Filme tem mais Alma Reville que Hitchcock

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h12

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Anthony Hopkins deu uma entrevista reveladora à TV francesa. Disse que, ao interpretar o mestre do suspense em Hitchcock, passava por pesadas sessões de maquiagem e tinha de colocar diariamente uma barriga postiça, como se estivesse grávido. Mas acrescentou que a caracterização não ficava pronta antes que colocasse o terno e a gravata. "Hitchcock amanhecia de terno. Fazia parte de sua persona."

Hopkins toca num ponto decisivo. A François Truffaut e Claude Chabrol, que o entrevistaram no set de Ladrão de Casaca, Hitchcock disse que filmar era passar o filme pela câmera. No set, ele era um burocrata - terno, gravata, tratamento formal. O processo criativo era feito antes. Hitchcock será um tanto desconcertante para o tiete do grande cineasta. Ele talvez chegue à conclusão de que o filme tem mais Alma Reville do que Hitchcock - mais Helen Mirren do que Anthony Hopkins.

Sacha Gervasi baseou-se no livro de não ficção de Stephen Rebello, Hitchcock (Intrínseca). Logo na abertura do filme, ocorre a estreia de Intriga Internacional, que é um grande sucesso. Mas o próprio Hitchcock ouve de um jornalista que está velho, e lê no jornal uma reportagem sobre os novos mestres do suspense. Disposto a provar a si mesmo que ainda é o tal, ele embarca numa aventura arriscada. O estúdio lhe propõe um Hitchcock seguro, de novo com Cary Grant. Ele escolhe um pulp de Robert Bloch. Anuncia que vai fazer Psicose. A Paramount retira seu apoio. Hitchcock tem de hipotecar a casa para fazer o filme.

E não um filme qualquer - o diretor resolveu incorporar as técnicas de TV da série Alfred Hitchcock Presents. Teve de negociar com a censura, o Código Hays, as cenas de sexo e violência. Ficou acuado de todos os lados, e ainda houve a crise com a mulher e roteirista, Alma. Sentindo-se negligenciada pelo marido, ela flerta com um admirador. Ele surta. Mas é Alma quem vai resolver a parada, até mesmo dirigindo cenas de Psicose.

Janet Leigh, interpretada por Scarlett Johansson, será a loura da vez - e Alma/Helen sabe da queda do marido por loiras frias. Quando o filme fracassa nas previews, ela o força a voltar à sala de montagem para fazer o que sabe de melhor - editar um filme. A célebre cena do assassinato na ducha ganha sua versão definitiva (e a música, que Hitchcock não queria). Hitchcock é sobre o lado escuro da personalidade do gênio. Alfred tem sido revisitado criticamente, ao mesmo tempo em que suas obras-primas ganham reconhecimento além da conta - Vertigo. Um Corpo Que Cai acaba de desbancar Cidadão Kane, de Orson Welles, e O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein, como melhor filme de todos os tempos.

O gênio era um monstro - veja-se outro filme recente, A Garota, sobre como Hitchcock pirou ao ser rejeitado por Tippi Hedren. O cineasta de A Garota é um homem inseguro de si mesmo, à beira do colapso. Alma talvez tenha salvado Psicose, e o marido, agradecido, lhe concede quase uma coautoria, no final. Para hitchcockianos de carteirinha, o filme é fascinante - imperdível. Hitchcock iniciou com Psicose sua trilogia edipiana. A cena da ducha virou uma das mais influentes do cinema. No final, um corvo vem pousar no ombro do mestre, anunciando Os Pássaros. Marnie, Confissões de Uma Ladra será a obra-prima doente (segundo Truffaut). Pode ser que as coisas não tenham sido exatamente assim, mas a análise de Truffaut em seu livro (Hitchcock Truffaut) foi tão importante para o diretor Gervasi quanto o livro de Rebello.

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