Filmes mudos vão voltar para casa

75 obras encontradas na Nova Zelândia serão devolvidas aos EUA

Dave Kehr, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00


 

John Ford. A Torrente da Fama está sob os cuidados da 20th Century Fox e, após ser restaurado, deve reestrear em setembro

 

 

 

 

Um dos últimos filmes mudos de John Ford, uma breve comédia dirigida por Mabel Normand, um drama de época estrelado por Clara Bow e um conjunto de westerns de um só rolo estão entre os filmes americanos há muito perdidos que foram descobertos recentemente no Arquivo Cinematográfico da Nova Zelândia.

Desses filmes, 75 foram escolhidos por sua importância histórica e cultural e estão no processo de serem devolvidos aos EUA sob os auspícios da Fundação Nacional para a Preservação de Filmes, instituição de caridade sem fins lucrativos associada ao Painel Nacional de Preservação de Filmes da Biblioteca do Congresso. (O autor é membro deste painel e participou de comissões de distribuição de financiamento da fundação, embora nenhuma delas estivesse relacionada ao projeto em questão.) Chris Finlayson, ministro da Arte, Cultura e Acervo Histórico da Nova Zelândia, deve anunciar em breve, oficialmente, a descoberta e o repatriamento do material.

Os filmes foram encontrados no início de 2009, quando Brian Meacham, restaurador do arquivo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, visitou colegas do Arquivo Cinematográfico da Nova Zelândia durante as férias.

"A conversa inevitavelmente se voltou para os filmes que mantínhamos em nosso acervo", recorda-se Steve Russell, gerente de Serviços Corporativos do arquivo neozelandês. "Meacham não ficou muito animado ao saber que o Arquivo Cinematográfico possuía alguns filmes produzidos fora da Nova Zelândia, principalmente os de nitrato de celulose, entre eles um número significativo de obras americanas. Dissemos a ele que prepararíamos uma lista do material americano e logo chegamos ao estágio atual." Muitas produções estrangeiras permaneceram na Nova Zelândia após o término de sua vida comercial porque os estúdios acreditavam que não valia a pena pagar o custo de sua devolução. "É um caso raro no qual a tirania da distância trabalhou em favor do nosso interesse histórico", disse Russell.

Riscos. Por causa de sua importância, A Torrente da Fama (Upstream), de John Ford - uma comédia de bastidores de 1927, um ano considerado fundamental na carreira de um dos maiores cineastas americanos - está sendo copiado para película contemporânea em um laboratório neozelandês para evitar o risco de ser perdido ou ainda mais danificado durante o transporte.

Apesar de Ford já ser um cineasta famoso por dirigir westerns épicos como O Cavalo de Ferro (1925) e Três Homens Maus (1926), A Torrente da Fama parece ser o seu primeiro trabalho influenciado pelo diretor alemão F. W. Murnau, que em 1926 chegou à Fox, estúdio de Ford, para dar início à produção de Aurora, sua obra-prima americana. Com Murnau, Ford aprendeu a usar perspectivas forçadas e a iluminação chiaroscuro, técnicas que ele empregaria como complemento ao próprio estilo, mais direto e naturalista.

Richard Abel, professor de estudos cinematográficos da Universidade de Michigan e grande entendido nos primórdios do cinema, foi um dos especialistas chamados pelo Painel Nacional de Preservação de Filmes para avaliar o inventário e estabelecer prioridades entre as obras a serem devolvidas.

"A Torrente da Fama foi uma escolha óbvia e sugeri enfaticamente que fosse restaurado The Active Life of Dolly of the Dailies, com Mary Fuller, pois foram pouquíssimos os filmes dela que sobreviveram. Mas tentamos também preencher algumas lacunas, motivo pelo qual muitos dos primeiros westerns foram escolhidos." Populares em todo o mundo, os westerns foram um importante produto de exportação nos primórdios da indústria cinematográfica americana, assim como as comédias curtas, com seu humor físico que dispensava tradução.

Garotas. O acervo neozelandês conta com 9 comédias, entre elas Why Husbands Flirt, de 1918, filme do prolífico diretor e produtor Al Christie. Entre as descobertas estão numerosos trabalhos que sublinham a notável contribuição feminina aos primórdios do cinema. The Girl Stage Driver (1914) faz parte de um grande subgênero que Abel define como "filmes de caubói estrelados por garotas". The Woman Hater (1910) é um dos primeiros trabalhos de Pearl White, a rainha dos seriados, e Won in a Cupboard (1914) é o mais antigo filme sobrevivente de Mabel Normand, conhecida como estrela das comédias Keystone, de seu marido Mack Sennett. Maytime (1923), estrelado por Clara Bow, mostra a mais famosa das mulheres modernas dos anos 20 usando roupas de época, algo incomum em sua carreira.

Trazer os filmes até os EUA em cópias feitas com o instável nitrato de celulose, material usado até o começo dos anos 1950, não foi tarefa fácil. "Não se pode recorrer à Federal Express para enviar filmes em nitrato de celulose para fora da Nova Zelândia", disse Annette Melville, diretora da fundação. "Temos de transportá-los pouco a pouco aos EUA em latas de aço aprovadas pela ONU. Até agora recebemos cerca de um terço dos filmes e o trabalho de preservação já foi iniciado em quatro deles."

Quando chegam, as obras são armazenadas em ambiente refrigerado para retardar sua deterioração. "Estamos efetuando a triagem dos filmes para tratarmos primeiro dos casos mais graves, pois 25% deles estão em avançada decomposição do nitrato de celulose, mas os demais têm boa qualidade de imagem, embora tenham encolhido muito", afirmou Annette. Conforme conseguirem o financiamento, as produções repatriadas serão distribuídas às cinco grandes instalações de preservação de filmes em nitrato de celulose dos EUA - a Biblioteca do Congresso, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a George Eastman House, o Arquivo de Filmes e Televisão da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e o Museu de Arte Moderna de NY.

A Sony, que controla o acervo do estúdio Columbia, vai cobrir os custos de preservação de Mary of the Movies, comédia de 1923 que se tornou o mais antigo título do estúdio a sobreviver. E a 20th Century Fox, descendente do estúdio que realizou A Torrente da Fama, vai cuidar da obra de Ford. Se tudo correr bem, A Torrente reestreará em setembro, restaurado, em sessão de gala na Academia.

Os filmes preservados serão disponibilizados ao público em exibições de arquivo e também em formato streaming no site da fundação, no endereço filmpreservation.org. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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