Tiago Queiroz|Estadão
Cadu, de 2 anos, também assiste aos vídeos de história que a escola manda e participa de algumas atividades com Maria Luisa, de 4 anos Tiago Queiroz|Estadão

Cadu, de 2 anos, também assiste aos vídeos de história que a escola manda e participa de algumas atividades com Maria Luisa, de 4 anos Tiago Queiroz|Estadão

Fim de férias: profissionais dão dicas para pais neste início de ano letivo, em casa ou na escola

Volta às aulas - com ensino a distância ou na escola - requer organização e diálogo com as crianças

Maria Fernanda Rodrigues , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Cadu, de 2 anos, também assiste aos vídeos de história que a escola manda e participa de algumas atividades com Maria Luisa, de 4 anos Tiago Queiroz|Estadão

Quando as escolas reabriram em setembro, Maria Luisa, de 4 anos, não voltou. Quase todos os amiguinhos voltaram a se divertir na quadra e no parque, ouviram história embaixo da árvore, brincaram com outras crianças da mesma idade. Ficou tudo bem naqueles últimos meses de 2020 – ninguém pegou o coronavírus – e Carolina Chi Shin Tong, mãe de Maria Luisa, até se animou com a ideia de voltar às aulas presenciais agora em fevereiro. Com o agravamento da pandemia, porém, voltou atrás.

O medo principal da família é que Malu leve o vírus para casa. Cadu, seu irmãozinho de 2 anos, já foi internado duas vezes com bronquiolite antes da pandemia, com passagem até pela UTI, e seu pai, Luiz Carlos Teixeira de Souza Junior, tem asma. Com a perspectiva de pelo menos Luiz Carlos ser vacinado – ele é veterinário, trabalha no Aeroporto de Cumbica e está na fila – e com a diminuição dos casos, a família pode rever essa decisão. Por ora, todos se preparam psicologicamente para a volta das aulas online, que nem sempre agradam às crianças menores. 

Fernanda Teixeira, diretora pedagógica da escola Capítulo 1, na Vila Mariana, usa duas palavras para definir esse recomeço: leveza e tempo. E diz que a retomada dos encontros online após as férias deve acontecer com atividades acolhedoras. “Os momentos individuais, entre o aluno e a professora, são um bom disparador para motivar a criança. Um momento que ela terá a professora todinha para si, poderá mostrar o brinquedo de que mais gosta, apresentar sua casa e assim vão criando vínculos.” 

Entre as dicas que Fernanda dá aos pais, está a retomada da rotina, cuidando do horário do sono e da alimentação. Ela sugere ainda montar, com a criança, um quadro apontando esses horários e atividades. “Isso a ajudará a se organizar, trazendo-lhe segurança e previsibilidade”, ela explica.

A diretora conta que a maioria (80%) das famílias da escola optou pelas aulas presenciais, que estão previstas para recomeçar nesta segunda, 1.º, com rodízio de alunos. Para ela, o mais importante para a educação infantil agora é a retomada dos vínculos, das brincadeiras, do movimentar-se pelo espaço. “Para as crianças que não retornarem, creio que as famílias também devam se concentrar nisso e no tempo – um tempo de qualidade nas relações, um tempo de estar junto de corpo e alma, de brincar”. 

A data do recomeço das aulas foi uma quebra de braço na Justiça. Na quinta, 28, o Tribunal de Justiça de São Paulo, por meio de liminar, determinou a suspensão da volta das aulas presenciais em escolas públicas e privadas em cidades que estejam nas fases vermelha e laranja do Plano SP. No dia seguinte, o governador João Doria (PSDB) recorreu da decisão e derrubou a liminar. Na mesma noite, outra decisão liminar impediu a volta das aulas da educação infantil pública – e ela também foi derrubada

Seja como for, Carolina Tong também tem dicas para quem optou por ficar em casa. “A Malu gostava dos encontros. Mas se eu me atrasava ou deixava para separar o material em cima da hora, ela sentia o estresse e às vezes não queria mais participar. A organização dos pais é muito importante neste momento”, diz. E conta que havia outra coisa que podia atrapalhar a concentração da pequena. Para que Carolina pudesse acompanhar Malu nas aulas, sua irmã ia até a casa da família para dar uma mão com Cadu. E Malu, que sabia que no celular da tia havia mais joguinhos do que no da mãe, às vezes não queria entrar na aula.

No fim das contas deu tudo certo. “Ela é tímida, falava pouco, mas conseguia se concentrar e gostava de concluir as atividades e mostrar para as professoras e para os amigos”, conta a mãe, para quem o vínculo com a escola é primordial. “A interação com outras pessoas é fundamental. O ensino online é menos do que o presencial, mas é mais do que ficar em casa só com a mãe e o pai.” Sem contar que o planejamento enviado pela escola é uma grande ajuda aos pais que já esgotaram sua criatividade nos primeiros meses da pandemia.

