Filme para rir das picaretagens da vida moderna

JJJ BOM

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2010 | 00h00

O Abraço Corporativo é filme satírico, que dá uma bordoada dupla. Atinge tanto as chamadas técnicas de gestão quanto a credibilidade da mídia. Parte de um pressuposto, facilmente comprovável: o mundo, como se sabe, vive à mercê dos picaretas, e o filme de Ricardo Kauffman não deixa de nos lembrar que nasce um otário a cada minuto. Pode-se argumentar que, em alguma medida, sempre foi assim, e que ao longo da história humana espertalhões encontraram espaço fértil para progredir graças à estupidez e não raro à cobiça alheia. Mas também se pode reconhecer que nunca antes na história da humanidade o campo foi tão fértil para os vivaldinos.

Assim, no vale-tudo contemporâneo, por que não admitir que um gesto de carinho pode ser benéfico ao clima empresarial? E por que não levar a sério um consultor de RH que propõe a assim chamada Teoria do Abraço? De acordo com a tese do consultor, um certo Ary Itnem, os abraços combateriam uma séria "doença" enfrentada pelas empresas, a "inércia do afastamento", provocada pelo uso excessivo das novas tecnologias. Tudo isso parece meio idiota. Mas todos sabemos que no passado já nos venderam baboseiras ainda piores.

O problema é saber quem compra esse tipo de coisa. Então entra em cena o segundo termo da equação ? a mídia, com seus problemas causados não apenas por ignorância, mas pelo culto à velocidade, essa falsa virtude da vida contemporânea. Sejamos novidadeiros, é a palavra de ordem nas redações. E isso significa ir atrás de qualquer coisa que pareça nova, e à toda pressa, porque se não dermos a notícia, o nosso concorrente a dará. É o que chamamos da obsessão do "furo", jargão jornalístico para a notícia dada em primeira mão. Essa ideia fixa não raro leva à "barriga", outro jargão, este para definir a notícia falsa que depois precisa ser desmentida.

No mundo acelerado da internet, a distância entre o furo e a barriga encurtou. O jornalista, espremido entre duas exigências contraditórias ? a velocidade de publicar e a lentidão da apuração ? não raro perde o jogo.

A inteligência de Kauffman está em calibrar seu documentário (que é também uma história de ficção) sobre esses dois polos sensíveis da experiência contemporânea. Num mundo cada vez mais complexo, instável e de difícil decodificação, ele trabalha com uma espécie de redução ao absurdo, como nas demonstrações matemáticas. Quanto mais nos imaginamos "antenados", "contemporâneos" e "científicos" em nossas vidas profissionais, mais nos aproximamos do equívoco. E, talvez, do ridículo. De maneira simples, às vezes até simplista, O Abraço Corporativo serve para nos abrir os olhos. Se é que ainda queremos enxergar alguma coisa.

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