sincera.

 

O Grande Compositor Vivo, que recebera a encomenda de duas instituições, entregou a peça com um ano de atraso. E "encontrou a sua voz", uma parte dela ao menos, numa melodia popular, escrita na zona sul do Rio, na década de 80. Na tradição do que fazia Bach, ele me explicou, queria citar a canção, fazer uma "homage a esse monumento" que é o insuspeito melodista carioca. Eu me senti compelida a argumentar que o monumento em questão ia preferir receber a "homage" em espécie, sem falar em ter seu nome e sobrenome incluídos no programa impresso. Sim, a sensibilidade autoral do século 18 era outra. As entrevistas sobre a nova peça não faziam a menor referência aos 20 dos 36 compassos da canção original que receberam, na exaltação de um comentário, um tratamento "mahleresco", e concluí que a ideia era manter desconhecida a origem da melodia.

 

Meu pai me contava que um Grande Compositor Morto, natural de Ubá, dizia, maroto: "Música é feito passarinho, a gente vê no ar e pega".

 

Ou, como nos ensinaram os filósofos da Grécia Antiga, malandro demais se atrapalha. Mas, como bem lembrou o bardo de Avon, Tudo Bem Quando Termina Bem?

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