Fim de JK: série com ibope de novela

O que, afinal, caracteriza uma série de época? Carros antigos? Gente do passado que existiu de verdade? Músicas e figurinos fiéis ao momento histórico retratado? Se valem todos estes ingredientes, Maria Adelaide Amaral escreveu a melhor obra da carreira. Permeada por um rigor histórico quase infalível, a minissérie JK apresentou ao público um dos governantes mais polêmicos do País, antes popular apenas nos livros do colégio.É verdade que um mapa do Brasil estampado com o Mato Grosso do Sul escapou aos olhares atentos da produção e foi parar em uma cena dos anos 50, quando faltavam ainda mais de vinte anos para a inauguração de tal estado. O deslize é perdoável, já que está diluído em três meses de excelência técnica. Erros graves foram, na verdade, aqueles cometidos propositalmente, como a recusa em mostrar tropeços do presidente bossa-nova.Muito antes que algum historiador indignado se revoltasse diante do tratamento irrelevante dado a questões importantes, como o endividamento gerado pela construção de Brasília, a desvalorização do salário e os altos índices de inflação, Maria Adelaide já havia bolado ótima defesa: "Minissérie não é documentário", disse ela na estréia do programa, em janeiro. Deve ser por isso que, no capítulo final da série, mostrado na última sexta-feira, ninguém ousou especular sobre o suspeito acidente que matou JK.Optou-se pela comoção nacional causada pelo enterro, em detrimento às investigações sobre um provável assassinato que movimentou a época. Decidiu-se também ignorar o lado aventureiro de Juscelino. Mostrado com extrema ternura, o amor entre ele e a correta Marisa (Letícia Sabatella) foi quase um conto de fadas, a ponto de muita gente torcer pelo fim do casamento com Sarah (Marília Pêra).A imagem do Kubitschek herói, veiculada em pleno ano eleitoral, soa como um suspiro de esperança para aqueles que agora vêem desmoronar a história do pobre garoto eleito presidente. Segundo a autora, a adequação da obra ao atual momento político e toda comparação que se possa fazer entre Lula e Juscelino, não passam de coincidência. Afinal, para falar sobre política de verdade, vem aí o enfadonho horário político. Este, por certo, não alcançará impressionantes picos de 43 pontos como fez JK. Talvez, melhor mesmo, seja assistir à política como espetáculo de TV.

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