Com rotina e planejamento, é possível encarar mais um período de homeschooling até que as famílias se sintam seguras novamente para mandar as crianças de volta para a escola. Mas, em muitos casos, fica faltando o contato com outras crianças.

“A criança se desenvolve na relação com o outro e na relação com os seus pares. É ali que aprende a se posicionar, a dividir e a lidar com os limites colocados pelo outro. Ela se diverte e tem momentos de brincadeira onde vai desempenhar diferentes papéis que vão prepará-la para a adolescência e para a vida adulta. Na primeira infância, a interação social é um laboratório de vida. Tirar isso da criança é preocupante”, explica a psicóloga Rafaela Gualdi. 

Amor, cuidado, compreensão, validação de sentimentos e espaço para o diálogo são fundamentais dentro da famílias para um bom desenvolvimento emocional, cognitivo e social dos filhos, ela acrescenta. E reafirma: “Mas para que ela se desenvolva de forma mais plena, ela precisa do amiguinho. Nessa relação, ela aprende uma série de habilidades que dentro de casa, com adultos, não aprenderia da mesma forma.”

Para a criança que ficar em casa por mais tempo, ela sugere novos estímulos para entretê-la, organizar o cronograma de aula online, se possível ampliar a bolha para que o filho interaja com outras crianças e observar alterações de comportamento. Sobre o retorno do ensino presencial, ela recomenda tornar este momento o mais divertido possível, envolvendo a criança nos preparativos, mostrando fotos de como a escola está e antecipando como será o retorno. Ligar para um amiguinho antes também pode ajudar. No caso de qualquer dúvida ou insegurança dos pais, a recomendação é não discutir isso na frente dos pequenos. E ter paciência porque a readaptação pode ser lenta. 

Para a psicóloga Deisy Emerich-Geraldo, a escolha sobre o ensino online ou presencial deve ser determinada pela dinâmica da família. “Não dá só para considerar as necessidades das crianças e desconsiderar o contexto familiar. E não ouvir a criança também não é uma opção. E preciso ter equilíbrio”, diz.

 

Dicas para os pais no volta às aulas

  • Em casa ou na escola?

    Deisy Emerich-Geraldo sugere que pais de crianças a partir dos 5 perguntem como elas se sentem com a ideia de voltar para a escola. Recomenda, no caso das menores, que avaliem se ela é capaz de ficar com máscara por períodos prolongados e se sabem seguir regras. “Se não conseguem, talvez seja o caso de reforçar isso em casa antes, já que viveremos assim por mais um tempo.” Famílias também devem se perguntar se vão conseguir manter suas atividades pessoais e profissionais com o ensino remoto. 

  •  Rotina é importante

    E ajuda a criança a se sentir mais segura. Um quadro com as atividades diárias pode ser feito em conjunto com o filho. “É importante ter uma rotina regular, mas não rígida”, diz Deisy. A criança pode ajudar em casa, fazer uma culinária, brincar livremente. “Os pais, que são exemplos, também precisam ter um tempo de lazer.”  

  • Quando voltar

    Outra dica de Deisy é notar como o filho está voltando para casa, após o retorno presencial das aulas. Como é sua expressão, o que conta? Como se sentiu? 

  • Se não voltar

    Rafaela Gualdi recomenda, para quem se sentir confortável e seguro, que duas famílias convivam mais “para que a criança interaja com outra criança e para garantir a saúde mental dela”.

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Família Pavan. Manu e Yasmin apresentaram dificuldade para dormir e irritabilidade por conta da exposição excessiva à luminosidade das telas, relatam os pais, Cristiane e Diógenes. Tiago Queiroz/ Estadão

Excesso de tempo de tela nos meses de pandemia preocupa pais e pesquisadores

Crianças e adolescentes chegam a ficar quase 10 horas online; especialistas alertam para os danos

Charlise Morais , O Estado de S.Paulo

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Família Pavan. Manu e Yasmin apresentaram dificuldade para dormir e irritabilidade por conta da exposição excessiva à luminosidade das telas, relatam os pais, Cristiane e Diógenes. Tiago Queiroz/ Estadão

O isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus nos proporcionou uma nova experiência: o uso constante e quase ininterrupto do mundo digital. Entre as crianças e adolescentes, o desafio inclui usar as telas para o desempenho das tarefas escolares, aulas virtuais, pesquisas, além do uso afetivo dos dispositivos eletrônicos para o contato com familiares e amigos e, ainda, como opção de entretenimento e lazer. Com todas essas novas necessidades, o tempo de uso de tela entre crianças e adolescentes disparou no último ano, alarmando pais e especialistas. 

