Filme prenuncia o desencanto da nossa época

Difícil falar sobre a herança de uma revolução generosa e não cumprida, como faz Olivier Assayas em seu 'Depois de Maio'

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2013 | 02h08

Salvo para o pensamento de direita (Nicolas Sarkozy dizia que era preciso extirpar seu legado), maio de 1968 foi uma espécie de primavera do mundo. Tudo se ousou, tudo se pensou, tudo se fez. E a tentativa de mudar o mundo (como queria Marx) e a vida (como desejava Rimbaud) foi tão bela que, com frequência, nos esquecemos do seu fracasso político. A beleza prevalece sobre a dura realidade. Por isso, talvez, seja tão difícil falar sobre a herança dessa revolução generosa e não cumprida, como faz Olivier Assayas em seu Depois de Maio.

Curioso: o filme às vezes é criticado (como aconteceu no Festival de Veneza, onde concorreu) mais por suas qualidades que por seus defeitos. Dizem que ele não tem o "espírito de maio", quer dizer, aquela aura febril e poética. De fato, seu título o diz sem rodeios: é sobre a ressaca, não sobre a festa. É um registro da geração (a do próprio diretor), que chegou um pouco atrasada ao piquenique. Em 1971 havia ainda um resto do espírito contestador, mas já não era o mesmo de maio de 1968.

Outros elementos haviam se agregado. Por exemplo, o partipris político tornava-se dogmatismo e rigidez. O que era uma leitura alternativa do mundo virava catecismo de intolerância. Havia também a droga, a viagem mística ao Oriente, a busca de saídas individuais, já que as coletivas haviam falhado. No mercado das motivações, o empenho social cedia espaço para a iluminação da consciência individual. Um movimento sutil, facilmente reconhecível por quem viveu a época, similar em praticamente qualquer canto do mundo ocidental.

Em meio a essas tensões de idade e período histórico, debate-se Gilles (Clément Métayer), assumido alter ego de Assayas. Como o próprio diretor, Gilles divide-se entre o engajamento político e a aspiração artística. Como ele, dedica-se primeiro à pintura para depois se encaminhar ao cinema. É uma sutileza a mais: da arte das imagens paradas à das imagens em movimento; da arte da solidão à arte coletiva, por excelência. Enfim, reflexos dessa consciência em crise e em progresso que é a de Gilles/Assayas.

Nesse belo filme coral e polifônico, Olivier Assayas capta o nascimento de um mundo que, em muitos aspectos, é já o nosso. Flagra o início da falência dos projetos coletivos, prenúncio da barbárie neoliberal dos anos 1990, do fim da história (segundo Fukuyama), do suposto beco sem saída da espécie humana. Depois se viu que não era bem assim, que bem ou mal a História se move, mas o clima de desencanto prevalece. Se alguém falar em utopia, logo se é tachado de romântico, palavra que recebeu conotação pejorativa em nossa época.

Essas sombras começam a se projetar na época retratada por Assayas em Depois de Maio. Não é de estranhar que o filme seja menos vibrante do que se esperava.

CRÍTICA

JJJJ ÓTIMO

JJJJJ

ÓTIMO

ASSAYAS NÃO TRATA DO

MOVIMENTO

DE 68, MAS

DA RESSACA

DA FESTA

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