Filme se inspira na convivência

Lúcio Cardoso, quando jovem, era um homem bonito. O jovem Paulo César Saraceni, que jogara no misto do Fluminense, mais ainda. Em 1961, Saraceni já tentara filmar Crônica da Casa Assassinada, mas terminou fazendo Porto das Caixas, com roteiro do próprio Lúcio. Em 1970, ele concretizou, enfim, seu sonhado projeto. Buscou sua Nina até no exterior. Queria a italiana Lea Massari. Sondou Leila Diniz, então casada com Ruy Guerra. Foi Leila quem disse - "Mas tem de ser a Norma (Bengell)!" No seu livro de memórias, Por Dentro do Cinema Novo, Saraceni conta que caiu a ficha de que ele já queria Norma em 1961, mas a esquecera.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2011 | 00h00

Foi difícil encontrar o ator para o duplo papel de André/Alberto, o jardineiro que faz um filho em Nina e se mata, e o próprio filho com quem ela mantém uma relação incestuosa. Um dia Saraceni viu esse garoto. Sentiu que a sua busca havia acabado, mas como abordá-lo? Passou a segui-lo durante dias, numa loucura de cão e gato, ou de pederasta, como conta no livro. Lúcio Cardoso, que morreu em 1968, teria gostado. Nos Diários, ele se revela um personagem de Rainer Werner Fassbinder ou Pier Paolo Pasolini, caçando, incansavelmente, garotos cujo corpo desejava.

Saraceni é um diretor irregular, mas não lhe falta talento. Ele se afastou do formato do livro, mas não do seu espírito. Escandalizou-o que, anos atrás, um jornal de São Paulo, que não o Estado, tenha invocado Nelson Rodrigues a propósito de A Casa Assassinada. Santa ignorância. O filme tem altos e baixos, mas os primeiros são altíssimos. É operístico e, segundo o poeta e crítico de visuais Walmir Ayala, como tragédia é mais grego do que mineiro. A montagem de Gabriel Villela, sobre texto de Dib Carneiro Neto, mantém o tom operístico, mas restabelece a mineiridade do escritor. A própria adaptação de Dib é um prodígio de síntese, que restabelece o formato de diários e cartas do romance. Villela radicalizou e fez a síntese da síntese. Menos de uma hora de paixões intensas e rasgos apaixonados/dilacerados da alma humana.

O livro, o filme e, agora, a peça começam com Nina morta, na mesa. As revelações ficam para o final e, na peça como no livro, o desfecho poderoso é a entrada em cena de Timóteo, o irmão rejeitado, que chega com suas roupas de mulher, estourando nas banhas de tão gordo.

Essa foi, talvez, a única ideia que Villela não respeitou, com seu Timóteo delgado. De resto, Lúcio está todo lá. Ópera e melodrama combinam bem, mas à estética das lágrimas a montagem contrapõe um estranhamento brechtiano, que tudo impregna, até, ou principalmente, as interpretações (menos a de Xuxa Lopes, como Nina). Villela leu muito Lúcio Cardoso, não apenas Crônica. Devorou os Diários, que foram uma espécie de farol para a sua abordagem. Saraceni teve a vantagem de ter sido amigo do escritor. Homenageado no Festival de Tiradentes, em janeiro, ele disse que teve o privilégio de conviver com dois gênios. Um foi o autor de Crônica. O outro, seu irmão de Cinema Novo. Glauber, claro.

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