“Antes da pandemia, minhas filhas ficavam cerca de 2 horas por dia conectadas. Hoje, são quase 10 horas”, pontua Cristiane Pavan. A gerente de negócios, de 40 anos, é mãe de Yasmin, 13, e Manu, 9, que tinham aulas de 8h às 15h30 diariamente e duas vezes por semana praticavam esportes até às 19h. “Não conseguimos adaptar os esportes à rotina online”, conta Yasmin. “Passamos a fazer muitas chamadas de vídeo para falar com os amigos.”

 

 

Controlar o tempo de tela não é uma tarefa fácil, já que o brasileiro gosta de ficar conectado. O relatório Digital in 2020, realizado pelo We Are Social e Hootsuite, aponta que, no Brasil, o tempo de uso de internet em 2020 foi de 9h17 (a terceira posição num ranking de 42 países, atrás apenas das Filipinas e da África do Sul). O tempo que passamos online é bem superior à média global, que é de 6h43. “Em um dia de 24 horas, gastar 10 horas interagindo com as telas é muito”, acredita Kelli Angelini, gerente jurídico do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR).

Vale destacar que 89% da população entre 9 e 17 anos já era usuária de internet em 2019, quando a pandemia ainda não havia se instalado, de acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019. “Os pais, as famílias precisam ter em mente que o tempo gasto com atividades de educação e para o convívio (interação com outras pessoas) também são contados como tempo de tela. É preciso proporcionar também outras atividades fora das telas”, recomenda Kelli. 

Os especialistas consultados pelo Estadão afirmam que o excesso de exposição aos dispositivos eletrônicos pode desencadear uma série de problemas que vão desde má postura, obesidade, alternância de humor e ansiedade, até problemas de miopia, audição, crescimento e dependência tecnológica. 

Apesar de as meninas terem se adaptado facilmente à rotina online, os pais da Yasmin e da Manu notaram que a falta de exercícios físicos e o excesso de exposição à luminosidade das telas prejudicaram as filhas. “Elas passaram a ter dificuldade para dormir, ficaram mais irritadas e ansiosas”, conta Diógenes Pavan. 

 

 

Ana Luiza Vilar Bassalobre, de 13 anos, relata que o seu maior desafio durante a pandemia foi estudar. “Quando eu tentava me concentrar nas aulas, me distraía no celular. Precisei redobrar o esforço, pois na escola não tem esse tipo de distração", conta. Além das atividades esolares, ela passou a fazer online aulas de inglês e de artes gráficas e aderiu aos jogos virtuais como forma de socializar. Mas, mesmo com mais dificuldade para o aprendizado, a estudante não deve voltar às aulas presenciais tão cedo. "A minha mãe, Vera, de 76 anos, mora com a gente. O risco é muito grande ainda", explica a mãe de Ana Luiza, Flavia Vilar Bassalobre.

“Tirar o celular era uma forma de controle, como quando ela passava muito tempo online ou não tirava boas notas”, explica a empresária Fabiana Moura, mãe da Beatriz Hempel, de 13 anos. “Hoje, isso é impossível, não há possibilidade de restringir o uso do eletrônico agora”, lamenta Fabiana, calculando que o tempo de tela da filha aumentou em 80% na pandemia. 

Porcentual semelhante ao percebido pela mãe de Arthur, também de 13 anos. “Ele teve que aprender muitas ferramentas para as atividades escolares e também para interagir com os amigos”, explica sua mãe, Edi Souza. Ela conta ainda que toda a família passou a usar mais os aplicativos e as facilidades que o mundo virtual oferece. Mas,  para o ano letivo que vai começar em breve, a família de Arthur optou pelo formato híbrido (em que o aluno faz aulas presenciais e virtuais alternadamente). "Eu sou mais de brincar na rua, gosto de jogar bola sinto falta dos meus amigos", conta o estudante.

 

Evelyn Eisenstein, especialista do Grupo de Trabalho sobre Saúde na Era Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), chama a atenção para o fato de que as “crianças não são miniadultos”. “O cérebro delas está em desenvolvimento e é afetado pelo efeito das telas. Soma-se a isso a pandemia, com crianças e adolescentes ficando em casa, os pais de home office.”

Como consequência, Evelyn destaca, a tela é usada como entretenimento e sem supervisão. “É importante lembrar que eles são seres de cérebro em desenvolvimento e precisam de tempos: para dormir, se alimentar, fazer exercícios, brincar. As crianças precisam ter momentos de distração ativa, ou seja, na autonomia do movimento dela e não passiva olhando uma tela”, recomenda.

Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do IPq - Instituto de Psiquiatria da USP, explica que "Quando estamos lendo um livro, por exemplo, o tempo que a memória precisa para ser recrutada é  pessoal, varia para cada individuo. Para consolidar essa informação [que estamos lendo], tomamos o nosso tempo (batemos o lápis na boca, mordemos o dedo...). Quando temos, primordialmente, uma interação digital, esse tempo cerebral não é respeitado. Isso faz com que exista sobrecarga na tensão, e na medida que há sobrecarga, perdemos a capacidade de reter a informação. Se não houver equilíbrio entre o online e o offline, cria-se o que nós chamamos de transbordamento de informação", explica.

