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Filmes e peças num jogo de mão dupla

Resnais, Joe Wright e Jean-Pierre Améris levam o palco para a tela; José Wilker e Monique Gardenberg fazem o inverso

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2013 | 02h11

Virou lenda a história segundo a qual Alain Resnais exortava Marguerite Duras a fazer literatura enquanto escrevia o roteiro de Hiroshima, Meu Amor. A autora exasperava-se, porque seu sonho nada secreto era o cinema e Resnais lhe dizia que dele se ocuparia depois. Uma história parecida é contada por Anne Consigny. Ela faz uma das Eurídices na peça dentro do filme de Vocês ainda não Viram nada. E Anne relatou como Resnais pedia a seus atores que fossem teatrais, como se a vida fosse um palco.

Pegando carona em Vocês ainda não Viram nada e em alguns filmes do Festival Varilux que ainda rodam pela cidade, pode-se falar nas relações entre teatro e cinema, mas não no sentido tradicional. O cinema sempre recorreu à fonte do teatro, muitas vezes sob a forma de adaptações. Mas agora a questão é um pouco mais complexa. Resnais, e também Jean-Pierre Améris, diretor de O Homem Que Ri, e Philippe Le Guay, que assina Pedalando com Molière, querem fazer teatro no cinema, ou pelo menos invadir seus domínios. Inversamente, José Wilker e Monique Gardenberg incorporam técnicas de cinema a peças que dirigem e estão em cartaz. A de Wilker baseia-se num filme de sucesso - Rain Man, de Barry Levinson, que venceu os Oscars de filme, direção e ator (Dustin Hoffman) de 1988.

Na peça que dirigiu anteriormente - Palácio do Fim, de Judith Thompson -, Wilker já usara a iluminação como câmera, estabelecendo cortes, em cena, por meio da luz. Em Rain Man, ele contou ao repórter que se valeu de outro procedimento de cinema e criou travellings com objetos de cena para contar a história de Charlie e seu irmão autista, Raymond, o Rain Man. Monique adapta cinco contos de Haruki Murakami, compondo um espetáculo de teatro com material basicamente literário, do livro O Desaparecimento do Elefante. São histórias triviais de homens e mulheres, mas a trivialidade é subvertida pelo humor - levemente nonsense.

Uma das histórias, e uma das boas, é da dona de casa obcecada pela heroína de Leon Tolstoi, Ana Karenina. Monique e sua cenógrafa, Daniela Thomas, fazem cinema no teatro, usando tecnologia digital para definir o espaço cênico. Mais que isso, Monique, a exemplo de músicos que sampleiam o trabalho de outros músicos, sampleia outras Kareninas - e até Ingmar Bergman, Gritos e Sussurros - para criar a sua versão. É uma diretora que vive intensamente o cinema. Rogério Sganzerla, não por acaso, chegou a definir seu estilo como 'cinema vivo'. O curioso é que, se Monique leva o cinema para o teatro, Joe Wright faz o caminho inverso e encena sua Karenina como peça dentro do filme estrelado por Keira Knightley.

Em O Homem Que Ri, adaptado do original de Victor Hugo, Jean-Pierre Améris conta a história de Gwynplaine, transformado em monstro por meio de um procedimento cirúrgico - sua boca é rasgada num riso eterno. Ele vira atração no teatro mambembe de Gérard Depardieu, que queria ter feito O Homem, Que Ri após seu Cyrano (de Jean-Paul Rappeneau).

Toda a vida de Gwynplaine e seu amor por Déa são teatralizados por Améris, que radicaliza a carta do melodrama, mas isso não impede que o filme tenha um pouco do encanto mágico de A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola. Finalmente, a originalidade de Philippe Le Guay em seu Molière está em ter feito um filme que mistura a história do dramaturgo com a do ator que vai fazer O Misantropo na TV. Pedalando é contemporâneo, de época? A pergunta fica para o leitor, mas Fabrice Luchini, teatral como nunca, é ótimo no (duplo?) papel.

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