Beatriz Lefèvre/ Divulgação
Beatriz Lefèvre/ Divulgação

Filme 'Xingu' redescobre o Brasil

Longa do diretor Cao Hamburger mostra história dos irmãos Villas Boas ao Festival de Berlim

LUIZ CARLOS MERTEN, ESPECIAL PARA O ESTADO / BERLIM , O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2012 | 03h11

É uma discussão interessante e, mais do que isso, importante. Meryl Streep arrastou uma multidão anteontem para a coletiva de A Dama de Ferro, que estreia amanhã no Brasil. Meryl recebe um Urso de Ouro por sua carreira na Berlinale deste ano. Terá outra coletiva, específica para falar do prêmio. A de terça foi sobre sua participação no filme de Phyllida Lloyd a respeito da primeira-ministra Margaret Thatcher. Como se representa uma personagem? Como se apresenta, uma pergunta que pode ser formulada à diretora. Meryl disse uma coisa que pode gerar polêmica. "Todas nós (mulheres) temos mais em comum com Margaret do que gostaríamos de admitir." O feminismo, talvez?

Esse mesmo tema, o da representação histórica, pode ser retomado a partir de Xingu, o novo longa de Cao Hamburger, que estreia dia 6 de abril no Brasil - em plena Sexta-Feira Santa. A produtora Andrea Barata Ribeiro acrescenta: "Para ver se Deus ajuda a gente". Havia cerca de 50 pessoas - numa sala de 300 - na sessão de imprensa de Xingu. No sábado, quando o filme teve sua primeira exibição com público, a sala, muito maior, estava lotada. A coletiva também teve pouca gente, mas em defesa de Cao e do filme deve-se dizer que tudo isso ocorreu durante a projeção do concorrente chinês, e a imprensa estava, majoritariamente, no Palast. Quantidade não quer dizer, necessariamente, qualidade. Foi uma das melhores coletivas desta Berlinale.

Pode ser que tenha influenciado o fato de o filme interessar tanto aos brasileiros. Xingu, ao reconstituir o esforço dos irmãos Villas Boas para criar o Parque Nacional do Xingu, corria o risco de ser hagiográfico. Não é. No quadro do que não deixa de ser um esforço para salvar as nações indígenas, o filme narra a história da desintegração de uma família. Os irmãos, de três, reduzem-se a dois e os sobreviventes (Orlando e Claudio) amargam a culpa pela morte do terceiro (Leonardo). Como é preciso negociar cada movimento com os militares, durante a ditadura, Orlando e Claudio fazem-se acusações. E, no limite, apesar de todo o esforço, o parque carrega essa sensação de um paraíso perdido para a civilização. Na última tribo contactada pelos Villas Boas, havia 600 índios. Morreram mais de 500 antes de chegar ao Xingu.

Todos, dos atores (João Miguel e Caio Blat) ao diretor, foram unânimes em dizer que não foi uma simples filmagem. Foi uma experiência reveladora, uma espécie de redescoberta do Brasil. Quando se fala em índios, o teor da conversa, até mesmo entre ecologistas bem-intencionados, a preocupação é quase sempre preservacionista. Como impedir que eles sejam contaminados pelo consumismo da civilização? Um índio não pode desejar um tênis Nike? "O objetivo da criação do parque foi preservar a cultura dos índios, mas não impedir o curso da história. Se eles quiserem o tênis Nike, é uma escolha deles. Me interessa muito mais a via inversa. Teremos um dia a humildade de ver que podemos aprender com os índios?", pergunta-se o diretor.

 

Os choques culturais estão em muitos filmes - e nas diferentes seções da Berlinale. Ontem pela manhã, o repórter se encontrou com o diretor Miguel Gomes, do belo Tabu. Resumindo, ele falou do seu filme - metade em preto e branco, sem diálogos e imerso num clima onírico, de sonho - como expressão de seu desejo por um cinema não realista nem naturalista. É uma tendência que domina boa parte da produção atual. É a opção estética presente no cinema do presidente do júri, Mike Leigh. Tabu não tem chance por isso? "Não se esqueça de que ele tem um filme que foge disso em sua carreira, Topsy Turvy." O negócio é esperar que, na hora de premiar, Mike Leigh esteja em seu momento Topsy.

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