Para o psicólogo e pesquisador, quando pegamos todo o conteúdo que era offline e transportamos, de uma maneira rápida, por conta das necessidades, para a vida digital, há uma perda de atenção. “Não conseguimos reter a informação no nível e na velocidade em que é apresentada, o que começa a gerar a perda da memória de longo prazo”, explica Nabuco. “Isso faz com que essas crianças e adolescentes percam a capacidade de associacionismo. Ficam mais ‘rasas’, a primeira capacidade sacrificada é a criatividade, eles perdem a habilidade de conhecimento profundo, não têm tanta capacidade de interpretar texto, perdem a habilidade de reter as informações de forma adequada para o cérebro. Ou seja, se [a informação] não for rápida, fracionada e telegrafada, não desperta interesse e, com isso, cria-se um nivelamento bem negativo.”

Andréa Jotta, psicóloga e pesquisadora, do Laboratório de Psicologia e Tecnologias de Informação e Comunicação da PUC-SP, explica que o ‘detox’ digital deverá acontecer de forma gradual. “Temos um período pela frente de readequação ao mundo presencial e isso tem de ser feito com paciência e acolhimento.”

"Quando o uso da tecnologia for uma escolha (e não uma imposição, como é atualmente), qual vai ser a escolha da criança? O mundo presencial terá de ser muito atrativo para ela", diz. E os pais terão de participar ativamente dessa transição. "Essas gerações já nasceram conectadas. Então, não adianta comparar com a infância dos pais - que tiveram uma realidade diferente. Ensinar a elas as opções de brincadeiras físicas também é uma tarefa da família", pontua.

Para que essas crianças e adolescentes voltem a se interessar pelas atividades presenciais e físicas, Andréa explica que os pais terão de incentivar oferecendo opções de lazer, de divertimento e, sobretudo, "terão de dar o exemplo", recorda. "Se os pais não aplicam as condutas no dia a dia, não podem cobrá-las dos filhos".

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Tela em excesso prejudica o crescimento e a visão das crianças

O brilho das telas confunde o cérebro e bloqueia a melatonina, que inibe a produção do hormônio do crescimento; estudo aponta que a miopia é o efeito mais expressivo para a saúde dos olhos durante a pandemia

Charlise Morais, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

O brilho das telas, devido à faixa de onda de luz azul presente na maioria delas, confunde o cérebro e bloqueia a produção da melatonina (hormônio do sono). “Transtorno de sono é o primeiro sintoma do excesso de uso das telas”, explica Evelyn Eisenstein, especialista do Grupo de Trabalho sobre Saúde na Era Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). 

 

 

“As crianças estão em desenvolvimento e a melatonina está bloqueando a produção do hormônio de crescimento, que é liberado após o período de 1 a 2 horas de sono profundo. Se elas não dormem, ou vão dormir tarde, estão exaustas e, portanto, produzem menos hormônio de crescimento”, observa.

Além disso, ao acordar, os sintomas vão se somando à noite mal dormida: aumento da sonolência diurna, problemas de memória e concentração durante o aprendizado, além de associação com sintomas dos transtornos do déficit de atenção e hiperatividade.

A empresária Fabiana Moura viu o tempo de tela da filha Beatriz, de 13 anos, aumentar em ao menos 80% durante a pandemia. A consequência, relata a mãe, foi que adolescente ficou mais irritada, mais ansiosa e passou a ter problemas de insônia. “Sem falar no sedentarismo, no prejuízo para a postura e para a visão.”

De fato, a visão das crianças pode ser muito prejudicada pela rotina online. E, importante destacar, o dano é maior quanto mais novas elas são. Como mostra um estudo publicado na revista médica JAMA Ophthalmology, da Associação Médica Americana (AMA), que aponta que a miopia - dificuldade de enxergar a distância - é o efeito mais expressivo para a saúde dos olhos durante a pandemia do novo coronavírus

O levantamento, realizado na China com mais de 123 mil crianças entre 6 e 13 anos, constatou que o isolamento aumentou 400% a prevalência de miopia em crianças com 6 anos de idade. Nos participantes com 7 anos, o aumento foi de 200% e, aos 8 anos, de 40%. “O estado refrativo de crianças mais jovens (6-8 anos) pode ser mais sensível às mudanças ambientais do que as crianças mais velhas, visto que se encontram em um período importante para o desenvolvimento da miopia”, conclui o estudo.

 

Beatriz já passou dessa faixa maior de risco, mas teve de ir ao oftalmologista durante a quarentena. “Ele indicou à jovem usar os dispositivos eletrônicos por um período de 40 minutos seguidos e depois dar um descanso”, explica a mãe. “Durante o período de aulas, não existe a possibilidade de fazer esses intervalos”, reclama.

O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier e membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), esclarece que, no caso da pesquisa, trata de uma alteração transitória, a miopia acomodativa, decorrente do excesso de esforço visual para enxergar próximo, que provoca o espasmo dos músculos do olho responsáveis pela alternância do foco para perto, meia distância e longe.

O profissional ressalta que a primeira medida para controlar a miopia causada pelo estilo de vida é intercalar as atividades ao ar livre com o uso dos eletrônicos no dia a dia, inclusive durante a pandemia. 

O médico destaca que a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é evitar mais de duas horas ininterruptas diante de uma tela durante a infância. Para atender à demanda da criança por tecnologia, ele orienta intercalar o uso respeitando o tempo preconizado pela OMS com atividades ao ar livre e exposição ao sol.

É importante também ficar atento ao uso indiscriminado de fones de ouvido em volumes altos, que podem causar trauma acústico e perda auditiva induzida pelo ruído.

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Games também serviram como ‘válvula de escape’ para crianças e adolescentes na pandemia

Especialistas em saúde mental alertam para riscos do uso excessivo dos jogos

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

Comer além do necessário. Beber mais do que o costume. Maratonar filmes e séries. Qual foi sua ‘válvula de escape’ desde o início da pandemia do novo coronavírus? Para muitas crianças e adolescentes, que estão enclausurados em casa há quase um ano, sem poder frequentar a escola e se reunir com os amigos nas ruas ou condomínios, os games foram recursos importantes para manter a cabeça no lugar. É o caso de Vinnicius Maycoln Bitto Vicente, de 15 anos, que mora com a mãe e irmã em Jundiaí, no interior de São Paulo. “Gosto muito de Rocket League, mas somente na diversão com meus amigos, pois é muito difícil esse jogo (risos). Sempre fica emocionante com a galera toda. Comecei a aprender xadrez online para disputar. Me senti motivado, pois me empolguei com a série O Gambito da Rainha”, afirma o adolescente, que faz uso dos eletrônicos desde os 6 anos de idade.

 

 

Agora, ele dobrou o tempo no computador, chegando a ficar 11 horas por dia. “Acho que isso se deve à falta de movimentação cotidiana, não poder ir a passeios, escolas, viagem. A pandemia nos deu muito tempo para ficar em nossas casas e com isso acabei usando muito o meu maior hobby que é jogar”, explica. A mãe de Vinnicius, Fernanda Paula Bitto, trabalha como comerciante de calçados e sempre alertou o filho sobre os excessos, mas percebeu que a dinâmica poderia ajudá-lo em tempos de covid-19. “Já dei muitas broncas, mas vi um vídeo que diz que os games deixam as crianças mais estratégicas e pensantes, então, acho que é muito bom. Fiquei muito alegre quando vi que ele começou a jogar xadrez, só me preocupa se ele ficar o dia inteiro nisso. Por enquanto, ele consegue equilibrar as coisas”, diz.

Fernanda tem razão em observar o lado positivo dos games. A neuropsicóloga Gisele Calia explica que eles exigem dos usuários uma diversidade de habilidades mentais. “Tanto em crianças quanto em adultos. Quando pequenos, estão em formação. Então, os games exigem bastante atenção concentrada, memória operacional, controle inibitório. Essas são funções cognitivas fundamentais para a aprendizagem em geral. A capacidade de manter a atenção focada em um objetivo por bastante tempo, de planejar, antecipar reações, controlar impulsividade, ou seja, conseguir pensar antes de agir”, analisa. Porém, a especialista ressalta que essa não pode ser a única fonte de prazer ou o que chamamos de “válvula de escape” emocional.

 

 

Mariana Rocha Andrade, de 15 anos, jogava mais no computador antes da pandemia. Agora, só no console. “A quantidade de horas varia. Tem dias que fico por duas, outros, por dez horas. Acredito que os jogos são uma ótima distração para muitas pessoas durante essa quarentena. Eu acabei encontrando nisso um passatempo”, afirma.

“Já dei bronca quando ela tinha nove anos, porque ficava muito tempo e deixava de fazer coisas, como tomar banho”, ressalta a mãe da adolescente. Ao mesmo tempo, Maristela Rocha Andrade observa que os games ajudam a filha a se socializar: “Ela não sai, não tem quase amigos a não ser virtuais. Amiga da escola mesmo são uma ou duas. Agora, por exemplo, ela está jogando e rindo. E se isso faz bem para ela, faz bem para nós”.

A pediatra Luiza Mariana Cordeiro Silva, especialista em medicina do adolescente, enumera as principais queixas dos adultos. “Muito tempo diante das telas jogando, pouco tempo fazendo atividades da casa, escolares ou ao ar livre. Mas vale lembrar que esse cenário só é referido pelos perfis familiares que curtem esse tempo juntos. O que vemos com frequência na atualidade são pais que costumam ficar muito em frente às telas, com filhos seguindo exatamente os mesmos padrões. Eles têm se queixado também de uma mudança no padrão do sono dos adolescentes, trocando a noite pelo dia, muito mais do que eu observava na pré-pandemia, além de uma dificuldade em seguir algumas rotinas que aconteciam previamente, como refeições juntos”, afirma.

De fato, os números revelam que o consumo de games aumentou desde o início da pandemia do novo coronavírus. No Brasil, ainda não há dados consolidados, mas um relatório da SuperData, uma empresa da Nielsen, divulgado em 6 de janeiro, revela que só os jogos digitais renderam US $ 126,6 bilhões em 2020, um aumento de 12% em relação ao ano anterior.

Para 2021, o instituto prevê que os ganhos com entretenimento interativo aumentarão 2%. Especialistas da área acreditam que, mesmo com uma vacina contra a covid-19 alcançando muitas pessoas, os hábitos de longo prazo formados durante a quarentena vieram para ficar.

“A pandemia claramente teve um efeito na indústria de entretenimento digital e algumas pesquisas mostraram o efeito na indústria global de games”, destaca o presidente da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos (Abragames), Sandro Manfredini.

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Do ponto de vista de saúde mental, como fazer um uso consciente dos games?

A reportagem do 'Estadão' ouviu diversos especialistas nas áreas da medicina e psicologia para avaliar a atual conjuntura e dar dicas aos pais; confira

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

É inegável que os games preencheram uma lacuna importante após a pandemia, sobretudo no quesito interação social. Muitas crianças e adolescentes se conectaram através dos jogos online. Mas como usar a tecnologia de forma saudável, sem que esta seja a única forma de prazer possível no momento? Para esclarecer isso, foram entrevistados uma psicóloga especialista em Desenvolvimento, uma neuropsicóloga e um psiquiatra. Confira as opiniões abaixo:

 

 

Tauane Gehn, psicoterapeuta infantil e doutora em Psicologia do Desenvolvimento

 

Quais são os efeitos mentais do uso, excessivo ou não, de games por crianças?

As pesquisas indicam efeitos diversos do uso excessivo de telas em crianças e adolescentes, como impactos nos índices de obesidade, problemas de sono, atrasos no desenvolvimento da linguagem em crianças pequenas, aumento da reatividade emocional e da agressividade. A literatura científica também aponta uma correlação negativa entre tempo de tela e a qualidade da saúde mental - ou seja, em crianças e adolescentes que passam mais tempo frente às telas, tem-se observado pior rendimento acadêmico, problemas relacionados à autoestima, piora nos sintomas de depressão e ansiedade.

Além dos efeitos citados, o uso de jogos eletrônicos pode piorar problemas atencionais. Também há efeitos específicos relacionados ao conteúdo dos games. Sabe-se, por exemplo, que os violentos aumentam pensamentos, sentimentos e comportamentos agressivos. Além disso, ao dessensibilizar os usuários para a violência, os jogos podem diminuir demonstrações de empatia.

 

Esses efeitos vão depender da cada faixa etária?

O uso de tela está associado a efeitos que independem da faixa etária da criança (obesidade, problemas de sono, aumento da reatividade emocional). Porém, sabe-se que, em diferentes idades, a criança aprende repertórios distintos.

Na primeira infância, sobretudo nos dois primeiros anos, é bastante importante, por exemplo, que a criança seja exposta a estímulos sensoriais variados e possa explorar fisicamente o mundo. Com as telas, ela perde, pelo menos por aqueles instantes, a possibilidade de interagir com o mundo de forma rica e variada. Além disso, para o desenvolvimento da linguagem e da socialização, é importante que haja troca - ou seja, que as pessoas respondam de forma específica e individualizada aos comportamentos da criança, dando a ela também a oportunidade de reagir a cada expressão/fala de seus interlocutores.

Quando pensamos no uso de telas/games, temos vídeos pré-programados que não cumprem a função de promover uma interação de qualidade. Adicionalmente, a associação entre severidade dos sintomas de depressão/ansiedade e tempo de tela é ainda mais forte quando estamos falando de crianças menores. Conforme a criança ganha mais repertório, os jogos se complexificam e surgem novas possibilidades de problemas, tais como o ciberbullying.

 

Alguns jogos podem ter efeitos cognitivos positivos, como raciocínio, estratégia e outros?

Com certeza! Games não são vilões, nem mocinhos - seu impacto vai depender da forma como ele é usado, ou seja, com que frequência, como o jogo é feito, qual é seu conteúdo, em que contexto é jogado. Inclusive, a depender da forma como o jogo é feito, seus mecanismos podem potencializar reações de prazer e diminuir reações de frustração, de forma que sejam excelentes recursos para o início do ensino de habilidades que, de outra maneira, seriam difíceis para as crianças/adolescentes. Dito de outra forma, os games podem diminuir a aversividade e aumentar o prazer do processo de aprendizagem de alguns repertórios.

Com relação ao conteúdo dos jogos, há games que promovem o aumento dos exercícios físicos, como os efeitos do Pokemon GO, outros que oferecem ensino de habilidades educacionais específicas (raciocínio lógico, vocabulário, etc) e aqueles pró-sociais, que proporcionam ensino de empatia e comportamentos sociais adequados.

 

Na pandemia, os games servem como válvula de escape de pais e filhos. Qual a avaliação que você faz sobre isso?

Na pandemia, os games se tornaram a principal fonte de socialização das crianças e adolescentes com seus colegas. Retirar completamente o uso de jogos eletrônicos pode aumentar o isolamento social ao qual as crianças estão expostas. As recomendações que tínhamos sobre tempo de exposição à tela precisaram ser revistas frente a isso, mesmo porque, em geral, o tempo das aulas online já transcende o limite máximo diário que era indicado antes da pandemia.

Ao mesmo tempo, os pais estão sobrecarregados e em sofrimento, tendo que dar conta, simultaneamente, do trabalho, da casa e do cuidado dos filhos, sem a rede de apoio que antes tinham (escolas, funcionárias, avós). Os games, nesse sentido, às vezes podem surgir como um “respiro”, permitindo que a criança se distraia e que os pais possam equilibrar outros pratos. Na grande maioria dos casos, está todo mundo fazendo o melhor que pode.

 

Poderia dar um conselho para jovens e pais sobre o excesso de consumo de games?

Orientações radicais, por exemplo, “proíba seu filho de usar jogos eletrônicos”, tendem a não serem seguidas por mais do que alguns poucos dias. O ideal, nesse sentido, é pensar em redução de danos. Há algumas condutas que podem ajudar:

  • Restringir o uso de games a um local específico da casa, de preferência que não seja o quarto da criança.
  • Combinar com as crianças/adolescentes horários específicos para o uso.
  • Evitar jogos violentos.
  • Não jogar durante outras atividades, tais como comer e assistir às aulas.
  • Evitar jogar nas horas anteriores a dormir.
  • Estabelecer acordos sobre deveres e direitos - ou seja, determinar quais são os deveres que devem ser cumpridos para que o acesso aos games sejam liberados.
  • Monitorar e conversar com a criança a respeito das trocas sociais estabelecidas durante os jogos.
  • Fortalecer as relações familiares, de forma a diminuir a probabilidade de que o game seja utilizado como fuga do contato dentro de casa e a mostrar para a criança/adolescente que o mundo fora das telas vale a pena.

Outra questão importante é que, na pandemia, os conflitos familiares têm aumentado bastante por conta do uso de games. Na hora dos pais estabelecerem o limite, a casa pode se tornar um verdadeiro campo de guerra. As ferramentas de controle parental, nesse sentido, têm sido muito úteis, diminuindo o estresse dos pais na hora de colocar o limite e aumentando as chances de que os filhos cumpram os combinados. Tratam-se de ferramentas que podem regular o tempo de uso, bem como a amplitude de acesso das crianças/adolescentes aos componentes do jogo/computador/videogame, retirando dos pais a necessidade diária de fazer essa mediação.

 

 

 

Gisele Cortoni Calia, neuropsicóloga

 

Quais são os processos mentais envolvidos durante uma partida online?

Os games não são inócuos e exigem o uso de habilidades mentais específicas, ou seja, têm um efeito sobre o cérebro, mas não necessariamente prejudicial. As crianças e adultos usam bastante atenção concentrada, memória operacional, controle inibitório, que são funções cognitivas fundamentais para a aprendizagem em geral. Agora, o lado prejudicial do uso em excesso e só usar o game como a única forma de obter prazer, divertimento e aprendizagem é a falta de afetividade que eles trazem, por mais que possam trabalhar emoções, ainda assim, é intermediada pelas telas, pela tecnologia, então, não é atividade socioemocional. Mesmo que esteja jogando com outro colega, mesmo que sejam na mesma sala, isso não substitui a força de uma relação presencial. Tem um aspecto ainda pouco discutido que é o excesso de competitividade: “passei da fase, não passei de fase”. Esse excesso de excelência, de aprimoramento, também não são tão saudáveis.

 

O ato de jogar pode trazer algum ganho emocional?

Aprendizagem efetiva sempre traz algum tipo de recompensa mental, prazer. Nos games, ela se dá de forma muito eficiente. Faz a criança se sentir poderosa, capaz de conquistar coisas, a autoestima dela sobe. Então, ela busca fases difíceis e se esforça mais. Com isso, consegue novas estratégias para resolver os problemas.

 

Qual avaliação faz sobre o uso de jogos durante a quarentena?

As crianças têm, na sua essência, a 'válvula de escape’ principal que é o brincar. Para elas, é importante para o desenvolvimento total, afetivo-cognitivo. Na brincadeira, a criança simula situações da vida real, mas sem o peso das consequências. Por exemplo, ela pode brincar de fazer comidinha sem ter a preocupação real de queimar. Então, ela está exercitando a fantasia e realidade. Na pandemia, o brincar também foi afetado, como tudo. Assim como a reunião com os pais, a escola, a atividade foi para as telas. Já que essa é a opção, que seja lúdico, com os pais participando. Os filhos precisam ver os pais em momentos relaxados, porque o que não nos falta é motivo de preocupação. E isso pode trazer muita esperança para a criança entender que essa fase vai passar.

 

 

 

Rodrigo de Almeida Ramos, psiquiatra

 

Poderia nos dar exemplos de quais comportamentos crianças e adolescentes têm diante do excesso de games?

Estudos em neurociências demonstram que o uso excessivo de jogos acompanha o conjunto de sintomas de dependência química como sensação de recompensa inicial, tolerância ou necessidade de aumentar o período de consumo para se obter a euforia. O alcoólatra, por exemplo, organiza seu dia tendo o álcool em mente. O jogador compulsivo passa o dia pensando em que horas ele volta ao joystick. O problema é tal que a Organização Mundial de Saúde, na 11ª edição da sua Classificação Internacional de Doenças, incluiu dependência de games oficialmente como uma doença. Por outro lado, estudos recentes têm mostrado vantagens que os games proporcionaram aos jovens na pandemia, sobretudo no controle da ansiedade, estresse e depressão. Tem-se verificado inclusive benefícios cognitivos aos jovens como aumento na capacidade de concentração.

 

Quando pode ser considerado um vício?

Consideramos vício ou dependência de jogos quando o indivíduo tem prejudicada sua habilidade de evitar iniciar um jogo. Tecnicamente chamamos isso de impulsividade. Alguns sinais:

  • Dificuldades de controlar a frequência, intensidade e inaptidão para se encerrar o  jogo;
  • Domínio da prática do game sob qualquer outra atividade da vida do indivíduo. (Certa vez, tive um paciente que mantinha um balde no quarto, próximo ao aparelho, para suas necessidades fisiológicas. Assim, ele evitava ir ao banheiro que ficava a poucos passos dali);
  • Continuação e intensificação do hábito, mesmo com as consequências negativas que ele proporciona como baixo rendimento escolar e desemprego;
  • Irritabilidade;
  • Isolamento social com comprometimento de relações frente a frente, uma vez que todo universo do indivíduo passa a ser virtual.

 

Teremos uma geração de jovens diferente, já que os games servem como válvula de escape de pais e filhos?

É difícil dar uma resposta tão generalista, mas certamente os jogos terão um papel central no comportamento das gerações futuras. Afinal, com eles, as relações entre pais e filhos ficam menores. Os jovens tendem a ficar isolados no quarto, interagindo com pessoas que fogem ao controle dos pais. Adultos, com razão estressados pelo ritmo de vida que temos hoje, tendem a delegar aparelhos eletrônicos para os filhos para conseguirem tranquilidade.  Além disso, os jovens desenvolvem sua capacidade de comunicação apenas virtualmente e tendem a se inibir muito no contato face a face.

 

Como é feito o tratamento com crianças e adolescentes viciados em games?

Cerca de 3% dos jogadores são considerados dependentes. O tratamento é multidisciplinar. No caso da psiquiatria, o médico indica remédios para o controle do comportamento impulsivo, para o humor irritado e para o desconforto que o paciente sente quando afastado do jogo. Psicologicamente, avalia-se o que levou o indivíduo a centrar sua vida em algo tão artificial. O que está delegando afetivamente para os jogos? Timidez? Medo de enfrentamento? Fantasias? São temas que têm que ser pesquisados e tratados.

 

Existem algumas medidas preventivas?

Eu costumo dizer que o maior problema dos jogos não são eles em si, mas o quarto. A larga maioria das pessoas jogam isoladas e lá ficam o dia inteiro, alimentando-se mal, interagindo inadequadamente com os outros, evitando tomar sol etc. A primeira medida preventiva é estabelecer um limite de, no máximo, três a quatro horas por dia, no jogo. Isso deve ser acordado com a criança. Na sequência, devemos pensar em fazer esportes. Crianças e adolescentes saudáveis têm que praticar esportes, individual ou em conjunto. E terceiro, atividades coletivas, como atividades artísticas ligadas ao teatro ou música. Criança ou adolescente passando a maior parte do dia no quarto já é um erro grave, jogando é um erro duplo, porque pode gerar um comportamento de dependência. Jogar até é bom, porém, demais é doença.

 

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